A sua detenção em 2019, quando se afastava de Malta a bordo do seu iate, desencadeou uma série de protestos em massa no país que culminaram com a demissão do primeiro-ministro Muscat.
Um júri em Malta considerou, esta quarta-feira, o empresário maltês Yorgen Fenech inocente das acusações relacionadas com o assassinato da jornalista de investigação Daphne Caruana Galizia, em 2017, com uma bomba colocada no seu carro.
Este assassinato chocou a Europa, deu origem a protestos que culminaram na demissão de um primeiro-ministro e expôs uma cultura de impunidade em Malta, o Estado-membro mais pequeno da União Europeia.
Fenech, um destacado empresário maltês, foi formalmente acusado em 2021 de cumplicidade e conspiração criminosa. Integrava um consórcio que ganhou um contrato polémico com o Governo de Malta para a construção de uma central elétrica.
O Ministério Público acusou-o de ser o autor intelectual do crime, tendo-o ordenado e financiado.
Fenech declarou-se inocente e, na quarta-feira, o júri absolveu-o de ambas as acusações. Era a última das seis pessoas acusadas pelo plano a ser julgada.
Após o veredicto, saiu da sala de audiências em Valletta para um cenário caótico, com pessoas a gritar, dirigindo-se a um carro que o aguardava. Não prestou declarações.
Daphne visada pelas investigações anticorrupção
Daphne Caruana Galizia, de 53 anos, foi assassinada a 16 de outubro de 2017, quando uma bomba colocada no seu carro explodiu enquanto conduzia nas proximidades da sua residência.
A jornalista investigou de forma aprofundada alegados casos de corrupção envolvendo figuras políticas e empresariais em Malta.
Entre os visados pelas suas investigações encontravam-se membros do círculo próximo do então primeiro-ministro, Joseph Muscat, a quem acusava de possuírem empresas offshore em paraísos fiscais, conforme revelado pelos Panama Papers. Os seus artigos também criticavam dirigentes da oposição e líderes empresariais malteses.
No momento da sua morte, Caruana Galizia enfrentava mais de 40 processos por difamação.
Em 2021, foi publicado um inquérito independente sobre o assassinato que concluiu que o Estado maltês "tem de assumir a responsabilidade" pela morte, devido a uma cultura de impunidade que emanava dos mais altos níveis do Governo.
Outros acusados pelo homicídio
Em 2022, os irmãos George e Alfred Degiorgio confessaram ter cometido o crime, tendo sido condenados a 40 anos de prisão cada um.
Em 2025, Jamie Vella e Robert Agius foram condenados à pena máxima possível, prisão perpétua, por terem sido considerados culpados de cumplicidade no assassinato. Os dois homens foram acusados de terem fornecido a bomba que matou Caruana Galizia.
Em 2021, outro homem, Vincent Muscat, declarou-se culpado pelo seu papel no crime, tendo sido condenado a 15 anos de prisão.
Em 2019, Melvin Theuma, um taxista que admitiu ter atuado como intermediário, recebeu um perdão presidencial em troca do seu testemunho.
“O nosso país falhou em proteger a Daphne”
Os filhos de Daphne Caruana Galizia estiveram na linha da frente na exigência de responsabilização e justiça pela morte da mãe. Estavam presentes na sala de audiências quando o veredicto foi lido, mas saíram sem fazer comentários.
Num comunicado posteriormente publicado no Facebook, a família afirmou que o veredicto negou a Daphne "a justiça que merece".
"Nove anos após o brutal assassinato de Daphne, as falhas institucionais que possibilitaram a sua morte permanecem por resolver e por reformar. A justiça duradoura significa que ninguém deve voltar a enfrentar os mesmos riscos", podia ler-se no comunicado. "O nosso país falhou ao não proteger Daphne. Tem a obrigação de impedir que mais vidas se percam."
Como é habitual nos julgamentos criminais em Malta, não foram autorizadas câmaras no tribunal.