O Serviço Nacional de Saúde britânico quer que, até 2035, nove em cada dez cirurgias minimamente invasivas sejam feitas com robots. Num hospital de Londres que já usa o novo sistema, cirurgiões e doentes garantem que a mudança já se faz sentir.
Ao afastar o rosto de um capacete de realidade virtual 3D, que lhe permitia observar em detalhe o interior do pulmão de um doente, o médico Sasha Stamenković recordou as últimas etapas de uma operação em que utilizou robots para remover um tumor.
“Realizámos hoje uma intervenção extremamente delicada”, afirmou o cirurgião torácico consultor, de 60 anos.
“Preservámos uma grande parte do pulmão, contornámos vasos minúsculos e vias respiratórias muito pequenas.”
Falava para três cirurgiões de outro hospital inglês, que observavam Stamenković a utilizar o novo sistema cirúrgico robótico assistido da Vinci 5, fabricado pela empresa norte-americana Intuitive.
O equipamento chegará ao bloco operatório destes médicos ainda este ano, no âmbito de uma estratégia para aumentar o recurso à robótica nas cirurgias minimamente invasivas em todo o Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido.
Ao longo das cerca de duas horas de operação, as instruções de Stamenković ecoaram pelo microfone até à equipa cirúrgica, que inclui enfermeiros especialmente formados como primeiros assistentes em cirurgia robótica.
Como diretor de cirurgia robótica e investigação no Barts Health NHS Trust, dirige programas de bolsa no Hospital de St Bartholomew, no centro de Londres, moldando aquilo que descreve como o “cirurgião do futuro”.
O governo estabeleceu como meta que, até 2035, nove em cada dez cirurgias minimamente invasivas em Inglaterra recorram à assistência robótica.
A cirurgia minimamente invasiva, ou laparoscópica, é efetuada através de pequenas incisões em vez de um único corte grande, o que normalmente se traduz em menos dor, menos cicatrizes e uma recuperação mais rápida para o doente.
A cirurgia como ‘forma de arte’
À primeira vista, o cenário faz lembrar um videojogo.
Stamenković realizou a operação a partir de uma consola colocada ao lado da sala, com os movimentos das mãos a traduzirem-se nas ações de três braços robóticos que seguravam instrumentos cirúrgicos, por cima do doente deitado a poucos metros de distância.
Um quarto braço sustenta uma câmara, que fornece a imagem em 3D ao cirurgião, bem como a dois ecrãs no bloco operatório.
Os sistemas robóticos podem ser utilizados em várias especialidades, incluindo urologia, ginecologia, cirurgia colorretal, torácica e abdominal ou geral.
Ali Ansaripour, interno sénior de cardiotorácica em estágio de um ano, é um dos médicos sob a sua tutela.
Adaptar-se a “afastar-se” fisicamente do doente e a este novo ambiente foi “o maior desafio”, admite Ansaripour.
“Acho que isso quase o afasta um pouco do doente”, disse.
“Mas oferece uma visão extraordinária e torna-o muito objetivo na forma como trata o doente.”
Apesar do aspeto futurista, Stamenković defende que a robótica aproximou a cirurgia minimamente invasiva daquilo que “era a cirurgia aberta original”.
Isto porque os finos braços robóticos se movimentam com mais facilidade do que as mãos humanas a segurarem instrumentos no espaço restrito de uma cirurgia deste tipo.
“A cirurgia robótica devolveu aos cirurgiões aquilo que queriam: uma forma de arte, que lhes permite criar algo com as mãos”, afirmou.
A maior precisão reduz também o risco de complicações como fugas de ar, uma causa frequente de internamentos mais prolongados após cirurgias ao pulmão.
Recuperação mais rápida
Uma cirurgia mais precisa, feita através de uma ferida mais pequena, deverá traduzir-se numa hospitalização e num tempo de recuperação mais curtos.
Num serviço público de saúde sob pressão, a expectativa é que os doentes tenham alta mais cedo, libertando camas e reduzindo as listas de espera.
Ian Macleod “não se apercebeu” de que seria o primeiro doente do NHS a ser submetido a uma cirurgia ao cancro do pulmão com o novo sistema até estar já de bata e prestes a ser anestesiado.
O detetive reformado, de 76 anos, diz que a notícia “não o deixou nervoso” e que já se levantava 30 minutos depois de regressar à enfermaria.
A recuperação foi “extraordinária”, contou Macleod.
Já tinha sido submetido, no passado, a uma cirurgia minimamente invasiva sem recurso a robótica para tratar outro cancro e afirma que, nessa altura, o tempo de recuperação “foi muito mais longo”.
Desta vez, saiu do hospital com apenas um ponto e, menos de uma semana depois, já conduzia a mulher até ao centro de jardinagem para tomar um café.
Robots e formação lado a lado
O governo destacou a robótica como uma das cinco “grandes apostas” no plano de saúde para Inglaterra a dez anos.
Mas o Royal College of Surgeons of England criticou aquilo que descreve como uma verdadeira ‘lotaria’ geográfica no acesso a este tipo de cirurgia em diferentes regiões do país.
A instituição denunciou igualmente a ausência de “um modelo de financiamento padrão e consistente” para a robótica no conjunto do NHS, o que leva alguns hospitais a dependerem de donativos de instituições de solidariedade para adquirir equipamento.
“Precisamos de integrar a robótica nos programas de formação”, defende Stamenković.
Segundo o médico, os jovens cirurgiões em formação, que ainda não atingiram o nível de consultor, tendem a ser “mais ágeis” do que os colegas mais velhos.
“Só temos de canalizar a sua energia, a sua paixão e as suas competências e ensiná-los a dar os passos certos.”