Presidente do Conselho Europeu diz à Euronews: acordo de livre comércio com a Índia ajuda a estabilizar a economia global, abalada por tarifas. Reduz tarifas em mais de 90% das exportações da UE.
União Europeia volta a afirmar-se num mundo multipolar depois de assinar o que já é apelidado de "mãe de todos os acordos" com a Índia esta semana, disse à Euronews o presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Numa entrevista a partir de Nova Deli, depois de o acordo ter sido concluído na terça-feira, Costa disse que o acordo dá previsibilidade às empresas e aos investidores, mas também segurança num "mundo muito imprevisível".
"O acordo tem grande valor do ponto de vista económico, mas talvez mais importante é a mensagem que as duas maiores democracias do mundo estão a enviar à comunidade internacional", disse. "É importante, é essencial garantir previsibilidade para promover cooperação em vez de confronto."
Costa rejeitou a ideia de que seria o fim do sistema comercial multilateral, afirmando precisamente o contrário: o acordo é, na verdade, uma "forma muito importante de sustentar o sistema multilateral".
"Estamos a viver num mundo multipolar. E, neste mundo, precisamos de sustentar o sistema multilateral, defender o direito internacional e relacionar-nos bilateralmente com diferentes regiões do globo", acrescentou Costa, citando uma série de acordos comerciais concluídos pela UE no último ano, incluindo com o Mercosul.
Estados Unidos Alternativas ao mercado norte-americano
Prevê-se a redução de tarifas em mais de 90% das exportações europeias, poupando cerca de €4 mil milhões em direitos aduaneiros por ano.
Surge numa altura em que países de todo o mundo procuram alternativas ao mercado dos Estados Unidos, após a política agressiva de tarifas do Presidente Donald Trump.
Desde o "Dia da Libertação", em abril de 2025, os Estados Unidos impuseram tarifas comerciais a amigos e adversários.
No verão passado, Washington negociou um acordo comercial controverso com Bruxelas no campo de golfe Turnberry, de Trump, na Escócia.
Embora o acordo tenha reduzido as tarifas dos Estados Unidos sobre a maioria dos bens europeus, face aos 30% ameaçados por Trump na vaga de tarifas de abril, acabou por triplicar as tarifas anteriores ao "Dia da Libertação" sobre as exportações da UE. Isso motivou recriminações de eurodeputados e críticas de que a UE capitulou perante os Estados Unidos.
Em resposta, a Comissão Europeia reativou a agenda comercial, procurando novos mercados da América Latina à Ásia.
A Índia, por seu lado, opera atualmente sob um regime tarifário de 50% imposto por Washington em retaliação pelas compras continuadas de petróleo russo por Nova Deli.
A administração Trump indicou que poderia reduzir as tarifas, que à taxa atual praticamente encerram as exportações indianas para os Estados Unidos, apenas se o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, travar as importações de crude russo.
Questionado se temia retaliações da administração norte-americana devido ao acordo UE-Índia, Costa disse que não.
"Porquê?", questionou. "Ajustámos o acordo comercial com os Estados Unidos. Está agora no Parlamento Europeu para aprovação. E estamos a diversificar as nossas relações comerciais."
Um responsável europeu disse à Euronews que o complexo cenário geopolítico, aliado à introdução de tarifas, deu novo fôlego às negociações para fechar o acordo com a Índia.
Acrescentou Costa que, quando "vários agentes económicos globais estão a perturbar o comércio mundial", são precisos acordos comerciais para "estabilizar a relação comercial".
O ministro do Comércio da Índia, Piyush Goyal, disse à Euronews, numa conferência de imprensa, que as políticas de Trump não fizeram parte das discussões bilaterais durante a visita de três dias, que contou com uma ampla delegação europeia liderada por Costa e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, recebida com honras de Estado.
"Não foi tema", afirmou Goyal. Costa secundou as declarações.
"Não acha que a Índia e a Europa são suficientemente grandes para nos concentrarmos em nós próprios? Esta cimeira foi sobre a Índia e a União Europeia, e nada mais", disse Costa.