Unido pelo desejo "de fazer a diferença", um grupo de ciclistas amadores de Portalegre tem vindo a ganhar o gosto, ao longo dos anos, pelas longas distâncias. A "vontade de ajudar os outros" esteve na base desta parceria com a Liga Portuguesa Contra o Cancro, conta um dos elementos à Euronews.
Seis amigos portugueses decidiram pedalar pelos Pirenéus por "uma causa maior". João Feiteira, Júlio Ceia, Paulo Miranda, Vítor Cordeiro, Joaquim Almeida e João Albuquerque lançaram-se à estrada com vista a recolher fundos para a Liga Portuguesa Contra o Cancro e a sensibilizar para a missão de uma organização que tem vindo a prestar apoio, há mais de 80 anos, aos pacientes oncológicos e às suas famílias.
Partiram no sábado, dia 22 de agosto, da comuna francesa de Hendaye, no extremo sudoeste do país, banhado pelo Oceano Atlântico, para uma primeira etapa de 144 quilómetros em cima do selim. No total, foram sete etapas, com uma distância geral percorrida de quase 900 quilómetros e tendo Cerbère, também em França, do lado oposto da cordilheira e já nas margens do Mar Mediterrâneo, como destino. Um percurso que foi concluído na sexta-feira seguinte, tal como inicialmente previsto.
Unido "pela bicicleta e pela vontade de fazer a diferença", este grupo de ciclistas amadores de Portalegre, na região do Alentejo, tem vindo a ganhar o gosto, ao longo dos anos, pelas longas distâncias. Nunca de "forma competitiva", mas numa perspetiva de superação e de conseguirem ir "cada vez mais longe", relata o empresário João Feiteira, que integra este eclético pelotão, composto por corredores de contextos profissionais muito diferentes, da Medicina às Telecomunicações.
"E, há uns anos, lembrámo-nos de que podíamos aliar este nosso hobby, esta nossa paixão", à vontade de "ajudar os outros", numa ação solidária que foi apelidada de "Pedalar pela Vida", conta à Euronews.
Ao longo das sete etapas, foram sendo partilhadas, numa página dedicada à iniciativa no Instagram, atualizações diárias sobre esta sua "missão" — que, este ano, foi tudo menos "fácil". Tiveram pela frente "subidas muito duras", mas também condições meteorológicas adversas, como "chuva e trovoadas", entre outros perigos. Perante um cenário como este, aponta João Feiteira, é preciso "um espírito de entreajuda muito grande" entre os ciclistas, para que, no final, pudessem "chegar todos juntos" ao destino, independentemente das "dificuldades" enfrentadas.
A acompanhar a viagem, estiveram também "duas voluntárias da Liga Portuguesa Contra o Cancro", que foram "dando apoio" aos seis elementos ao longo do percurso.
E era, em particular, através da partilha destas peripécias nas redes sociais que surgia o apelo para que aqueles que se deparassem com as publicações dessem a sua contribuição, com vista a robustecer o trabalho da instituição ao nível do "acompanhamento, apoio social e material" fornecido aos doentes oncológicos e às suas famílias. Este ano, foi inclusive criado um site onde todos os interessados podiam fazer o seu donativo, através de MB Way ou de transferência bancária.
Outra forma de apoiar a instituição sem fins lucrativos era através da compra de t-shirts solidárias, alusivas ao projeto, por 12,50 euros cada. O valor total, retirando o custo do trabalho de impressão das mesmas, revertia igualmente para a Liga Portuguesa Contra o Cancro. Adicionalmente, foram também colocados, em "estabelecimentos comerciais da cidade de Portalegre e arredores", vários mealheiros associados ao projeto para que os cidadãos pudessem também lá deixar o seu contributo, relata o ciclista João Feiteira. Em fim de campanha, conseguiuram angariar com esta iniciativa cerca de 5.000 euros, revelaram à Euronews.
Uma parceria que remonta a 2022
Se durante muitos anos os seis amigos se juntavam no verão apenas com o intuito de fazerem "alguns quilómetros de bicicleta" em conjunto, rapidamente estas "iniciativas anuais" se transformaram numa forma de prestar apoio à Liga Portuguesa Contra o Cancro, com os próprios a assumirem inteiramente os custos associados às viagens.
