Entre as tensões EUA-Irão, a diplomacia iraniana usa as redes sociais para "fazer charme" junto de Itália: um post da embaixada iraniana na Tailândia no X torna-se viral com referências ao país, dirigidas aos corações dos italianos.
Se a geopolítica fosse uma sala de chat, esta seria uma daquelas mensagens que desorientam: a embaixada iraniana na Tailândia escreveu no X algo como: "Porque é que havemos de atacar a Itália? Adoramos o povo italiano, o futebol, a comida" e depois uma lista de cidades: Roma, Milão, Nápoles, Veneza, Sicília e todo o resto do país.
O post parece quase um tributo turístico, mas insere-se num jogo muito menos alegre: o dos Estados Unidos, do Irão e da Europa.
O confronto entre os Estados Unidos e o Irão e o papel da Itália
A mensagem chega no meio de um novo momento de tensão entre os Estados Unidos e o Irão. As declarações atribuídas a Donald Trump, relatadas por vários jornais, reacenderam o debate sobre o papel da Itália no cenário internacional e o risco de escalada no Mediterrâneo, dada a presença de bases, rotas estratégicas e interesses energéticos que ligam diretamente a área à crise do Médio Oriente.
É neste contexto que se insere a resposta da embaixada iraniana na Tailândia, que escolheu um tom deliberadamente apaziguador, quase irónico, para rejeitar qualquer hipótese de hostilidade em relação a Roma.
O post não é um caso isolado: a presença diplomática do Irão nas redes sociais faz agora parte de uma estratégia de comunicação mais vasta, em que as embaixadas não se limitam a comunicar de forma institucional, mas intervêm diretamente no debate público internacional com mensagens curtas, emocionais e altamente "partilháveis".
Mensagem viral no X
O texto publicado pela embaixada do Irão na Tailândia impressionou precisamente pelo seu tom informal e pela escolha do conteúdo. A mensagem diz que não haveria razão para atacar a Itália, seguida de uma declaração de afeto aos italianos, ao futebol e à cozinha, elementos que se tornam uma linguagem universal imediatamente reconhecível.
O que torna o post ainda mais viral é a longa lista de cidades italianas mencionadas, de Roma a Milão, de Nápoles a Veneza, passando pelas ilhas e muitos outros lugares. Um pormenor que transforma a mensagem em algo a meio caminho entre uma declaração diplomática e um postal afetivo, construído mais para ter impacto emocional do que para ter conteúdo político no sentido estrito.
O resultado é um exemplo típico de "soft diplomacy" digital, em que a linguagem não visa a precisão institucional, mas a construção de uma narrativa positiva e imediata, capaz de circular rapidamente nas redes sociais e nos media.
Diplomacia ou comunicação estratégica?
Para além do tom tranquilizador, a mensagem insere-se numa dinâmica mais ampla que vários observadores internacionais estão a analisar. De acordo com algumas leituras que remetem também para o Instituto Quincy, o Irão está a tentar reposicionar-se face à Europa, não só ao nível diplomático tradicional, mas também através de sinais indiretos que podem sondar possíveis fissuras entre os Estados Unidos e os seus aliados europeus.
Nesta perspetiva, comunicações como a da embaixada não devem ser lidas apenas como gestos de cortesia ou de propaganda emocional, mas como parte de uma estratégia mais vasta em que a perceção pública se torna um espaço de confronto geopolítico.
Itália como "símbolo emocional"
A escolha dos elementos utilizados na mensagem também é surpreendente. Não são mencionados acordos, tratados ou questões económicas, mas exclusivamente referências culturais e identitárias. A Itália é representada através daquilo que a torna imediatamente reconhecível no estrangeiro: as cidades da arte, da gastronomia, do futebol e de um imaginário coletivo fortemente positivo.
Desta forma, o país torna-se mais um símbolo emocional do que um ator político, uma presença evocada através de imagens partilhadas mais do que através de relações diplomáticas concretas. Trata-se de uma construção narrativa que funciona precisamente porque ultrapassa a complexidade e fala diretamente à opinião pública.