Na manhã de sexta-feira, o chanceler alemão Friedrich Merz recebeu Emmanuel Macron na base aérea de Noervenich, perto de Colónia, para o 26.º Conselho de Ministros franco-alemão.
Objetivo: "Reforçar a segurança dos nossos países e do nosso continente e criar mais incerteza entre os nossos adversários". Quem o disse foi o chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, esta sexta-feira, quando o chanceler alemão Friedrich Merz e o presidente da República francesa deram uma conferência de imprensa conjunta, após o 26.º Conselho de Ministros franco-alemão.
Intervenção rica em informação, com temas que foram da indústria aeroespacial à proteção de menores nos conteúdos em linha, passando pelas reformas das pensões e pela união dos mercados de capitais. Mas foi sobre a defesa e a dissuasão europeia que a dupla franco-alemã mais insistiu.
As forças alemãs vão participar "já este ano" num exercício francês de dissuasão nuclear, anunciou o chanceler Friedrich Merz.
O encontro realizou-se no castelo de Augustusburg, em Brühl, onde há 80 anos Konrad Adenauer e Charles de Gaulle lançaram as bases da colaboração franco-alemã. O chanceler alemão não hesitou em fazer uma referência à história, lembrando que o país tinha, em tempos, recusado integrar-se no guarda-chuva nuclear francês. "Não o aceitámos, porque vivíamos noutro mundo. Mas o mundo atual exige novas respostas", explicou.
É a primeira vez que tropas convencionais alemãs e francesas colaboram num exercício deste tipo. "É possível que isto venha a traduzir-se numa mudança de doutrina, mas é demasiado cedo para o dizer hoje", relativizou, ainda assim, Friedrich Merz.
A iniciativa partiu do lado francês. Perante a comunicação social, Emmanuel Macron enumerou os objetivos deste reforço de parceria: "Criar intimidade estratégica entre nós, propor exercícios conjuntos, elementos conjuntos de parceria, aprofundar a proximidade entre as nossas equipas e criar incerteza entre os nossos adversários, porque isso dilui a responsabilidade desta dissuasão nuclear".
Diz-se "aberto a tudo", acrescentando que "a nossa vontade é ir o mais longe e de forma mais útil com a Alemanha, que é o parceiro de confiança, o parceiro privilegiado".
Há, no entanto, um limite colocado pelos dois chefes de Estado na questão do financiamento. "O objetivo da dissuasão avançada não prevê, em caso algum, o cofinanciamento do nuclear francês", vincou Emmanuel Macron.
Persistem divergências
Mesmo diante das câmaras, a unidade franco-alemã deixa ver algumas fissuras, sobretudo ligadas ao projeto falhado de avião de nova geração desenvolvido em conjunto pelos dois países.
No início de junho foi anunciado que o projeto de avião tinha sido abandonado, na sequência de tensões entre os construtores Airbus e Dassault. "Não concretizámos tudo o que queríamos concretizar há um ano, é preciso ser realista. Lamentamos isso", admitiu Emmanuel Macron.
Segundo o presidente francês, foram "diferenças industriais" que ditaram o fim do projeto. Indicou, contudo, que a governação em torno do programa vai ser repensada, já que o SCAF não é apenas um avião, mas todo um sistema.
"O SCAF nunca foi apenas um novo avião de combate, mas sim um novo sistema. Todo o envolvente, o comando digital, será a longo prazo mais importante", acrescentou Friedrich Merz.
Quanto à China, os chefes de Estado não hesitam também em mostrar a sua discórdia. Emmanuel Macron recorda que os dois países não têm "a mesma história nem as mesmas posições" face à segunda potência mundial.
"A Europa regista, todos os dias, um défice de mil milhões de euros face à China", declarou o presidente francês, defendendo a transferência de competências inovadoras para a Europa em vez de importar produtos chineses.
Mostrou-se mais prudente o chanceler. "Observamos défices comerciais crescentes em desfavor da União Europeia. (...) Vamos ter de falar sobre isso. Não quero um conflito com a China, mas é preciso ser franco quanto a este desequilíbrio em prejuízo da nossa indústria".