A central nuclear de Almaraz manter-se-á em funcionamento até 2030 após decisão do governo de Pedro Sánchez, muito saudada na Extremadura, onde emprega cerca de quatro mil pessoas. A prorrogação foi publicada no BOE e ganha peso após o apagão de há pouco mais de um ano.
O governo espanhol anunciou esta sexta-feira a prorrogação da central nuclear de Almaraz até 8 de junho de 2030, dando resposta ao pedido formulado no último outono pelas empresas proprietárias da instalação. A decisão, que atrasa em três anos o encerramento previsto dos dois reatores da central da Estremadura, foi publicada através do Boletim Oficial do Estado, por meio de uma ordem ministerial do Ministério para a Transição Ecológica.
Almaraz é a central nuclear que mais eletricidade produziu na história de Espanha e representa atualmente cerca de 7% da produção elétrica nacional. A unidade 1 estava prevista encerrar em novembro de 2027 e a unidade 2 em outubro de 2028, de acordo com o calendário acordado em 2019 entre o Governo e as empresas do setor.
Após o apagão que atingiu a Península Ibérica em abril de 2025, o papel da energia nuclear e a necessidade de manter estas centrais voltaram ao centro do debate.
Calendário de encerramento acordado em 2019
Esse acordo, alcançado num contexto de coligação governamental com o Podemos e, mais tarde, com o Sumar — que exigia o encerramento imediato de todas as centrais —, estabelecia o apagão nuclear progressivo dos sete reatores espanhóis, com o objetivo de que em 2035 não permanecesse nenhum em funcionamento. O calendário definido era o seguinte: Almaraz I em novembro de 2027, Almaraz II em outubro de 2028, Ascó I e Cofrentes em 2030, Ascó II em 2032 e Vandellós II e Trillo em 2035.
No entanto, a posição das proprietárias foi evoluindo com o passar do tempo até que, no último outono, as empresas proprietárias de Almaraz solicitaram formalmente ao Governo uma prorrogação de três anos, até junho de 2030.
“Uma questão ideológica”: pressão de Bruxelas
A decisão do Executivo surge também num contexto de crescente pressão europeia. Em fevereiro de 2026, uma delegação de dez eurodeputados, liderada pelo presidente da Comissão das Petições do Parlamento Europeu, o polaco Bogdan Rzońca, visitou as instalações de Almaraz em resposta a uma petição cidadã contra o seu encerramento, subscrita por trabalhadores, autarquias, residentes, agricultores e associações da região.
Rzońca classificou o encerramento da central como “questão ideológica” para o governo espanhol e assinalou que mais de 10 mil residentes locais se opunham à decisão, alertando para uma desconexão entre os poderes local e nacional neste dossiê.
Fruto dessa visita, a Comissão das Petições aprovou em maio de 2026 um relatório que instava expressamente o governo espanhol a reconsiderar o calendário de encerramento, concluindo que a decisão respondia a “razões meramente políticas e ideológicas, sem base técnica suficiente” e alertando para as graves consequências económicas, sociais e energéticas que teria para a região e para o conjunto do sistema elétrico espanhol. A eurodeputada do PP Elena Nevado defendeu que “não existe uma avaliação de impacto integral que valorize adequadamente as suas consequências” e sublinhou que a central garante cerca de 4 000 postos de trabalho diretos e indiretos.
O relatório europeu recordava também que as decisões sobre infraestruturas energéticas estratégicas devem ser tomadas com base em avaliações rigorosas, transparentes e tecnicamente fundamentadas, tendo em conta a segurança energética, o impacto socioeconómico e os objetivos de descarbonização. A posição do Parlamento Europeu alinhava-se ainda com a da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que tem defendido repetidamente a conveniência de manter em operação as centrais nucleares já em serviço.
CSN abriu caminho
A decisão do Executivo surge depois de o Conselho de Segurança Nuclear (CSN) ter emitido, em 16 de julho, um relatório favorável à continuidade da central, concluindo que esta reúne todas as condições de segurança nuclear para operar até 2030.
A instalação cumpre ainda os requisitos de garantia de abastecimento e de custo zero para os consumidores fixados pelo Ministério para a Transição Ecológica. O relatório favorável do organismo regulador eliminou assim o principal argumento técnico que o governo poderia ter invocado para manter o calendário de encerramento original, deixando a decisão nas mãos exclusivamente políticas.
Recorde-se que a central tem uma “gémea” na Virgínia (Estados Unidos), North Anna, já autorizada para operar até aos 80 anos.
Alívio e vitória para uma região marcada pelo êxodo rural
A notícia foi recebida com satisfação pela plataforma cidadã Sí a Almaraz, Sí al futuro, que desde a sua constituição, em janeiro de 2025, reuniu mais de uma centena de municípios, organizações empresariais, câmaras de comércio, trabalhadores, empresas auxiliares e associações de toda a comarca de Cáceres em defesa da continuidade da central.
“Finalmente respiramos de alívio e vemos luz ao fundo do túnel”, afirmou Fernando Sánchez, presidente da plataforma e presidente do município de Belvís de Monroy, que considera que a decisão “devolve confiança a milhares de famílias que durante meses viveram à espera de uma resolução que condicionava o futuro de toda uma comarca”.
A plataforma, que se define como um movimento cívico, plural e transversal, com representantes de diferentes sensibilidades políticas, contou também com o apoio de organizações internacionais como a Mothers for Nuclear — promotora da continuidade da central norte-americana de Diablo Canyon — e a WePlanet, referência do ecologismo pronuclear na Europa. O seu exemplo inspirou ainda a criação de Mulheres por Almaraz, associação formada por mais de um milhar de mulheres do Campo Arañuelo que defende a central como garantia de emprego, desenvolvimento económico e descarbonização.
Debate reabre-se
A prorrogação de Almaraz reativa o debate sobre o futuro da energia nuclear em Espanha numa altura em que vários setores económicos e técnicos pressionam para que o governo reveja também as datas de encerramento de outras centrais. As guerras na Ucrânia e no Irão levam a repensar decisões para garantir a independência energética na União Europeia.
Empresários catalães pediram recentemente que seja reconsiderado o calendário de encerramento das centrais de Ascó e Vandellós, enquanto engenheiros industriais e vários analistas de energia alertaram para os riscos que, para o abastecimento elétrico nacional, representaria manter o ritmo de apagão previsto, sobretudo após o apagão nacional que abalou Espanha no ano passado e voltou a abrir o debate sobre a segurança e a dependência energética do país.