Resistência Feminista Anti-guerra (FAS) surgiu a 25 de fevereiro de 2022, o segundo dia da invasão russa da Ucrânia. O movimento é descrito como “o projeto feminista mais numeroso e visível da Rússia”. Todos os anos, as suas ativistas publicam relatórios sobre a situação das mulheres russas.
A Euronews falou com uma das investigadoras e ativistas da FAS (Resistência Feminista Anti-Guerra) sobre o relatório de 2026 "Direitos das mulheres em condições de repressão e militarização".
Euronews: Quantas participantes têm hoje na Federação Russa e no estrangeiro? Quantas foram classificadas como "agentes estrangeiros", estão detidas ou a ser perseguidas?
Adelaida, FAS: Olá e obrigada pelo interesse em nós! Enquanto movimento horizontal, não conseguimos contabilizar todas as participantes. Qualquer pessoa, incluindo você, pode tornar-se nossa ativista, basta ajudar e participar na vida do movimento, mesmo que não esteja na Rússia (há pessoas que ajudam a traduzir textos e em muitas outras coisas). Em 2023, a FAS recebeu o Prémio da Paz de Aachen e foi incluída na lista de "agentes estrangeiros". Mais tarde fomos reconhecidas como "organização indesejável". Imagine-se: defender o direito ao aborto, o direito de decidirmos por nós próprias o que queremos, manifestar-nos contra a guerra, significa ser indesejável no próprio país. Várias das nossas coordenadoras foram declaradas pessoas ligadas a um "agente estrangeiro" ; primeiro receberam coimas e, mais tarde, foram abertas investigações criminais contra as mesmas. Muitas ativistas são refugiadas políticas que não conseguem renovar os passaportes e acabam em situações de insegurança.
Euronews: Como surgiu a ideia de publicar relatórios? Quem trabalha neles, que critérios seguem? Os critérios são os mesmos todos os anos ou vão mudando?
Adelaida, FAS: Os relatórios surgiram da necessidade de fazer alguma coisa para que ninguém alimentasse ilusões quanto ao poder na Federação Russa. Normalmente são preparados para instituições internacionais e não estão disponíveis em acesso aberto. Lembro-me bem do relatório de 2023; em 2022 houve documentos mais locais, por países. Quando se está fora do país, uma das vias mais lógicas é fazer advocacy de direitos no estrangeiro, junto de organizações como a ONU ou a APCE. Não é o nosso primeiro relatório: já antes tínhamos descrito a situação das mulheres, os protestos durante a mobilização, o caso de Baymak, a situação dos reféns civis e das crianças deportadas da Ucrânia. O trabalho é feito pelas mesmas ativistas e defensoras dos direitos humanos: umas preparam relatórios, outras organizam ações locais, ajudam as comunidades a manter-se, outras ainda dominam a cibersegurança.
Ao fim de quatro anos percebemos que muitas pessoas têm uma imagem muito estereotipada da Rússia e não entendem o nível de repressão e de pressão. Ouvimos muitas vezes estrangeiros dizerem que a Federação Russa está na vanguarda da descolonialidade, mas não sabem nada sobre a perseguição de ativistas, sobre torturas e muito mais. Procuramos dar visibilidade a problemas concretos com que as pessoas se deparam hoje na Rússia, por exemplo o crescimento das correntes de extrema-direita e o apoio que recebem do Estado, que já hoje leva a ataques contra cidadãos russos que não são etnicamente russos. Esses grupos vão a clínicas públicas e privadas, interpelam médicos sobre porque não tentam dissuadir as mulheres de abortar, entram nas escolas e propagam o militarismo.
Euronews: "A guerra agrava a desigualdade de género e pode fazer recuar em muitos anos todos os avanços em matéria de direitos humanos", escreveram as autoras do manifesto da FAS no início de 2022. Ao fim de quatro anos e meio de invasão da Ucrânia pela Federação Russa, até que ponto a sociedade russa foi empurrada para trás no que toca aos direitos das mulheres e aos direitos humanos em geral?
