No Quénia, país anglófono, Macron co-presidirá na segunda e na terça-feira a uma cimeira que reúne líderes africanos e empresários, enquanto procura consolidar o seu legado a um ano do fim do mandato.
Emmanuel Macron iniciou este sábado uma visita a África para relançar o envolvimento de França no continente, após anos de relações tensas com as antigas colónias francófonas.
O início, porém, não deverá trazer problemas: depois de chegar a Alexandria e se reunir com o líder egípcio Abdel Fattah Al-Sissi, o chefe de Estado proced à inauguração do novo campus da universidade Senghor – "campus moderno virado para África" desta "universidade de excelência", segundo a presidência francesa – e fará ainda uma visita à Cidadela de Qaitbay, fortaleza defensiva do século XV erguida no local do antigo farol de Alexandria.
A reunião e o jantar de trabalho visam "consolidar uma relação bilateral forte entre França e o Egito" e "abordar a crise atualmente em curso no Médio Oriente", segundo o Eliseu.
Macron pretende lançar uma «coligação marítima» de países não beligerantes, para propor uma missão multinacional neutra de segurança com vista à reabertura do estreito de Ormuz.
No domingo, em Nairobi, o chefe de Estado francês deverá encontrar-se com o homólogo queniano, William Ruto, para uma reunião seguida da assinatura de acordos bilaterais, incluindo entre empresas dos dois países, e para um jantar com figuras do meio cultural queniano.
A digressão termina na quarta-feira em Adis Abeba, com um encontro com o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, e Mahmoud Ali Youssouf, presidente da Comissão da União Africana, bem como uma visita à sede da União Africana, na presença do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para uma reunião "centrada no reforço das respostas conjuntas nas áreas da paz e segurança", segundo o Eliseu.
Cimeira «Africa Forward»
O Quénia o verdadeiro ponto alto desta viagem africana. Emmanuel Macron co-presidirá na segunda e terça-feira à cimeira «Africa Forward» (Em frente, África), a primeira com dirigentes do continente africano presentes desde que chegou ao poder, em 2017, e também a primeira num país anglófono, antiga colónia britânica.
O presidente francês reúne-se com dirigentes africanos e empresários, procurando assim consolidar o legado a um ano do fim do mandato.
"A cimeira Africa Forward marca uma etapa importante nas relações entre França e o continente africano", declarou o Eliseu.
A reunião incidirá sobretudo sobre o desenvolvimento económico e os investimentos transfronteiriços, precisou a presidência francesa, sublinhando tratar-se do primeiro fórum deste tipo organizado num país anglófono.
Macron espera que este renovar das relações de França com o continente constitua um "balanço da sua política africana", afirmou um diplomata citado pela AFP.
O sentimento antifrancês permanece forte em algumas antigas colónias africanas, numa altura em que o continente volta a ser um campo de batalha diplomático, marcado por uma influência russa e chinesa crescente.
Antiga potência dominante em vastas zonas do norte, centro e oeste de África, França desempenhou um papel crucial na história pós-colonial do continente, intervindo militarmente várias vezes desde o início da década de 1960.
França comprometeu-se a abandonar a chamada estratégia "Françafrique", através da qual Paris procurava manter a África francófona sob a sua alçada graças a conivências políticas, acesso exclusivo a empresas francesas e arranjos financeiros opacos, incluindo corrupção.
Rutura de laços
Macron foi mais longe do que os predecessores ao reconhecer os abusos cometidos por França durante o período colonial, nomeadamente no Ruanda, nos Camarões e no Senegal. Excluiu, no entanto, qualquer pedido oficial de desculpas pelos atos de tortura e outras violações cometidos pelas tropas francesas na Argélia.
Antes da viagem, o parlamento francês aprovou em definitivo uma lei destinada a simplificar a restituição de obras de arte saqueadas durante o período colonial.
Durante o mandato, as forças francesas destacadas no Mali, no Burkina Faso e no Níger retiraram-se após sucessivos golpes de Estado, com as juntas destes países a aproximarem-se da Rússia. A rutura destes laços ocorreu depois de Macron ter convocado, em 2020, os dirigentes do Mali, Níger, Burkina Faso, Chade e Mauritânia para uma reunião em Pau, no sudoeste de França, ameaçando retirar as tropas francesas.
O encontro foi amplamente visto como um regresso à era colonial e acelerou a crise nas relações entre França e os países do Sahel.
Amaka Anku, responsável pela área África no Eurasia Group, empresa de análise de risco, afirma que Macron não deve ser responsabilizado pela perda de influência de França no Sahel, algo "previsível", segundo disse à AFP. "A melhor coisa que Macron fez foi tentar desenvolver as relações de França com a África anglófona", disse.
Chefes militares do Mali, do Burkina Faso e do Níger não participam na cimeira.
«Demasiada bagagem»
Niagale Bagayoko, especialista em África, expressa ceticismo quanto aos resultados de Macron. "Nada de particularmente novo poderá acontecer nas relações franco-africanas antes do fim do mandato de Emmanuel Macron", diz.
Acrescentou que, para muitos em África, Macron é visto como um dirigente que não soube acompanhar a evolução da opinião pública e é considerado arrogante e paternalista. Alguns ainda recordam o incidente diplomático quase evitado em 2017, quando Macron se dirigia a estudantes em Ouagadougou, no Burkina Faso, na presença do então presidente burquinabê, Roch Marc Christian Kaboré.
Alguns queixavam-se de cortes constantes de eletricidade e, quando Kaboré se ausentou por instantes, Macron brincou dizendo que ele tinha ido reparar o ar condicionado.
Críticos salientaram também que a reforma do franco CFA, moeda apoiada por França e utilizada por alguns países africanos, vista como vestígio do passado colonial, não teve impacto significativo. O antigo embaixador francês Nicolas Normand classificou esta reforma como "homeopática", acusando Macron de não perceber o alcance simbólico desse legado colonial.