Congresso PPE: Conservadores franceses contra escolha de Ursula von der Leyen

Ursula von der Leyen desenvolveu uma estreita relação de trabalho com o Presidente francês Emmanuel Macron.
Ursula von der Leyen desenvolveu uma estreita relação de trabalho com o Presidente francês Emmanuel Macron. Direitos de autor Geert Vanden Wijngaert/Copyright 2023 The AP. All rights reserved.
De  Jorge Liboreiro
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Artigo publicado originalmente em inglês

A delegação francesa ao congresso do Partido Popular Europeu (PPE), que decorre em Bucareste (Roménia), na quarta e quinta-feira, anunciou que não apoia Ursula von der Leyen como candidata principal às eleições europeias.

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Ursula von der Leyen deverá ser eleita por aclamação como candidata principal do PPE às eleições para o Parlamento Europeu e, se o partido ganhar tal como projetam as sondagens, terá quase "passadeira vermelha" para um segundo mandato como presidente da Comissão Europeia, por mais cinco anos (a nomeação deve ser aprovada pelo Parlamento Europeu).

Mas a delegação francesa ao congresso, que se faz representar pelo  partido conservador "Os Republicanos", divulgou uma carta onde explica porque se opõe a essa escolha, criticando o legado político de Ursula von der Leyen e a sua proximidade ao governo liberal do presidente francês, Emmanuel Macron (partido Renascimento).

"Durante demasiado tempo, a União Europeia afastou-se dos cidadãos europeus e alimentou a sua desconfiança, construindo muros em reflexos tecnocráticos. Não podemos resignar-nos a esta crise de confiança", escreveu o presidente do partido Os Republicanos, Eric Ciotti.

"Para enfrentar os desafios futuros, a Europa precisa de clareza. A Europa precisa de mudanças profundas e de uma renovação no topo da Comissão Europeia. A presidente cessante da Comissão não pode ser essa candidata, porque encarna precisamente esta deriva tecnocrática", acrescentou.

Ciotti critica Ursula von der Leyen por não ter concorrido como candidata principal pelo partido, em 2019, mas ter obtido o cargo porque foi indicada pelo presidente Macron como uma figura conservadora, mas moderada e flexível o suficiente para apaziguar a fação progressista do Conselho Europeu.

A surpreendente nomeação de Von der Leyen enfureceu o Parlamento Europeu, porque o candidato do PPE era Manfred Weber, e confirmou a sua nomeação por uma margem muito reduzida. 

Demasiado progressista?

Mais tarde, Von der Leyen tentou "fazer as pazes" apresentando uma agenda ambiciosa e de grande alcance que incluiría o Pacto Ecológico Europeu, um fundo de recuperação de 750 mil milhões de euros para o período pós-pandemia de Covid-19 e a aquisição conjunta de vacinas. Mais tarde, a sua atuação para dar apoio à Ucrânia na sequência da invasão russa, em 2022, também grajeou apoio unânime.

Candidata de Macron e não da direita, deixou continuamente a maioria europeia à deriva para a esquerda.
Eric Ciotti
Presidente do partido Os Republicanos, França

Ciotti concentra-se em algumas destas iniciativas para criticar o mandato de von der Leyen, dizendo que é excessivamente progressista e contrário aos valores conservadores, responsabilizando-a diretamente pelos protestos dos agricultores que recentemente varreram a Europa

"Candidata de Macron e não da direita, deixou continuamente a maioria europeia à deriva para a esquerda", afirma Ciotti.

"Foi o caso, nomeadamente, das questões ambientais e agrícolas, mas também da gestão da crise migratória. Esta deriva alimentou a raiva que agora se pode ouvir em todo o continente, particularmente entre os nossos agricultores e pescadores", acrescentou.

Ciotti continua a criticar von der Leyen por, na sua opinião, ter abraçado "dogmas antinucleares" e "políticas de decrescimento promovidas pela esquerda" e "não ter conseguido enfrentar a imigração em massa e proteger as fronteiras externas", uma aparente referência ao aumento dos pedidos de asilo após a pandemia. Em 2023, a UE recebeu mais de um milhão de pedidos de proteção internacional, um máximo de sete anos.

O líder do partido francês também censura von der Leyen por ter participado num evento do partido Renascimento, em outubro, acusando-a de deslealdade partidária.

"Ao dar a impressão aos cidadãos europeus de que a Europa está a ser construída sem eles, e mesmo contra eles, von der Leyen e Macron estão a arriscar um enfraquecimento dramático e perigoso do projeto europeu", afirma Ciotti.

A carta é dirigida a Manfred Weber, presidente do PPE, datada de 5 de março e divulgada no dia seguinte, quando começa o congresso do PPE. Dado que Os Republicanos têm apenas sete lugares no grupo dos 177  eurodeputados do PPE, não se espera que a posição faça descarrilar as perspetivas eleitorais de von der Leyen.

Contudo, expôs uma divisão ideológica do partido, entre lutar para manter as suas raízes conservadoras e fazer avançar a visão de von der Leyen.

Em declarações à Euronews antes do congresso, Thanasis Bakolas, secretário-geral do PPE, manifestou o seu apoio à atual presidente.

"Temos uma candidata que é a atual presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, uma pessoa com um historial, uma pessoa cujo compromisso com a Europa é inquestionável", disse Bakolas.

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"Estamos desejosos que Ursula von der Leyen seja a nossa principal candidata às eleições europeias. E, claro, aguardamos com expetativa o seu segundo mandato", acrescentou.

Questionado sobre os protestos dos agricultores e a pressão exercida sobre o PPE para se afastar do Pacto Ecológico, Bakolas disse que o partido estava aberto a ter em consideração as suas exigências.

"Recebemos muitas críticas e muitas reações quando decidimos ouvir os agricultores, quando estes pediram à sociedade em geral e a nós, enquanto PPE, que ouvíssemos as suas necessidades, porque os agricultores são os guardiões da terra", afirmou.

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