Dívida, fiscalidade, despesas públicas, pensões: sete candidatos ao Eliseu enfrentam, esta quinta-feira, o primeiro grande teste perante o patronato francês, um exercício de alto risco em que terão de convencer na economia sem renegar a sua posição política.
Os sete têm esta quinta-feira, 27 de agosto, um objetivo comum: tranquilizar o patronato. Se, para Jean-Luc Mélenchon, Marine Tondelier, Raphaël Glucksmann, Gabriel Attal, Édouard Philippe, Bruno Retailleau e Marine Le Pen, a corrida ao Eliseu já começou através dos meios de comunicação social, este primeiro debate cara a cara marca uma nova etapa na campanha presidencial.
No court Philippe-Chatrier, court central de Roland-Garros, mais habituada aos grandes confrontos de ténis do que políticos, o Medef (Mouvement des entreprises de France, principal organização partronal do país) organiza, por ocasião das suas jornadas de verão, um primeiro confronto direto entre sete candidatos ao mais alto cargo do Estado.
"As nossas convicções são liberais"
No discurso inaugural do Encontro de Empresários de França, Patrick Martin, presidente do Medef, exortou os candidatos a "propor escolhas políticas claras e corajosas".
"Será isto, para eles, garantia de fracasso eleitoral? Pensamos o contrário".
Na sua opinião, os candidatos não terão alternativa senão lidar com o patronato. O Medef representa 240 mil empresas e cerca de 12 milhões de trabalhadores, lembrou Patrick Martin. "Estaremos omnipresentes no debate político".
O presidente do Medef apresentou as suas ambições: "As nossas convicções são liberais [...], queremos um programa presidencial de liberdades. É preciso romper o colete de forças que sufoca o nosso país e libertar a sua energia e as suas ambições", sublinhou.
Os sete candidatos jogam ainda mais alto porque as expectativas do patronato estão claramente identificadas. Dos 65.872 dirigentes de empresas inquiridos num inquérito de opinião lançado pelo Medef, 82% declaram-se pessimistas quanto aos efeitos da política económica do próximo Presidente da República, seja ele quem for.
O Medef define já cinco prioridades para o próximo quinquénio: redução da fiscalidade e dos encargos das empresas (reclamada por 83% dos inquiridos), reindustrialização de França (81%), simplificação dos procedimentos administrativos (75%), redução da dívida e da despesa pública (75%) e estabilização das regras fiscais e sociais (74%).
"As empresas querem que as suas prioridades sejam colocadas no centro do debate presidencial", garante o Movimento. "É tão fácil para os políticos, de todos os quadrantes, fazer recair a carga sobre as empresas [...]. As maiores empresas já são as mais taxadas do mundo. Estamos a atingir o nosso limiar de dor", salientou Patrick Martin na France Inter.
Mas, qualquer que seja o resultado da eleição e a política que daí resultar, "aceitaremos o voto", assegurou Patrick Martin, nas páginas do Parisien: "Trabalharemos com aqueles que os franceses tiverem colocado no poder, gostemos ou não: não temos outra escolha senão ser pragmáticos e adaptar-nos às circunstâncias".
Desafios a todos os níveis
Os participantes no debate terão, assim, muito trabalho para tentar convencer os empresários num contexto económico difícil: o rácio da dívida pública atingiu 117,5% do PIB no final do primeiro trimestre, enquanto a Fitch atualizará esta sexta-feira a notação soberana de França.
Jean-Luc Mélenchon tem provavelmente tudo a ganhar perante um público que deverá mostrar-se particularmente hostil ao seu programa. O fundador da La France insoumise terá de convencer, em especial, as PME de que não defende um programa "anti-empresas", estando a favor de reservar uma parte dos contratos públicos às pequenas e médias empresas. Terá, no entanto, de defender as suas medidas perante os grandes patrões, como o aumento do salário mínimo (Smic), a reforma aos 60 anos ou uma fiscalidade mais pesada para as empresas e os rendimentos mais elevados.
Do outro lado do espetro político, Marine Le Pen deverá também convencer os grandes patrões da credibilidade do seu programa. Se algumas das suas propostas vão ao encontro das expectativas do Medef, nomeadamente quanto à simplificação das normas ou à transmissão das empresas, outras, consideradas mais onerosas, poderão suscitar reservas no mundo patronal. Terá igualmente de defender a sua intenção de rever em baixa a idade de acesso à reforma, outro ponto de divergência com os representantes das empresas.
Bruno Retailleau aposta, por seu lado, no "choque fiscal" que promete, com uma redução de 40 mil milhões de euros nos impostos logo à chegada ao Eliseu. Mas o antigo ministro do Interior tem outros trunfos para seduzir os grandes patrões, como um projeto de saída do quadro das 35 horas, uma reforma do subsídio de desemprego ou o aumento de 11 para 50 trabalhadores do limiar a partir do qual um CSE (Conselho Social de Empresa, órgão representativo da administração e dos trabalhadores) se torna obrigatório.
Para os dois antigos primeiros-ministros, Gabriel Attal e Édouard Philippe, o desafio é triplo. Terão de defender o balanço económico dos anos Macron (os empresários criticam hoje o nível elevado de impostos e a explosão da dívida) e convencer de que podem ir mais longe. Sobretudo, os dois representantes do bloco central terão de conseguir distinguir-se um do outro.
Em contrapartida, ambos poderão destacar a redução dos impostos de produção, a simplificação das normas e a diminuição da despesa pública que defendem.
Marine Tondelier, por seu lado, tentará colocar a ecologia no centro do debate. A secretária nacional dos Ecologistas defende uma transformação económica de grande escala, com investimentos nas energias renováveis, abandono das energias fósseis, criação de um imposto sobre as grandes fortunas ligado ao clima (o chamado "ISF climático") e condicionamento dos apoios públicos a critérios ambientais. Propostas que a colocam em confronto direto com parte das reivindicações do Medef e lhe colocam o desafio de demonstrar que a transição ecológica pode também ser um motor de competitividade e de emprego.
Eurodeputado desde 2019 e potencial candidato da social-democracia, Raphaël Glucksmann terá, por seu lado, de demonstrar que consegue convencer um público patronal nas questões económicas e sociais. Embora se oponha aos representantes das empresas em várias medidas, como o aumento do salário mínimo para 1.600 euros, que defende, ou a indexação dos salários mais baixos à inflação, poderá, ainda assim, destacar a sua vontade de reindustrializar França e reforçar a sua soberania económica, que quer também ecológica.
Arranque já em agosto
Este debate, precedido por um discurso de Ursula von der Leyen, com a presidente da Comissão Europeia a dirigir-se ao patronato francês durante a sua universidade de verão, chega particularmente cedo no calendário. Até porque os sete participantes dificilmente serão todos candidatos até ao fim.
Gabriel Attal e Édouard Philippe anunciaram ambos que avançam para a eleição, mas os dois antigos inquilinos de Matignon não fecharam definitivamente a porta a uma aliança. Na BFMTV, esta quinta-feira, o primeiro lançou a ideia de uma primária que reúna a direita e o centro. O segundo indicou que a escolha se fará "algures entre novembro e fevereiro".
A mesma questão coloca-se para Raphaël Glucksmann, que participará numa primária de parte da esquerda, prevista para o início de outubro, para designar o candidato da social-democracia. Marine Tondelier poderá também participar, ela que pretendia uma primária que reunisse toda a esquerda. No seu campo, as opiniões dividem-se entre os que a apoiam, os que querem juntar-se à La France insoumise e os que preferem apostar na primária entre o Partido Socialista e o partido "Place Publique" de Glucksmann.