O enviado da UE admite que Bruxelas interpretou mal a dinâmica do Sahel, alertando para o facto de as estratégias militares e a diplomacia unidirecional terem minado a sua influência, à medida que a Rússia e a China intensificam a influência na região.
A União Europeia tem falhado no diálogo com os Estados do Sahel, mas está agora a "construir pontes" com os regimes liderados por juntas, numa tentativa de recuperar a credibilidade perdida para a Rússia, disse ao Europe Today o representante especial da UE para o Sahel, João Cravinho.
"Não temos sido capazes de ouvir e compreender corretamente. Não temos sido capazes de explicar quais são os nossos interesses na região", admitiu Cravinho, mas acrescentou que o diálogo melhorou desde o início do seu mandato, em novembro de 2024.
"Penso que há um grande reconhecimento. As nossas relações com esses regimes têm agora pontes que não existiam há algum tempo", acrescentou.
Os seus comentários surgem dias depois de militantes de grupos separatistas e jihadistas terem lançado ataques coordenados no Mali, assumindo o controlo de vastas zonas do norte e matando o ministro da Defesa do país. O Ministério dos Negócios Estrangeiros francês apelou aos seus cidadãos para que abandonassem o Mali.
O líder militar do país, Assimi Goïta, insistiu que a ameaça dos militantes rebeldes será "neutralizada", enquanto a Rússia afirmou que as suas forças paramilitares - que apoiam os militares malianos - evitaram um golpe de Estado.
Cravinho descreveu a situação como "terrível" para a população do Mali e avisou que o episódio violento "pode voltar a acontecer".
Os ataques mostram que "não há solução militar para a situação no Sahel como um todo, incluindo o Burkina Faso e o Níger", afirmou.
"Os malianos vão ter de fazer algumas reavaliações. São eles que têm de o fazer, e eu não lhes posso dizer o que fazer, mas penso que é óbvio, devido às tremendas falhas de segurança da última semana", disse Cravinho.
"É muito claro que não há solução apenas com meios militares. Os russos só oferecem apoio militar. Não oferecem mais nada".
A Europa "não tem o monopólio"
A credibilidade europeia na região tem sofrido um declínio acentuado nos últimos anos, à medida que a Rússia - e, em menor grau, a China e o Irão - foram ganhando terreno.
As nações europeias reduziram significativamente as missões militares no Sahel no meio do crescente sentimento anti-Ocidente, com França a concluir a retirada das tropas do Mali em 2022, após uma década de intervenção militar.
"Não temos o monopólio da região", disse Cravinho, mas advertiu que "nenhuma outra parte do mundo tem o mesmo nível de interesse direto" na região que a Europa.
A UE lançou uma nova estratégia para o Sahel em dezembro de 2025, que recalibrou a sua abordagem para se concentrar mais na segurança humana e na prosperidade socioeconómica do que na segurança militar.
A luta contra o terrorismo e os esforços para travar a migração para o Norte de África e o Mediterrâneo são princípios fundamentais da nova abordagem.
No entanto, com a guerra à porta da Europa e a crescente volatilidade no Médio Oriente, Cravinho reconheceu a limitada margem de manobra política na Europa para abordar a questão do Sahel.
"Os ministros dizem-me que o Sahel é geopoliticamente estratégico, mas não têm tempo", afirmou Cravinho, acrescentando que a Europa está a preparar-se para uma maior intervenção.
"Penso que as oportunidades surgirão quando se tornar evidente que a Europa continua a ser o melhor parceiro possível para esses países".