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França prepara-se para enfrentar Alemanha e Itália enquanto líderes da UE procuram impulsionar a economia

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, participam numa conferência de imprensa no final de uma cimeira intergovernamental em Itália, a 23 de janeiro de 2026.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, participam numa conferência de imprensa no final de uma cimeira intergovernamental em Itália, a 23 de janeiro de 2026. Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Peggy Corlin
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Paris está a enfrentar um eixo Berlim-Roma no debate sobre como reanimar a economia da UE. Dos "eurobonds" a uma preferência europeia e ao acordo comercial com o Mercosul, as visões concorrentes deverão colidir quando os 27 líderes do bloco se reunirem na quinta-feira.

Duas visões concorrentes para o futuro económico da UE irão colidir na quinta-feira, quando os líderes do bloco se reunirem num retiro informal para discutir a revitalização da competitividade do bloco.

De um lado está França; do outro, uma Alemanha e uma Itália recém-alinhadas.

Paris fez uma jogada de última hora para se juntar a uma pré-cimeira informal agendada por Berlim e Roma antes do retiro na quinta-feira de manhã, numa tentativa incomum de coordenar as suas posições antes da reunião de líderes.

A intervenção francesa seguiu-se às declarações do presidente Emmanuel Macron a vários meios de comunicação europeus, na terça-feira, e equivale a um esforço para afirmar a agenda de Paris em resposta a um documento divulgado nos últimos dias por Alemanha e Itália, que apresenta uma visão muito diferente para a economia da UE.

Ao fazê-lo, o presidente francês mudou o rumo da conversa e colocou firmemente em cima da mesa uma das questões mais controversas para os líderes da UE: a mutualização de dívida para sustentar o bloco.

O momento escolhido também não é coincidência.

No início deste mês, Mario Draghi apelou à UE para que trabalhasse como uma verdadeira união e instou os dirigentes a adotarem uma abordagem federalista "pragmática" para sobreviverem num mundo novo e mais brutal.

O retiro em Alden Biesen, na Bélgica, ocorre um ano e meio depois de um relatório histórico de Draghiter alertado para uma perspetiva sombria para a economia europeia, a menos que fossem tomadas medidas decisivas para impulsionar a competitividade.

Desde a publicação do relatório, em 2024, o panorama geoeconómico mundial mudou drasticamente, com as agendas agressivas dos EUA e da China a exercerem pressão sobre os 27 países da UE.

Macron é o mais fiel às ambições de Draghi, mas é também o líder mais fraco a nível interno, em comparação com Meloni e Merz.

Esperada divisão em relação aos "eurobonds"

Durante o retiro, os líderes centrar-se-ão "no reforço do mercado único, na redução das barreiras ao crescimento e no reforço da autonomia estratégica da Europa", de acordo com a agenda apresentada pela presidência cipriota da UE.

Draghi, juntamente com outro ex-primeiro-ministro italiano, Enrico Letta - que publicou também um relatório histórico sobre o Mercado Único, no mesmo ano - irá participar em parte das discussões.

Ainda assim, um alto funcionário da UE disse que o tempo para diagnósticos acabou e que os líderes agora precisam de tomar "medidas concretas" para levar adiante a agenda económica da UE.

No entanto, será difícil chegar a um consenso. O motor franco-alemão da UE parece estar a falhar, com Paris a enfrentar agora uma nova aliança Berlim-Roma. A 23 de janeiro, a Alemanha e Itália concordaram em coordenar as suas iniciativas para desregulamentar a indústria.

O primeiro ponto de discórdia deverá ser o apelo feito por Macron, na terça-feira, para a emissão de dívida conjunta pela UE – "eurobonds" – para financiar os investimentos massivos necessários para aumentar a competitividade. O relatório de Draghi, em 2024, estimou essas necessidades entre 750 e 800 mil milhões de euros por ano.

"Temos três batalhas a travar: na segurança e defesa, nas tecnologias de transição ecológica e na inteligência artificial e tecnologias quânticas. Em todos estes domínios, investimos muito menos do que a China e os Estados Unidos", referiu Macron, acrescentando: "Se a UE não fizer nada nos próximos três a cinco anos, será varrida destes setores."

O presidente de França, Emmanuel Macron, faz um discurso perante os embaixadores franceses na quinta-feira, 8 de janeiro de 2026, no Palácio do Eliseu, em Paris
O presidente de França, Emmanuel Macron, faz um discurso perante os embaixadores franceses na quinta-feira, 8 de janeiro de 2026, no Palácio do Eliseu, em Paris AP Photo

Berlim, no entanto, há muito que resiste a repetir o empréstimo conjunto utilizado para financiar o plano de recuperação pós-Covid, no valor de 750 mil milhões de euros.

