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Europa com falta de militares corre para recrutar 100 mil soldados

Militares franceses desfilam no desfile militar do Dia da Bastilha na avenida dos Campos Elísios, em Paris, em 14 de julho de 2026.
Soldados franceses desfilam na parada militar do Dia da Bastilha na avenida Champs-Élysées, em Paris, em 14 de julho de 2026 Direitos de autor  AP
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De Angela Skujins
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Comissário europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, afirma que a Europa deve conseguir mobilizar rapidamente cerca de 100 mil militares para dissuadir um eventual ataque russo. Especialistas alertam para dificuldades em cumprir esta meta

A União Europeia apressa-se a reforçar o seu armamento, mobilizando milhares de milhões de euros para dotar os 27 Estados-membros dos recursos financeiros necessários para responder a potenciais ameaças externas.

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Apesar destas metas de despesa ambiciosas, reforçadas pelos compromissos de defesa da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), entretanto revistos em alta, fontes do setor alertam que as forças armadas europeias enfrentam desafios significativos de recrutamento e retenção de efetivos.

“No fim de contas, precisamos de ter pessoas suficientes para acompanhar estes investimentos”, afirmou Emmanuel Jacob, presidente da Organização Europeia de Associações e Sindicatos Militares (EUROMIL).

Jacob acrescentou que o problema não é novo, mas que o que mudou, disse, foi a urgência crescente. A dimensão dos efetivos necessários para sustentar esta expansão militar sem precedentes foi igualmente traçada em fevereiro pelo comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius.

“Imaginem que estamos em 2030, o ano em que os serviços de informações dizem que a Rússia estará pronta e disposta a testar a NATO, e que 100 mil soldados russos se estão a concentrar na fronteira da UE e da NATO”, disse em Vilnius, segundo avaliações de serviços de informações europeus.

“Para corresponder a uma concentração de 100 mil militares, teríamos de mobilizar rapidamente números semelhantes de soldados e de equipamento.”

Mesmo antes de a Comissão Europeia apresentar o seu plano de 800 mil milhões de euros para rearmar a Europa, o Parlamento Europeu já tinha manifestado preocupação com a falta de efetivos. Em 2024, aprovou um relatório que alertava que “as forças armadas europeias enfrentam graves problemas de recrutamento e de retenção de pessoal”.

Os eurodeputados instaram o antigo chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, a investigar a escassez e a propor possíveis soluções. Em resposta a perguntas da Euronews, um responsável da Comissão Europeia afirmou que o recrutamento e a retenção continuam a ser da responsabilidade de cada Estado-membro.

Qual é o problema?

Segundo dados recolhidos pela EUROMIL, através de um inquérito a 11 associações de militares, a maioria dos inquiridos descreveu o recrutamento nos respetivos países como “problemático”, enquanto a retenção foi considerada “problemática” ou mesmo “crítica”.

Participaram no inquérito associações militares da Bélgica, Bulgária, França, Alemanha, Hungria, Irlanda, Itália, Malta, Países Baixos, Portugal, Espanha e Suécia.

Os resultados mostraram que os militares tendem a abandonar as forças armadas ao fim de cerca de 10 anos de serviço. As maiores barreiras ao recrutamento são a concorrência do setor privado, os salários e os requisitos de aptidão física.

os baixos vencimentos, o fraco equilíbrio entre vida profissional e pessoal e outras condições de trabalho foram apontados como os principais motivos para a saída de pessoal.

Entre as recomendações, o inquérito defende aumentos salariais e de pensões, um melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal e limites ao horário de trabalho, de modo a ajudar a atrair e a reter efetivos.

Militares da NATO num campo de treinos em Smardan, na Roménia, 19 de fevereiro de 2025.
Militares da NATO num campo de treinos em Smardan, na Roménia, 19 de fevereiro de 2025. AP

Steven Everts, diretor do Instituto da União Europeia para Estudos de Segurança (EUISS), afirmou que o recrutamento e a retenção nas forças armadas são uma questão complexa. “É um desafio com que as pessoas se debatem”, disse.

Everts retomou as preocupações com a remuneração e as condições de trabalho dos soldados, sublinhando que um dos grandes enigmas reside na forma como a Europa pretende alargar a sua bolsa de reservistas.

Trata-se de pessoas com competências especializadas que podem ser chamadas apenas alguns meses por ano, ou ainda menos. Incluem especialistas em cibersegurança, logística e profissionais de saúde, “todos os tipos de funções de que os exércitos precisam”, referiu.

Segundo Everts, o ímpeto de rearme da Europa não tem sido acompanhado pelas reformas organizacionais necessárias para que um sistema deste tipo funcione. “Se trabalha para uma empresa de tecnologias de informação e o seu chefe lhe disser: ‘Olhe, trabalha para mim, meu amigo’, que interesse é que o seu chefe tem em deixá-lo disponível, de prevenção, para as forças armadas nacionais?”, questionou.

“É difícil concretizar, também em termos organizacionais, o rearme de que tanto falamos.”

Problema também para a NATO

O desafio vai para lá da União Europeia. Um membro da Comissão de Defesa e Segurança (DSC) da Assembleia Parlamentar da NATO, Spyridon Kyriakis**,** foi encarregado de analisar os “crescentes desafios” da Aliança em matéria de recrutamento e de retenção. O relatório deverá ser apresentado no final de novembro.

Uma nota de síntese da DSC (fonte em inglês) sublinha que se espera que o relatório identifique os fatores estruturais e sociais que estão na origem dos atuais desafios de recrutamento e de retenção, e o que isso significa para a segurança da Aliança.

“A incapacidade de alargar as forças armadas dos Aliados para cumprir os novos requisitos de forças da NATO constitui um risco direto para a prontidão, a credibilidade e a sustentabilidade a longo prazo das forças da NATO, num ambiente de segurança internacional cada vez mais complexo e em rápida deterioração”, lê-se na nota.

A especialista em defesa Chris Kremidas‑Courtney escreveu (fonte em inglês), em 2025, que responsáveis da NATO alertaram para o facto de os modelos de forças atuais serem “insuficientes” para uma guerra de alta intensidade e que são necessárias medidas adicionais para atrair e reter pessoal. Isso deverá ser feito através de recrutamento voluntário ou de conscrição seletiva.

Mas também é necessária uma mudança cultural. Quando o chanceler alemão, Friedrich Merz, prometeu, no ano passado, transformar a Bundeswehr no exército convencional mais forte da Europa, o anúncio foi recebido com apreensão.

As alterações legislativas subsequentes, incluindo uma lei que reintroduziu o registo militar obrigatório, levaram milhares de pessoas, sobretudo jovens adultos, a protestar.

Kremidas‑Courtney defende que atrair e reter tropas exigirá não apenas reformas organizacionais, mas também uma mudança cultural mais ampla. “Se servir nas forças armadas for mal visto numa sociedade, poucos quererão ficar e ainda menos quererão alistar-se”, escreveu.

“O futuro da segurança europeia dependerá de as suas sociedades conseguirem reconstruir o contrato social em torno da defesa nacional e de outras formas de serviço, de modo a garantir que a Europa dispõe dos soldados de que precisa para os desafios que se avizinham", conclui.

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