Adelaida, FAS: A situação em torno do aborto – e do direito a realizá-lo – torna-se mais preocupante a cada ano. Esta primavera surgiu informação sobre perseguição judicial de mulheres que fizeram abortos ilegais. Conhecemos casos do chamado "turismo de aborto" dentro das próprias regiões e de recusas ilegais de interrupção da gravidez. O Estado propõe apagar da internet qualquer informação disponível sobre abortos seguros, substituindo as ligações por serviços psicológicos que dissuadem as mulheres de interromper a gravidez. As ativistas que organizaram um fundo para contraceção de emergência (que não está disponível em todo o lado) são perseguidas; chegaram a disparar contra as janelas de suas casas. Ficamos com a impressão de que a questão reprodutiva é a "segunda frente" para o poder; agarraram-se a ela com unhas e dentes, e tentam fazer regressar os tempos de Estaline, com proibição de abortos e elevada mortalidade materna e infantil. No que toca aos direitos humanos, não devemos alimentar ilusões: mesmo antes a situação já não era famosa e, em tempo de guerra, a violência foi completamente normalizada.
Alguns exemplos:
- reféns civis e ativistas relatam torturas;
- crianças deportadas brincam à guerra em orfanatos e escolas (onde decorre propaganda constante de que a vida nada vale);
- o número de presos políticos já ascende os milhares;
- há pessoas que morreram na prisão em circunstâncias estranhas;
-o número de queixas de violência doméstica aumentou mais de metade desde que na Rússia foi aprovada a lei de descriminalização da violência doméstica. Mais ainda, essa lei – num Estado laico – é promovida pela Igreja;
- aumenta o número de vítimas de homens regressados da frente ucraniana.
Euronews: O que mostra a introdução, mencionada no relatório, de pagamentos únicos às alunas grávidas que optam por manter a gravidez? Quantas regiões aprovaram essa medida? Como é que o Estado a justifica?
Adelaida, FAS: Embora menos de metade dos russos considere isto uma boa ideia, e a sociedade em geral (74%) seja contra ter filhos antes dos 18 anos, o Estado apoia esta iniciativa através de incentivos financeiros. As notícias explicam que se trata de apoio reprodutivo a mulheres em situação de vida difícil. O ministério da Saúde introduziu uma nova rubrica no inquérito: se à pergunta "Quantos filhos gostaria de ter neste momento?" responder "0", é enviado para uma consulta psicológica. Este questionário é dado também a adolescentes, o que na prática se traduz em pressão sobre menores. Na minha opinião, para as autoridades trata-se de uma forma relativamente simples e barata de poderem dizer que foram tomadas certas medidas na região.
Euronews: A cada ano de guerra, agrava-se a limitação do aborto e endurece o controlo reprodutivo. Isto está ligado ao esgotamento de outros canais de recrutamento para o exército?
Adelaida, FAS: Se pensarmos que em breve os bebés irão diretos para a frente de batalha, então sim. Mas, falando seriamente, a questão reprodutiva e o controlo sobre o corpo interessam muito ao governo. Também porque muitas empresas e organizações na Rússia são controladas por oligarcas ligados ao poder. Planeiam transmitir todos os recursos e o controlo do Estado aos filhos. Precisam de nova mão-de-obra, mas têm medo e odeiam os migrantes. Que escolha lhes resta? Apenas pressionar as mulheres: é preciso largar tudo e ter filhos, de preferência cinco ou dez. À pergunta "Onde é suposto termos esses filhos?", não respondem: a situação económica é muito complicada e, em vez de uma política de habitação acessível, limitam-se a palavras soltas.
Euronews: Que riscos corre uma mulher que se assume que não quer ter filhos? Em que se traduz a pressão sobre as mulheres sem filhos, o relatório fala disto?
Adelaida, FAS: Se uma mulher diz publicamente que é "childfree" (por vários motivos: pode simplesmente não poder ter filhos), arrisca-se a uma coima. Isto abrange tudo o que "apresente publicamente a ausência de filhos como comportamento socialmente aceitável": por exemplo, a discussão aberta das dificuldades de ter e criar filhos, incluindo o relato de partos difíceis ou de depressão pós-parto nas redes sociais. Já antes, o nível de violência obstétrica e a tendência para silenciar problemas já eram elevados; as mulheres ficavam constantemente sozinhas com a sua dor (como se "tivesse de ser assim, como se fosse normal"). Agora, se não disserem "ter filhos é uma alegria sem qualquer consequência negativa", arriscam-se, pelo menos, a uma coima. Já em 2024 se discutia a possibilidade de considerar o movimento "childfree" como extremista, e houve casos de perseguição a ativistas e a grupos locais em que mulheres partilhavam problemas da maternidade (por exemplo, falavam de hemorróidas pós-parto ou de dificuldades psicológicas).
