Milhares de crianças ucranianas permanecem sob controlo russo, alvo de doutrinação, militarização e perda de identidade, alertou a iniciativa Bring Kids Back UA, enquanto a UE prepara novas sanções contra os responsáveis pela sua deportação.
O responsável pela iniciativa Bring Kids Back UA apelou a que os responsáveis pela deportação ilegal e transferência forçada de crianças ucranianas pela Rússia sejam levados à justiça, numa altura em que a UE prepara novas sanções dirigidas a mais 27 indivíduos e entidades russas.
“A Bring Kids Back UA tem apelado de forma contínua para que todos os responsáveis pela deportação ilegal e transferência forçada de crianças ucranianas pela Rússia sejam levados a tribunal, e saudamos esta ação positiva da União Europeia no sentido de garantir a responsabilização por estes crimes”, disse Maksym Maksymov à Euronews.
“As crianças que continuam sob controlo russo enfrentam o risco de doutrinação, militarização e erosão da sua identidade ucraniana”, afirmou.
“Ainda há milhares de crianças ucranianas que não regressaram a casa. Quanto mais tempo permanecerem sob controlo russo, maiores são os riscos que correm.”
Os embaixadores da UE analisaram na quarta-feira as propostas de inclusão nas listas, na primeira reunião desde a pausa de verão.
“Esta é uma questão humanitária que diz respeito a toda a comunidade internacional. Cada criança que regressa demonstra que a ação internacional coordenada pode fazer a diferença, enquanto medidas como estas enviam uma mensagem clara de que estes crimes não ficarão sem resposta”, afirmou Maksymov.
As novas sanções estão a ser preparadas antes de uma conferência da Coligação Internacional para o Regresso das Crianças Ucranianas, em Toronto, no Canadá, a 28 e 29 de setembro.
“Através da Coligação Internacional para o Regresso das Crianças Ucranianas, os governos e parceiros internacionais podem apoiar os esforços para garantir o regresso seguro destas crianças e, ao mesmo tempo, reforçar os mecanismos internacionais que protegem as crianças em conflitos armados”, disse Maksymov.
Bruxelas já tinha visado anteriormente os envolvidos na deportação e assimilação forçada de menores ucranianos pela Rússia, com nomes individuais incluídos em anteriores pacotes de sanções.
Em maio, os países da UE colocaram na lista negra 16 indivíduos e sete entidades devido à deportação ilegal e transferência forçada de crianças ucranianas, incluindo a sua doutrinação, educação militarizada e adoção ilegal.
Após a apresentação de quarta-feira, é ainda necessário trabalho técnico para finalizar as novas listas, incluindo verificações jurídicas destinadas a garantir que resistem a eventuais impugnações em tribunal.
O Serviço Europeu de Ação Externa partilhou também com os Estados-membros uma lista de 1.600 indivíduos e entidades que contribuem diretamente para o esforço de guerra da Rússia, parte de uma mudança mais ampla, que afasta o enfoque em grandes pacotes de sanções setoriais.
Ucrânia: quantas crianças estão na Rússia?
A Ucrânia confirmou a deportação ou transferência forçada de mais de 20.500 crianças, embora se considere que a verdadeira dimensão seja bastante maior.
O Humanitarian Research Lab da Universidade de Yale estima que o número possa aproximar-se dos 35.000, enquanto Moscovo sugeriu abertamente que poderá chegar aos 700.000.
O Institute for the Study of War, sediado nos Estados Unidos, afirmou que é quase impossível verificar o número real.
A Euronews noticiou anteriormente que as autoridades de ocupação impostas pela Rússia em regiões ucranianas criaram um “catálogo” online de crianças ucranianas, oferecendo-as para “adoção” forçada através do departamento de educação.
De acordo com estas informações, os menores eram organizados e classificados para que os utilizadores pudessem “filtrá-los” por idade, sexo e características físicas, como a cor dos olhos e do cabelo. As crianças eram ainda descritas em termos de traços de personalidade, com algumas a serem rotuladas como “obedientes” ou “calmas”.
O regresso de uma única criança pode demorar anos, desde o momento em que as autoridades ucranianas a identificam até ao seu eventual retorno a casa.
Quase todos os regressos até agora foram mediados por um terceiro Estado, nomeadamente o Qatar, a África do Sul e o Vaticano.
Em março, as Nações Unidas afirmaram que a deportação e transferência forçada de crianças ucranianas para a Rússia constitui um crime contra a humanidade e um crime de guerra.
“A Bring Kids Back UA continuará a trabalhar com os nossos parceiros ucranianos e internacionais para garantir que estas crianças regressem em segurança às suas famílias e à sua terra natal”, afirmou Maksymov.