Em 2022, percorreram a Estrada Nacional 2, considerada a mais emblemática de Portugal e que liga o norte ao sul do país, de Chaves a Faro. Mas, antes de iniciarem a prova, fizeram ao Grupo de Apoio de Portalegre da Liga Portuguesa Contra o Cancro uma proposta: "[Sugerimos que], enquanto íamos cumprindo as etapas, fôssemos divulgando o trabalho da Liga e pedindo às pessoas para contribuírem, para conseguirmos angariar fundos", relata João Feiteira.
Uma ideia que teve uma adesão imediata. "O Grupo de Apoio de Portalegre achou a ideia interessante e acabou por ser um sucesso. E, a partir daí, todos os anos, mais ou menos em finais de agosto e princípios de setembro, temos feito uma ação solidária nestes moldes para ajudar a Liga Portuguesa Contra o Cancro."
Após uma interrupção em 2023, os seis ciclistas retomaram estas ações solidárias em 2024. Nesse ano, saíram "de bicicleta de Portalegre" e rumaram em direção ao Col du Tourmalet, "que é uma das subidas míticas da Volta a França em Bicicleta", também nos Pirenéus, num percurso de "quase mil quilómetros".
Mas, no ano passado, a escolha foi outra. Tendo a Liga Portuguesa Contra o Cancro vários Grupos de Apoio espalhados por todo o país, estes ciclistas voltaram a ter a sua terra, Portalegre, como ponto de partida, percorrendo depois um itinerário que incluiu várias localidades onde os mesmos estão sediados.
Isto para que pudessem também visitar estes espaços e "dar visibilidade", através das redes sociais, à tarefa que cumprem, com a ajuda de dezenas de milhares de voluntários que prestam "esse apoio de uma forma completamente desinteressada, por amor ao próximo", sublinha o ciclista João Feiteira.
"Então, fomos à Golegã, a Abrantes, a Santarém, às Caldas da Rainha, a Lisboa, a Setúbal, a Évora, a Beja, a Almodôvar e a Faro." Durante o trajeto, foram, à semelhança dos anos anteriores, "apelando a que [as pessoas] fizessem donativos para esta causa."
Contas feitas, em cada uma das edições anteriores da iniciativa "Pedalar pela Vida", foram angariados donativos no valor de cerca de cinco mil euros para a Liga Portuguesa Contra o Cancro, tal como aconteceu este ano.
Este ano, os Pirenéus: a razão
Questionado pela Euronews sobre os motivos que os levaram a escolher os Pirenéus como a "missão" deste ano, o ciclista João Feiteira explica: "Nós quisemos abraçar um desafio que pensássemos que era maior do que nós próprios e que fosse algo muito difícil. E que, talvez, não conseguíssemos levar a cabo até ao fim."
Porquê? "Porque o doente oncológico, quando o infortúnio lhe bate à porta e se depara com a contingência de ter uma doença que, para todos os efeitos, não é simpática [...], muitas vezes também se sente perdido e com vontade de desistir." Acabando por percorrer esse "caminho", pontuado por tratamentos constantes, não sabendo se tudo aquilo o "vai conduzir ao destino que lhe interessa" e se vai conseguir "superá-la".
A ideia passou, assim, por estabelecer "um paralelismo" entre a difícil provação destes ciclistas nos Pirenéus "e aquilo que o doente oncológico" enfrenta "desde o dia em que descobre que tem a doença até à cura". Dando-lhes, dessa forma, "algum carinho", acrescenta João Feiteira, de modo a que possam sentir que, mesmo não estando "a pedalar" juntamente com estes seis amigos, "é como se estivessem. Porque eles reveem-se nas nossas dificuldades, sentem-nas na pele todos os dias".
Tudo com vista a fazer com que o paciente "não se sinta sozinho", dando-lhe, desse modo, uma "palavra de incentivo e de esperança". Até porque, neste tipo de situação, "não é apenas o dinheiro que importa", conclui o ciclista, fazendo alusão aos montantes angariados no contexto das várias edições do projeto "Pedalar pela Vida".