Magyar foi recebido com otimismo na sua primeira cimeira da UE, em Bruxelas, enquanto Orbán, num encontro bem mais pequeno nas proximidades, juntava aliados da extrema-direita para o instar a vetar o próximo orçamento de sete anos do bloco. Para as instituições, a era Orbán acabou
Bruxelas recebeu o novo primeiro-ministro húngaro à espera de uma cimeira sem sobressaltos.
Péter Magyar estreou-se com a promessa de mudar o tom e o conteúdo, regressar ao espaço conservador tradicional da União Europeia (UE) e recuperar a unanimidade.
"Vamos representar a Hungria de forma diferente. É certo que não vamos estar de acordo em tudo. Posso prometer uma coisa: representarei apenas os interesses da Hungria e do povo húngaro. Não nos oporemos nem vetaremos propostas por motivos de política interna ou partidária", declarou Magyar aos jornalistas à chegada à cimeira em Bruxelas, na quinta-feira.
Magyar participou também num encontro do Partido Popular Europeu (PPE), no qual se reuniu com o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, com o presidente do PPE, Manfred Weber, e com a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.
"Tive uma excelente reunião com o novo primeiro-ministro húngaro, que conheço muito bem, e estou satisfeita por poder trabalhar com ele", disse Metsola aos jornalistas.
Um diplomata húngaro presente no encontro do PPE, que falou sob anonimato, afirmou que a maioria dos líderes manifestou alívio com o regresso da Hungria à corrente principal europeia.
"Vários líderes disseram que a UE tem de ter em conta as rápidas mudanças em curso na Hungria nos processos que ainda decorrem", adiantou o diplomata à Euronews.
À margem da cimeira, Magyar reuniu-se também com os homólogos do Grupo de Visegrado e participou nas conversações dos "Amigos da Coesão" — uma coligação de Estados-membros que procura manter o financiamento agrícola e de coesão da UE no próximo orçamento europeu, numa altura em que as negociações financeiras arrancam em Bruxelas.
Magyar manifesta reservas quanto à adesão da Ucrânia
Reconstruir a relação da Hungria com a UE e desbloquear os fundos congelados foram pontos centrais da campanha eleitoral de Magyar. Desde que tomou posse, no início de maio, tem avançado rapidamente para resolver a maioria dos diferendos em aberto com Bruxelas.
No fim de maio, chegou a um acordo político com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, para desbloquear 16,4 mil milhões de euros em fundos que estavam retidos. Pouco depois, a Hungria levantou o veto à abertura do primeiro conjunto de capítulos das negociações de adesão da Ucrânia à UE, invertendo a oposição de longa data de Orbán à candidatura de Kiev, que considerava prejudicial para a segurança e os interesses económicos europeus.
Mesmo assim, à chegada à cimeira, Magyar deixou claro que Budapeste mantém reservas quanto ao ritmo das negociações de adesão, agora formalmente em curso.
"Temos reservas quanto à abertura de todos os outros capítulos negociais depois de ser aberto o primeiro conjunto. E não estamos sozinhos nisto — há outros Estados-membros que dizem o mesmo. Defendemos um processo de adesão assente no mérito e no cumprimento de objetivos."
Um diplomata disse à Euronews que Magyar e Zelenskyy tiveram uma breve conversa a sós. Um outro diplomata manifestou otimismo de que a Hungria viabilizará a abertura dos restantes conjuntos de capítulos das negociações de adesão à UE "mais depressa do que se pensa".
Orbán também está em Bruxelas: reúne-se com aliados da extrema-direita
Viktor Orbán, o antigo primeiro-ministro, esteve também em Bruxelas durante a cimeira. Na tarde de quinta-feira, juntou outros líderes da família de extrema-direita Patriotas pela Europa, na primeira viagem ao estrangeiro desde a derrota eleitoral de abril, que pôs fim a 16 anos no poder.
"A derrota do Fidesz não altera aquilo que considero ser um facto determinado pela história: o avanço dos Patriotas na Europa vai continuar. Nenhuma derrota eleitoral apagará isto", afirmou Orbán aos jornalistas numa conferência de imprensa na quarta-feira.
Ainda assim, os danos eram evidentes.
A derrota custou ao grupo Patriotas pela Europa um lugar no Conselho Europeu, instituição na qual passa a estar representado apenas pelo primeiro-ministro checo, Andrej Babiš.
A família política perdeu também o espaço habitual em Bruxelas — a Casa da Hungria, um edifício no centro da cidade adquirido e renovado pelo governo de Orbán durante a presidência húngara do Conselho da UE em 2024.
A partir de agora, os Patriotas passam a reunir-se na sede de Bruxelas do seu afiliado belga, o partido de extrema-direita Vlaams Belang, um espaço bastante mais pequeno.
Orbán aproveitou a conferência de imprensa para enviar uma mensagem pública ao sucessor, instando Magyar a vetar o próximo orçamento de sete anos da UE, para recuperar cerca de 2 mil milhões de euros que a Hungria perdeu por não cumprir os prazos do Fundo de Recuperação do bloco.
"Se vetarmos o orçamento de sete anos no fim do ano e deixarmos claro que, se não libertarem esses dois mil milhões, não haverá novo orçamento de sete anos à vista. É assim que o vão entregar. Esperamos que o atual governo húngaro não deixe um único cêntimo em cima da mesa", disse Orbán.
Após a derrota eleitoral, Orbán renunciou ao lugar no parlamento, mas foi reeleito presidente do partido Fidesz por mais um ano.