Euronews: A guerra agravou a dependência económica e a pobreza das mulheres na Rússia? Quem foi afetado em primeiro lugar: mães solteiras, esposas ou viúvas de mobilizados, mulheres residentes em pequenas cidades?
Adelaida, FAS: As mães solteiras já são o grupo mais vulnerável, mas, no geral, a situação económica desfavorável afeta toda a gente. Registam-se dívidas enormes de pensões de alimentos e, ao mesmo tempo, um nível de violência muito elevado. Em Abril, a presidente da Comissão da Duma para a Proteção da Família, Paternidade, Maternidade e Infância, Nina Ostanina, criticou o crescimento da popularidade das famílias monoparentais, afirmando que sem pais crescem "homens femininos com um toque feminista". Sugere às mulheres que "olhem melhor para os veteranos" da frente ucraniana e pede aos legisladores que prestem atenção à prática da fertilização in vitro, através da qual uma mulher pode ter um filho sem parceiro permanente.
Euronews: Estamos a assistir ao reaparecimento, herdado do passado soviético, de realidades como o medo de denúncias?
Adelaida, FAS: Sim. Ao longo da guerra, o Estado apoia os denunciantes e as denúncias para criar perseguições penais com motivação política. Também sobre mulheres se escrevem denúncias, e em grande quantidade. Sobretudo se despertam inveja (os especialistas chamam a isto "síndrome das papoilas altas"). No geral, a prática legislativa tornou-se tão difusa que se vive em stress permanente: praticamente tudo na tua existência pode ser considerado violação desta ou daquela lei, o que conduz a um silêncio ainda maior e à tentativa de ignorar o Estado. O ativismo ainda não morreu, mas a situação lembra o fim da União Soviética, embora hoje haja muito mais presos políticos.
Euronews: A solidariedade entre mulheres manteve-se, surgiu ou mudou durante os anos de guerra?
Adelaida, FAS: Não desapareceu; caso contrário, não teríamos conseguido coordenar os esforços tão depressa com o início da guerra. A sociedade ainda se aguenta graças às redes horizontais de mulheres a quem nada disto é indiferente. Sente-se muito apoio, apesar de em diferentes regiões existirem nuances e problemas específicos: em algumas repúblicas nacionais há uma mobilização anormal e perseguições, noutras há crimes de honra, noutras ainda – proibição total do aborto e catástrofes ambientais que não são resolvidas pelo Estado, mas por voluntárias.
Euronews: Como mudou a vida das mulheres russas num contexto em que lhes é imposto um modelo de comportamento, mas em que não é seguro falar sobre isso?
Adelaida, FAS: Gostava de devolver esta pergunta ao leitor: como adaptaria a sua estratégia de comportamento se lhe proibissem fazer e pensar o que quer? Se nos livros apagassem quaisquer feitos de mulheres e lhe dissessem que tem de ter filhos e que esse é o seu "grande destino"? Acaba-se por viver cada dia num mundo duplo: diz-se o que for preciso, só para que não mexam consigo.
Euronews: Como encaram as mulheres a militarização das escolas, tentam combater a propaganda? Há pressão por parte das escolas?
Adelaida, FAS: Sim, a pressão é grande. Muitos tentam tirar os filhos do sistema, mas nem todos têm essa opção. De um modo geral, o programa escolar mudou muito: retiraram a disciplina de Estudos Sociais (onde se estudavam os direitos humanos), aumentaram a carga de História (Rússia enquanto grande potência), surgiu uma disciplina de Estudo da Religião e nas aulas de Fundamentos de Segurança de Vida passou-se a ensinar militarismo – muito mais do que antes. Além disso, a saída da Rússia do Processo de Bolonha (sistema europeu que harmoniza e desenvolve o ensino superior) torna ainda mais difícil, entre outras coisas, que estudantes deixem o país mais tarde.
