A audiência papal no Vaticano realiza-se no ano do 60.º aniversário da primeira declaração ecuménica formal entre as Igrejas Anglicana e Católica Romana.
O Papa Leão XIV reuniu-se na segunda-feira com a primeira mulher a liderar os cristãos anglicanos de todo o mundo, a recém-entronizada arcebispa de Canterbury, Sarah Mullally, apelando à unidade para uma evangelização mais eficaz.
A audiência papal no Vaticano ocorre no ano do 60.º aniversário da primeira declaração ecuménica formal entre as Igrejas Anglicana e Católica Romana, assinada em 1966 na basílica de São Paulo Fora dos Muros pelo arcebispo Michael Ramsey e pelo Papa Paulo VI.
A visita, parte do que Mullally designou como uma peregrinação de quatro dias a Roma, é a sua primeira viagem ao estrangeiro desde que assumiu o seu papel pioneiro no mês passado, como a primeira mulher a ocupar o cargo de máxima autoridade eclesiástica da Igreja da Inglaterra.
O Papa Leão XIV citou o falecido Papa Francisco, que disse aos primazes anglicanos que "seria um escândalo se, devido às nossas divisões, não cumpríssemos a nossa vocação comum de dar a conhecer Cristo".
"Embora o nosso mundo sofredor necessite profundamente da paz de Cristo, as divisões entre os cristãos enfraquecem a nossa capacidade de sermos portadores eficazes dessa paz", afirmou o Papa a Mullally e à sua delegação num discurso publicado pelo Vaticano.
"Para que o mundo leve a sério a nossa pregação, devemos, portanto, ser constantes nas nossas orações e esforços para remover quaisquer obstáculos que impeçam a proclamação do Evangelho", afirmou, acrescentando que "a unidade em prol de uma evangelização mais frutífera" tinha sido um tema recorrente ao longo do seu ministério.
O pontífice citou os progressos alcançados entre as duas igrejas em "questões historicamente divisivas", mas afirmou que "novos problemas surgiram nas últimas décadas", sem fornecer quaisquer detalhes específicos.
"No entanto, não devemos permitir que estes desafios contínuos nos impeçam de aproveitar todas as oportunidades possíveis para proclamar Cristo ao mundo em conjunto", afirmou o Papa Leão XIV, o líder de 70 anos dos 1,4 mil milhões de católicos do mundo.
Mullally, de 63 anos, é uma ex-enfermeira, casada e mãe de dois filhos.
"Perante a violência desumana, as profundas divisões e as rápidas mudanças sociais, temos de continuar a contar uma história mais esperançosa: que cada vida humana tem um valor infinito, porque somos filhos preciosos de Deus; que a família humana é chamada a viver como irmãos e irmãs", afirmou.
"Temos, portanto, de trabalhar juntos pelo bem comum, construindo sempre pontes, nunca muros; pois os mais pobres entre nós são os mais próximos do coração de Deus."
Opiniões divididas
A nomeação de Mullallay, no entanto, dividiu a Comunhão Anglicana, cujos 100 milhões de membros em 165 países estão profundamente divididos em relação a questões como o papel das mulheres e o tratamento das pessoas LGBTQ+.
Muitos na Inglaterra e noutros países ocidentais saudaram a sua nomeação como uma quebra histórica do teto de vidro.
Mas as igrejas maiores e de crescimento mais rápido da Comunhão, na África, pertencem a um grupo conservador chamado Conferência Global pelo Futuro Anglicano (Gafcon), que criticou duramente a sua nomeação e ameaçou uma ruptura definitiva.
Mullallay disse ao Papa, que acabara de regressar de uma viagem por quatro países africanos, que em breve seguiria os seus passos com uma visita aos Camarões e ao Gana, em julho.
"A sua peregrinação a África foi repleta de vida e alegria", afirmou. "Fez-nos lembrar que, apesar dos nossos sofrimentos, as pessoas anseiam pela vida em toda a sua plenitude e que inúmeras pessoas trabalham todos os dias por esta visão do bem comum."
No século XVI, o rei Henrique VIII rompeu com a Igreja Católica, fundando a Igreja da Inglaterra.
Nos séculos seguintes, as relações entre a Igreja Anglicana e o Vaticano foram melhorando progressivamente, mas em 2016 surgiram novas divisões, nomeadamente em relação à ordenação de mulheres, que é proibida na Igreja Católica.
Desde 2014 que as mulheres podem tornar-se bispos na Igreja da Inglaterra, embora a questão continue a ser motivo de divisão.
A visita de Mullally ocorre seis meses depois de o rei Carlos III se ter encontrado com o papa, tornando-se o primeiro governador supremo da Igreja da Inglaterra a rezar com um pontífice.