As alianças estabelecidas com o La France Insoumise durante as eleições autárquicas já tinham suscitado tensões no centro-esquerda. O anúncio da candidatura de Jean-Luc Mélenchon às eleições presidenciais reacende agora as divisões e relança a ideia de umas primárias.
Embora Jean-Luc Mélenchon pudesse gabar-se de uma audiência excecional durante o anúncio, sem grande surpresa, da sua candidatura às eleições presidenciais de 2027, neste domingo, 3 de maio, e até tenha anunciado "uma nova França mediática" no X, antes de reivindicar, no dia seguinte, 150.000 assinaturas de apoio, o seu entusiasmo está longe de ser partilhado por toda a esquerda não-LFI (La France Insoumise).
Já vários recordaram a Jean-Luc Mélenchon as suas inúmeras "promessas" de "última candidatura". "Não aspiro a renovar incessantemente o mesmo papel", dizia ele em 2022; "É evidente que esta é a minha última candidatura. É até um argumento a meu favor: sou o único que não está a construir uma carreira", assegurava no ano anterior, tal como o jornalista e escritor Edwy Plenel assinalou na rede social X.
"Depois de um magistral 'façam melhor' em 2022, Jean-Luc Mélenchon acaba por não resistir a candidatar-se pela quarta vez às eleições presidenciais", comentou no X o porta-voz do Partido Socialista na Assembleia Nacional, Romain Eskenazi.
Jérôme Guedj, o antigo assessor parlamentar do líder da esquerda radical, que se tornou desde então um "crítico notório", segundo a BFMTV, denunciou, por sua vez, no canal privado francês TF1, que se tratava de um "não-evento". "Não há só Jean-Luc Mélenchon na vida política", declarou na TF1 o deputado socialista, ele próprio candidato à Presidência, mesmo que "se saiba que ele pensa que é o homem providencial".
"Já ninguém quer Jean-Luc Mélenchon, nem na esquerda, nem no país", criticou Pierre Jouvet, secretário-geral do Partido Socialista (PS), em declarações à Franceinfo, na segunda-feira, fazendo referência a uma "eterna digressão de despedida que já devia ter acabado e que, afinal, não acaba". É "o político mais odiado deste país", afirma também. "É o melhor seguro de vida da extrema-direita", uma vez que "dividiu o país, dividiu a esquerda e cria tensão de forma permanente".
"A rejeição da figura de Mélenchon corre o risco de acelerar a vitória do RN (Rassemblement National)", acrescenta Alexis Corbière, outro antigo aliado. "O mandato que as pessoas vão conferir será a alguém capaz de derrotar o RN na segunda volta. E, nesse ponto, Jean-Luc Mélenchon não é quem melhor cumpre esse imperativo. Ele complica-o", analisa no jornal Le Parisien.
"Guardo rancor a Jean-Luc Mélenchon por impor a sua candidatura, longe da união", declarou, na terça-feira, Clémentine Autain, deputada do grupo Ecologista e Social.
"Há um historial que se agravou com as suas declarações antissemitas, o seu comunitarismo, a sua relação com as forças da ordem e os insultos dirigidos aos líderes políticos. É um verdadeiro repulsivo para certos eleitores progressistas", declarou Sacha Houlié, deputado do partido Place Publique, reforçando a ideia.
A "Nova" Frente Popular está no bom caminho?
Os opositores à candidatura do líder do La France Insoumise argumentam que ele nunca conseguiu passar à segunda volta. Em 2017 (19,58%) e em 2022 (21,95%), faltaram-lhe algumas centenas de milhares de votos para chegar lá.
Um argumento de peso: o Jean-Luc Mélenchon é, nesta fase, o candidato mais rejeitado pelo eleitorado, com 81% dos eleitores que se mostrariam insatisfeitos caso o candidato "insubmisso" vencesse em 2027, segundo uma sondagem realizada em abril pelo Ipsos BVA junto de mais de 10.000 eleitores.
Obviamente apanhada de surpresa pelo anúncio de domingo do homem forte da esquerda radical, a esquerda não-melenchonista está a tentar organizar as suas fileiras.
Reunidos em Paris, na terça-feira, para assinalar o 90.º aniversário da Frente Popular, os defensores da realização de primárias no seio das forças de esquerda defenderam a "verdadeira união", que consideram a única estratégia capaz de garantir a vitória em 2027.
Os promotores da iniciativa "Frente Popular 2027" insistiram na necessidade de umas primárias, apesar de estas se encontrarem em maus lençóis.
"A questão é saber se este 5 de maio é o canto do cisne ou o despertar", declarou Clémentine Autain [partido L'Après], candidata às primárias, que no passado fez parte do La France Insoumise. Este processo, previsto para 11 de outubro, "está a dar sinais de esgotamento", reconheceu ela, "mas não vejo outras soluções democráticas".
Perante 1.200 pessoas, segundo os organizadores, a ex-candidata da Nova Frente Popular para a comuna de Matignon, Lucie Castets, garantiu que "estas primárias não são uma quimera". "Estamos prontos, temos uma organização e os meios para mobilizar milhões de eleitores", afirmou.
François Ruffin (do partido Debout!), também candidato declarado que já reivindica 100.000 apoios, defendeu igualmente "a unidade da esquerda". "Ainda hoje, três quartos dos eleitores de esquerda dizem: queremos uma candidatura comum resultante de uma primária", assegurou. "Vamos precisar de uma força comum."
"87% dos eleitores socialistas e 89% dos eleitores dos Ecologistas querem primárias", afirmou, por seu lado, a secretária nacional dos Ecologistas, Marine Tondelier.