Euronews: Como podem sobreviver raparigas capazes e ambiciosas numa sociedade em que, como referem no relatório, "as figuras não maternas foram apagadas"?
FAS: Procurando comunidade e apoio, não estão sozinhas. A maioria das mulheres no país é altamente escolarizada, mas praticamente não tem acesso aos escalões superiores do poder onde se tomam decisões. Muitas partem e procuram outras opções.
Euronews: Pode falar do papel das mulheres como "infraestrutura da guerra"? Hoje, em algumas subdivisões administrativas, tudo assenta nelas porque os homens estão na frente. Na prática substituíram o "sexo forte". Como é que isto se articula com a missão exclusivamente materna que lhes é atribuída?
Adelaida, FAS: Ao que parece, o "sexo forte" é quem sabe pôr bem o soalho. Suportar sozinha a família, o trabalho doméstico e, além disso, alguma atividade pública – não é isso que descreve as mulheres? Já antes da guerra era assim: basta olhar para o ativismo ambiental, para qualquer forma de voluntariado, onde a maioria são sempre mulheres. Num Estado em que se vive permanentemente em dois mundos, não há qualquer problema em insistir numa narrativa de maternidade e, ao mesmo tempo, não mudar a sério a situação da violência obstétrica ou da violência doméstica.O essencial – é assim que, ao que tudo indica, os homens adultos no poder olham para isto – é pôr maquilhagem para que, em discurso e na aparência, tudo pareça impecável, e depois ignorar todos os problemas porque as mulheres lá se hão-de desenrascar.
Euronews: O vosso movimento assinala o crescimento da influência de grupos informais que assumem funções de polícia dos costumes e de controlo migratório. Segundo o relatório de 2026, as mulheres tornam-se regularmente o seu alvo. Em que é que isto se traduz concretamente? O Estado não intervém?
Adelaida, FAS: O Estado apoia isto! Está a ocorrer uma fusão entre Igreja, polícia e extrema-direita. É o que descreve, por exemplo, o Centro de Estudos Sova. Dou alguns exemplos: a 5 de Junho de 2025, na estação ferroviária de Nemchinovka, na região de Moscovo, um membro da brigada "Comunidade Russa" deteve ilegalmente uma candidata a doutoramento, natural da Buryácia, exigindo o passaporte sob pretexto de "controlo de migrantes" e ignorando por completo a sua cidadania russa. A presidente da câmara de Serdobsk, na região de Penza, foi forçada a demitir-se após uma campanha massiva promovida por nacionalistas, por ter atribuído, de acordo com a lei, apartamentos a migrantes. Num contexto de xenofobia, o Estado aumenta a pressão sobre quem tenta defender os direitos das minorias nacionais. O ADC "Memorial" regista um novo e sem precedentes nível de repressão contra povos indígenas. O espaço digital está a radicalizar-se: circulam online apelos não só à deportação de muçulmanos, mas também à perseguição de mulheres que com eles contactam (caso de Alexei Ivchenko, de Novokuznetsk). Importa sublinhar que existem na Rússia muitas regiões onde pelo menos metade da população é muçulmana. O país está longe de ser homogéneo, seja do ponto de vista religioso e linguístico, seja em termos de experiências de vida; além disso, o fosso entre as regiões e a capital é enorme.
Euronews: A política do Estado mudará depois do fim da guerra, se tentarmos fazer uma previsão? Será possível voltar atrás? Poderá regressar a confiança entre homens e mulheres?
Adelaida, FAS: Depende, claro, de quem estiver no poder. Gostaríamos muito de ver revogadas todas as leis repressivas e de assistir a um regresso ao funcionamento pacífico da sociedade, que finalmente fizesse o "trabalho de memória" e reconhecesse o passado. Quanto à confiança, terá desaparecido? Terá existido alguma vez na forma que imagina? Se for aprovada uma lei que penalize a violência doméstica, se houver reconhecimento do que acontece hoje e se surgir a possibilidade de participar de forma real nas decisões, porque não?