Em declarações à Euronews, o líder exilado da oposição curda iraniana afirmou que ninguém no regime do Irão é “fiável”, desvalorizando as alegações de Washington de que os responsáveis iranianos são negociadores “razoáveis”
Em entrevista exclusiva à Euronews, o líder do partido curdo iraniano da oposição no exílio afirmou não acreditar que «qualquer figura da atual República Islâmica do Irão» seja «digna de confiança».
As declarações de Abdulla Mohtadi — líder no exílio do Partido Komala do Curdistão Iraniano, sediado no Iraque — surgiram na sequência de comentários do presidente dos EUA, Donald Trump, que na segunda-feira afirmou ter mantido contactos com responsáveis iranianos «razoáveis», sem os identificar, durante negociações.
Já Mohtadi classificou os dirigentes da República Islâmica do Irão como «carrascos do povo» e «criminosos».
«São carrascos do povo iraniano, criminosos, uma cambada de criminosos», afirmou, sublinhando o apoio do seu partido a «um sistema democrático e laico» que respeite os direitos dos curdos e de outras minorias.
Os curdos representam cerca de 10 % da população do Irão e acumulam um longo historial de queixas contra a República Islâmica e também contra a antiga monarquia, após décadas de repressão e marginalização.
O aiatola Khomeini declarou uma «guerra santa» aos grupos curdos, que qualificou de «infiéis» e «inimigos do Estado».
Uma parte significativa dos curdos iranianos vive no oeste e noroeste do Irão, enquanto milhares de exilados se encontram na região autónoma do Curdistão, no norte do Iraque, território dos curdos iraquianos.
Curdos apoiam esforços para enfraquecer o regime
Ao comentar a campanha militar conjunta em curso dos Estados Unidos e de Israel contra Teerão, lançada em 28 de fevereiro, Mohtadi afirmou apoiar os esforços para enfraquecer o regime iraniano, mas advertiu que a «mudança de regime cabe ao povo iraniano».
«Se a administração norte-americana enfraquecer suficientemente o regime, se esmagar as forças de segurança, a base militar e industrial – mas não a infraestrutura civil, obviamente não defendemos isso […] –, então talvez possa ajudar o povo iraniano a erguer-se em determinado momento.»
Mohtadi afirmou não se ter «surpreendido» quando os Estados Unidos e Israel lançaram a campanha militar.
«Esperava que acontecesse há décadas», declarou. «Andam há 47 anos a gritar “morte à América”, ameaçaram aniquilar Israel, desestabilizaram toda a região com as suas atividades terroristas.»
Mohtadi descreveu os curdos iranianos como uma das principais forças de oposição «credíveis» que têm atuado contra o regime desde a sua chegada ao poder, em 1979.
«Não aceitámos o regime islâmico do Irão desde o início. E continuamos a lutar pelos nossos direitos e pela democracia no Irão. Há também baluches, há também azerbaijanos, árabes e persas.»
Mohtadi criticou aquilo a que chamou a «política de apaziguamento» da Europa, contestando a «estratégia de desescalada» do bloco.
«É altura de os europeus porem fim a essa política de apaziguamento e adotarem uma posição mais ativa, pró-iraniana e contra o regime.»
Irão: especulação sobre invasão terrestre apoiada pelo Ocidente
No início da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, no final de fevereiro, surgiram relatos de que a CIA estaria a trabalhar para armar e treinar forças curdas iranianas no Iraque.
O presidente norte-americano, Donald Trump, pareceu apoiar uma ofensiva terrestre dos curdos iranianos no início de março, antes de dizer a jornalistas, dias depois: «Não quero que os curdos entrem no Irão… A guerra já é suficientemente complicada.»
Mohtadi confirmou à Euronews que uma eventual ofensiva terrestre com participação curda era mais uma «ideia do que um plano», acrescentando que Trump acabou por «decidir não convidar os curdos a participarem na campanha».
«Continuamos em posições defensivas no Curdistão iraquiano. Não atravessámos a fronteira. Temos estado sob bombardeamentos constantes de mísseis e drones iranianos, dia e noite, há cerca de um mês.»