Vídeos editados de atores de Hollywood estão a ser usados para promover uma narrativa pró-Kremlin dirigida aos líderes europeus. Os investigadores afirmam que se trata de uma campanha coordenada.
Publicações partilhadas no X e no TikTok com o hashtag #HollywoodagainstZelenskyy mostram vídeos adulterados de celebridades a exortar os líderes europeus a pressionarem a Ucrânia a aceitar um acordo de paz nos termos da Rússia.
O Cubo, a equipa de verificação de factos da Euronews, encontrou exemplos dos vídeos no X e no Telegram, onde foram partilhados por contas sem seguidores ou biografia e que tinham nomes de utilizador genéricos.
Os vídeos no TikTok foram partilhados e receberam centenas de gostos antes de serem removidos da plataforma. Os vídeos publicados no X foram removidos.
Não há provas de que as figuras públicas envolvidas tenham feito tais declarações, e os investigadores que monitorizam a campanha afirmam que esta faz parte de uma rede de influência online mais ampla.
Quais são as alegações?
Os vídeos apresentavam mensagens personalizadas de celebridades, incluindo os atores americanos Nikki Blonsky e Jon Seda, dirigindo-se diretamente à câmara.
O Cubo descobriu que um destes vídeos, em que aparece a atriz Gabriella Pizzolo, utilizava um clipe da atriz carregado na plataforma Cameo, na qual as celebridades podem oferecer e vender mensagens personalizadas aos fãs.
O clipe começa com imagens reais antes de aparecerem imagens da guerra na Ucrânia, acompanhadas por uma narração manipulada que acusa os líderes europeus de cometerem fraude fiscal para apoiar Kiev, sem apresentar provas para as suas alegações.
Outro vídeo que exibe Blonsky incentiva os espectadores a apoiar a campanha #HollywoodagainstZelenskyy para pressionar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, a assinar um acordo de paz nos termos da Rússia.
Os vídeos não aparecem nas contas verificadas das celebridades envolvidas nas redes sociais.
Os excertos foram partilhados num contexto marcado pela frustração de Zelenskyy face às conversações de paz com a Rússia, mediadas pelos EUA, numa altura em que a guerra entra no seu quinto ano.
Os esforços de mediação têm sido dificultados por exigências conflituantes dos lados ucraniano e russo. Zelenskyy criticou Moscovo por não ceder nas suas exigências maximalistas, que tem reiterado desde o início da invasão.
Estas incluem a retirada completa de quatro territórios ucranianos parcialmente ocupados (Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson), que a Rússia alega ter anexado por via de referendos ilegítimos.
A maioria dos líderes europeus manifestou o seu apoio à Ucrânia num esforço para impedir a agressão russa.
Como funciona a campanha
Os investigadores do coletivo Antibot4Navalny, que estuda redes de bots na Rússia e não só, afirmam que as contas partilhavam um site dedicado, não responsivo e que não estava registado, como parte da campanha.
Segundo adiantaram ainda, as táticas desta campanha assemelham-se às utilizadas numa operação de influência de longa duração conhecida como "Matriosca".
Os meios utilizados na operação fazem-se frequentemente passar por fontes credíveis, como empresas de notícias legítimas, agências governamentais e figuras públicas, para semear confusão e promover narrativas anti-ucranianas.
É conhecida por um pequeno grupo de contas anónimas que publicam conteúdos falsos que é depois amplificado por uma rede mais ampla, ocultando a origem da desinformação.
A Euronews foi várias vezes envolvida ilicitamente na campanha, nomeadamente na Moldova, onde contas que se fizeram passar por funcionários da Euronews partilharam afirmações falsas e prejudiciais sobre o país.
A análise do Cubo às publicações mais recentes sobre Zelenskyy mostra que pelo menos 10 contas partilharam os vídeos num período de duas horas, utilizando legendas e hashtags idênticos ou quase idênticos. Várias das contas foram criadas recentemente, não tinham biografia no perfil nem atividade anterior.
Os vídeos foram publicados e republicados num curto espaço de tempo antes de serem removidos do X. Atualmente, apenas um vídeo permanece no TikTok.
Os investigadores afirmam que esta campanha é a primeira vez que a rede "Matriosca" utiliza um hashtag para divulgar os seus vídeos e tenta criar um "evento" real, incentivando os espectadores a participar num "flash mob contra Zelenskyy" em Hollywood Boulevard.