Gina Miller, a ativista que levou com êxito o governo britânico a tribunal pela forma como geriu o Brexit, disse à Euronews que o próximo líder trabalhista precisa de um “plano” para a relação do Reino Unido com a UE.
A empresária e ativista Gina Miller, conhecida por ter liderado duas ações judiciais de referência relacionadas com o processo do Brexit, afirmou esperar que o próximo líder britânico tenha "um plano" para a futura relação do Reino Unido com Bruxelas, poucas horas depois de o primeiro-ministro Keir Starmer ter anunciado que se iria demitir.
A britânico-guianesa, de 61 anos, tornou-se uma das figuras políticas mais divisivas do Reino Unido depois de levar a tribunal os sucessivos governos conservadores de Theresa May e Boris Johnson, contestando a forma como geriram a saída do país da União Europeia em 2016-17 e 2019.
"Espero que o novo líder do Partido Trabalhista tenha um plano e uma estratégia, alguma clareza sobre o rumo da nossa relação com a Europa", disse Miller à Euronews na segunda-feira, na véspera do 10.º aniversário do Brexit.
"Fiquei muito desiludida por o primeiro-ministro Starmer não ter sido mais claro sobre aquilo a que chamou 'realinhamento'."
Apesar de Starmer ser, provavelmente, o líder britânico mais pró-europeu desde o referendo do Brexit, procurou equilibrar com cautela os apelos dentro do seu partido para reforçar os laços do Reino Unido com a UE e a oposição, enraizada na opinião pública, a pôr em causa o resultado da consulta popular.
A demissão levanta também dúvidas em torno das próximas conversações de "reset" pós-Brexit, que deverão ter lugar a 22 de julho.
Nesse encontro, Bruxelas e Londres esperavam assinar um «acordo triplo» para reduzir drasticamente as barreiras ao comércio de produtos agroalimentares através do alinhamento das regras sanitárias e fitossanitárias, reintegrar o Reino Unido no mercado interno de eletricidade da UE e conceder vistos especiais a jovens europeus e britânicos ao abrigo de um programa de mobilidade juvenil.
"Na minha opinião, está aberta a porta para um acordo do tipo suíço, e penso que devíamos ser muito claros sobre isso, em vez de andarmos a escolher aqui e ali, em pequenos passos. Espero que haja oportunidade para um novo líder ser muito mais ousado e falar de alinhamento."
O "modelo suíço" tem sido apontado como alternativa ao atual Acordo de Comércio e Cooperação (ACC) entre o Reino Unido e a UE, dando a Londres um acesso profundo ao mercado único europeu em determinados setores, à semelhança do que acontece com a Suíça, que não é Estado-membro.
"Temos o [partido de extrema-direita] Reform à espreita na nossa política britânica e, possivelmente, um governo ao estilo do Reform depois das próximas eleições legislativas. Para mim, um acordo de tipo suíço é algo que temos de fazer, para garantir que a porta se mantém aberta para, um dia, talvez, voltarmos a aderir."
No entanto, este tipo de acordo já foi rejeitado pela UE no passado. Miller observou ainda que não considera que nem o Reino Unido nem a UE tenham, neste momento, a margem política "para estarem a falar disso".
Garantir que primeiros-ministros não ficam acima da lei
Em 2016, Miller contestou em tribunal o governo de Theresa May, depois de este ter acionado o artigo 50.º do Tratado da União Europeia – o mecanismo jurídico utilizado pelos Estados-membros para notificarem formalmente a saída da União – através de poderes de prerrogativa executiva, sem uma votação no Parlamento.
Em setembro de 2017, o Supremo Tribunal decidiu a favor de dar aos deputados uma palavra a dizer sobre o acionamento do artigo 50.º. Dois anos depois, Miller apresentou uma segunda ação judicial bem-sucedida, que levou o Supremo Tribunal do Reino Unido a decidir por unanimidade que a suspensão do Parlamento pelo antigo primeiro-ministro Boris Johnson era ilegal.
"Independentemente do meu apoio pessoal à permanência na UE, o que estava em causa era muito mais o processo e garantir que os primeiros-ministros não se podiam colocar acima da lei. Ironia das ironias: se se recorda, toda a gente falava de soberania parlamentar", disse Miller.
Salientou que os mesmos pesos e contrapesos terão de ser aplicados a eventuais discussões sobre um regresso ao bloco.
"O que quer que aconteça a seguir não pode ser feito pela porta do cavalo. Qualquer realinhamento e quaisquer mudanças futuras têm de ser transparentes, à vista de todos e debatidas no Parlamento."
Numa altura em que o Brexit volta a ser colocado no topo da agenda política no Reino Unido, e em que entre dirigentes trabalhistas já se fala num regresso à UE, Miller afirmou que as ameaças que enfrentou quando avançou com as ações judiciais também estão a regressar.
Miller e a família ficaram sob proteção de uma brigada antiterrorismo devido ao número de ameaças de morte e de insultos de que foi alvo, casos pelos quais algumas pessoas foram condenadas a prisão.
"Durante muito tempo, a palavra começada por B (Brexit) não era mencionada pelos políticos; tinham demasiado receio de a pronunciar. Agora, com o aniversário esta semana, aumentou o nível de abusos que tenho recebido", explicou.
"Desta vez estou a recebê-los dos dois lados. Recebo-os dos 'Leavers', porque o ódio deles não desapareceu, e os partidos Reform e Restore, no Reino Unido, estão a alimentar todo o discurso anti-imigrante e anti-UE, o que faz com que eu sofra o retorno dessa hostilidade."
Ao mesmo tempo, afirmou, é criticada pelos 'Remainers' por adotar uma postura pragmática, quando estes "pensam que podemos simplesmente voltar a aderir amanhã".
Economia fragilizada e política dividida
Passados dez anos sobre o referendo do Brexit, o consenso esmagador entre investigadores e instituições públicas é que a decisão de sair da UE prejudicou a economia, embora de forma gradual e não através de uma queda abrupta ou de um choque súbito.
"Suspeitava que os Brexiteers, os Leavers, não tinham qualquer plano para o que aconteceria se ganhassem", afirmou Miller.
"E isso acabou, infelizmente, por se confirmar: segundo a maioria dos economistas, a nossa economia foi prejudicada em cerca de 5% do PIB."
O referendo do Brexit, em 2016, polarizou o Reino Unido, dividindo comunidades e famílias entre campos entrincheirados de 'Leavers' e 'Remainers'.
De acordo com uma sondagem publicada a 21 de junho pelo Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR), até dois terços dos eleitores britânicos, em todos os quadrantes partidários, consideram que o Brexit prejudicou o país.
Para Miller, o Brexit deixou feridas por todo o país, mas também levou os britânicos a envolverem-se mais na política.
"Se há um aspeto positivo a retirar do Brexit, é que [...] as pessoas estão agora muito mais envolvidas, e é por isso que estamos a ver tantos novos partidos a surgir", argumentou.
"O Partido Verde está a ter bons resultados, tal como o novo partido de extrema-direita Restore. As pessoas estão mais envolvidas, e isso é positivo, porque uma democracia saudável precisa de cidadãos mais envolvidos."
Ainda assim, Miller notou que o país se tornou muito mais politicamente divisivo. "Penso que o problema é não termos políticos com coragem", disse.
"Não temos políticos que expliquem claramente as dificuldades, [...] não dizem às pessoas a verdade sobre a situação em que estamos e as escolhas difíceis que temos de fazer para chegar a um lugar melhor."