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Chefe da polícia italiana defende cooperação com forças de segurança egípcias 10 anos após a morte de Giulio Regeni

Projeto ITEPA2 em Roma
Projeto ITEPA2 em Roma Direitos de autor  Polizia di Stato
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De Stefania De Michele
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"A cooperação pode levar à verdade sobre [Giulio] Regeni": o chefe da Polícia de Itália defende o acordo policial com o Egito dez anos após a morte do investigador.

Dez anos após a morte de Giulio Regeni, sem um verdadeiro julgamento e com responsabilidades ainda contestadas pela segurança egípcia, Itália assinou um novo Memorando de Cooperação com a Academia de Polícia do Cairo, em Roma.

É a terceira fase do ITEPA2, o projeto europeu de formação para a gestão dos fluxos migratórios e o combate ao tráfico de seres humanos, que envolve funcionários da polícia de 22 países africanos.

A assinatura contou com a presença do chefe da polícia, Vittorio Pisani, e do presidente da Academia de Polícia egípcia, Ibrahim Youssef Nedal Abdelkader. Um passo que reabre questões profundas sobre o sentido da cooperação em matéria de segurança com o Egito, país que continua a ser alvo de graves acusações de violações dos direitos humanos.

O que torna a dificuldade da situação ainda mais evidente é a própria referência ao caso Regeni. "A Polícia do Estado foi o órgão policial que conduziu as investigações sobre o caso Regeni, investigações realizadas também com a colaboração e a aquisição de documentos fornecidos pela polícia egípcia", declara Pisani, acrescentando: "Este sistema pode facilitar a cooperação investigativa e judicial para que também se chegue a uma conclusão sobre o caso Regeni."

Palavras que situam o projeto ITEPA2 numa fratura ainda aberta entre a cooperação institucional, a memória de uma vítima italiana e a exigência de justiça.

Um projeto europeu liderado por Itália

O ITEPA (International Training at the Egyptian Police Academy) nasceu como uma iniciativa europeia e italiana para criar um centro internacional de formação especializada na Academia de Polícia do Cairo.

O programa — no qual participam, a vários títulos, diversas organizações internacionais e europeias, entre as quais a EUAA, Frontex, Interpol, UNODC, ACNUR e OIM, envolvidas em atividades de formação, cooperação operacional e gestão dos fluxos migratórios — é dirigido a funcionários da polícia e fronteiriços de países africanos de origem e trânsito dos fluxos migratórios para a Europa, com o objetivo de reforçar as capacidades operacionais no controlo das fronteiras, na gestão dos fluxos e nas investigações sobre o tráfico de migrantes.

A primeira edição do projeto (2018-2019) foi financiada com 1,7 milhões de euros pelo fundo europeu ISF Borders & Visa, com cofinanciamento de 50% entre a UE e Itália. O ITEPA2 foi incluído na programação europeia 2021-2027 com uma dotação estimada de cerca de 2,6 milhões de euros, embora até ao final de 2022 não tivessem sido oficialmente disponibilizados fundos.

Os intervenientes no projeto ITEPA2 - Formação Internacional na Academia de Polícia do Egito
Os intervenientes no projeto ITEPA2 - Formação Internacional na Academia de Polícia do Egito Polizia di Stato

Itália, através do Departamento de Segurança Pública e da Direção Central de Imigração e Polícia de Fronteiras, desempenhou um papel central na conceção e coordenação do programa.

"Elevar os padrões dos direitos humanos"

Segundo Pisani, o cerne do projeto continua a ser a dimensão dos direitos: "A importância fundamental deste projeto é aumentar o profissionalismo das polícias africanas que colaboram com as organizações europeias."

Acima de tudo, é importante elevar os padrões internacionais de direitos humanos através da aplicação de sistemas de garantia universais e inequívocos nas investigações.
Vittorio Pisani
Chefe da Polícia

Uma declaração que contrasta com as críticas avançadas por ONGs e parlamentares europeus, segundo os quais os conteúdos formativos e os mecanismos de monitorização dos direitos humanos nunca foram tornados públicos.

Aperto de mão entre o chefe da Polícia, Vittorio Pisani, e o presidente da Academia de Polícia do Egito, Abdelkader
Aperto de mão entre o chefe da Polícia, Vittorio Pisani, e o presidente da Academia de Polícia do Egito, Abdelkader Polizia di Stato

Os países beneficiários, algumas vozes

Do ponto de vista dos países africanos envolvidos, o ITEPA2 é apresentado como um instrumento operacional essencial.

O diretor-geral da Polícia do Senegal, Mame Seydou Ndour, lembrou que o Senegal é "um país de partida, trânsito e destino da migração", salientando que a formação recebida no âmbito do ITEPA permitiu melhorar o combate à migração irregular e ao tráfico de migrantes.

Mais complexo é o contexto citado pelo diretor nacional da Polícia Judiciária da Guiné-Bissau, Domingos Monteiro Correia.

A Guiné-Bissau esteve recentemente no centro de um golpe militar ocorrido a 26 de novembro de 2025, no qual as forças armadas depuseram o presidente e suspenderam o processo eleitoral normal, instaurando uma junta militar que suspendeu a ordem constitucional.

"O projeto ITEPA2 alcançou resultados muito importantes para os países beneficiários, reforçando as capacidades das forças de segurança na luta contra o tráfico de migrantes, o tráfico de seres humanos e o crime organizado", afirma Correia.

Respondendo às críticas levantadas na Europa sobre os direitos civis e políticos, Correia admitiu que as preocupações são "inquietantes", mas argumentou que projetos como o ITEPA visam reforçar os quadros jurídicos e institucionais e melhorar o respeito pelos direitos humanos nos Estados participantes.

Críticas e contradições

No entanto, persiste o nó político e moral da cooperação com o Egito. Organizações de direitos humanos como a EgyptWide for Human Rights, a Statewatch e a Arci denunciam há anos uma tendência das políticas europeias para privilegiar a contenção dos fluxos migratórios em detrimento da proteção dos direitos fundamentais.

Uma contradição que se torna ainda mais evidente pelo facto de o Ministério dos Negócios Estrangeiros italiano continuar a desaconselhar viagens ao Egito por motivos de segurança, enquanto o próprio país se torna um parceiro central na formação das forças policiais africanas.

Dez anos após a morte de Giulio Regeni, o ITEPA2 apresenta-se como um centro de ensaio que vai além da cooperação técnica.

A questão permanece sem resposta: pode a segurança tornar-se credível se a justiça continua por se concretizar?

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