Em vez disso, espera-se que Alemanha e Itália apelem, na quinta-feira, a um maior financiamento de capital de risco e a opções de saída mais fortes para os investidores. O documento distribuído por Roma e Berlim sugere "a criação de uma bolsa de valores pan-europeia, um mercado secundário pan-europeu e uma revisão dos requisitos de capital para a concessão de empréstimos, sem prejudicar a estabilidade financeira".

No que respeita aos "eurobonds", os países nórdicos têm tradicionalmente apoiado a Alemanha.

Ainda assim, o mesmo alto funcionário da UE observou que "quando a União Europeia precisa de tomar essas decisões, ela toma", acrescentando que o empréstimo conjunto continua a ser uma opção, depois do bloco ter voltado a recorrer ao mesmo no final de 2025 para apoiar a Ucrânia. "Não existe um sonho de dívida europeia. Existe dívida europeia nos mercados e acabámos de aumentá-la em 90 mil milhões em dezembro passado."

Numa carta enviada aos líderes europeus na segunda-feira, a líder da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, não mencionou o empréstimo conjunto, apostando na redução da regulamentação excessiva e na integração do mercado único de 27 países.

Na véspera de uma reunião com líderes da indústria europeia, apelou também à criação do chamado 28.º regime para harmonizar as regras para as empresas que operam em toda a Europa.

As condições rigorosas da Alemanha

França está também a insistir numa prioridade de longa data: uma política de preferência europeia, ou "Made in Europe", que favoreceria os produtos com conteúdo comunitário na contratação pública.

"É defensivo, mas é essencial, porque estamos a enfrentar concorrentes desleais que já não respeitam as regras da Organização Mundial do Comércio", disse Macron na terça-feira.

Embora a ideia tenha ganho força nas capitais da UE e na Comissão Europeia, os países nórdicos e bálticos, bem como os Países Baixos, alertaram, num documento informal divulgado antes da cimeira, que a preferência europeia "corre o risco de aniquilar os esforços de simplificação, dificultando o acesso das empresas a tecnologias de ponta a nível mundial, dificultando o intercâmbio com outros mercados e afastando os investimentos da UE".

Entretanto, a Alemanha fez circular um documento, consultado pela Euronews em dezembro, no âmbito das discussões entre os 27, que estabelece condições rigorosas. Berlim quer que a preferência europeia seja limitada no tempo, definida em termos gerais e aplicada apenas a uma lista restrita de produtos. É também a favor de uma abordagem "Made with Europe", aberta aos países com acordos de comércio livre com a UE e a outros parceiros "com ideias semelhantes".

Itália, a terceira maior economia da UE, aliou-se à Alemanha. Ambos os países afirmam que a sua prioridade não é apenas apoiar as empresas europeias, mas também "atrair novas empresas de fora da UE", de acordo com o documento enviado a outras capitais.

Macron pareceu alinhar parcialmente com este ponto de vista na terça-feira, afirmando que a preferência europeia deve concentrar-se em setores limitados, como a tecnologia limpa, os produtos químicos, o aço, o setor automóvel ou a defesa. "Caso contrário, os europeus serão varridos", afirmou.

Berlim e Roma querem mais desregulamentação

Durante o retiro, Berlim e Roma vão também promover uma agenda de desregulamentação. Como a Comissão Europeia lançou vários pacotes de simplificação em 2025, os dois países estão a pedir "novos recuos e simplificações das iniciativas da UE em todas as áreas".

Propõem igualmente um "travão de emergência" que permita a intervenção se a legislação suscitar "sérias preocupações quanto a encargos administrativos adicionais, tanto para as empresas como para as autoridades nacionais".

Por último, mas não menos importante, o acordo comercial com o Mercosul assume grande importância. Durante o retiro, a Comissão tenciona consultar os países da UE sobre a sua aplicação provisória, após uma revisão judicial desencadeada pelo Parlamento Europeu ter suspendido a ratificação do acordo, assinado com o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai.

França continua a opor-se firmemente ao acordo com o Mercosul, citando os receios dos agricultores quanto à concorrência desleal das importações latino-americanas. Mas, apesar disso, o acordo obteve o apoio da maioria dos Estados-membros em janeiro, depois de Itália o ter apoiado.

Berlim e Roma não deixam margem para dúvidas no seu documento: "Apelamos a uma política comercial ambiciosa da UE que tenha plenamente em conta o potencial e as necessidades de todos os setores económicos, incluindo a agricultura. A finalização do Acordo UE-Mercosul foi um passo importante nessa direção."

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