Uma acusação, agora tornada pública, imputa a Castro e a outros uma alegada conspiração para matar cidadãos norte‑americanos, entre outros crimes.
O Departamento de Justiça dos EUA indiciou na quarta-feira o ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos, pelo abate, em 1996, de aviões civis pilotados por críticos do Estado comunista.
Uma acusação revelada publicamente imputa a Castro e a outros a conspiração para matar americanos, entre outras acusações.
"Durante quase 30 anos, 30 anos, as famílias de quatro americanos assassinados esperaram por justiça", afirmou o procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, em Miami.
"A minha mensagem hoje é clara: os Estados Unidos e o presidente (Donald) Trump não esquecem nem esquecerão os seus cidadãos".
Raúl Castro sucedeu ao seu irmão Fidel como presidente de Cuba e supervisionou uma aproximação histórica com os Estados Unidos em 2015, sob a presidência de Barack Obama, que Trump mais tarde reverteu.
As tensões entre Washington e Havana intensificaram-se nos últimos meses, desde que as forças norte-americanas derrubaram o aliado regional de Cuba, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, numa operação militar, e impuseram depois um bloqueio energético severo à nação insular, que já enfrentava dificuldades económicas.
O que é a "Brothers to the Rescue"?
A "Brothers to the Rescue" começou a operar no início da década de 1990, após a emigração inesperada de 125.000 cubanos para os Estados Unidos.
Fundada pelo emigrante José Basulto, tinha como objetivo ajudar os refugiados no estreito da Florida, lançando mantimentos a partir de pequenos aviões e alertando a Guarda Costeira dos EUA para localizar os cubanos no mar que fugiam da ilha.
A administração do presidente norte-americano Bill Clinton alterou as regras de imigração para dissuadir os cubanos de se dirigirem para norte em barcos precários e improvisados.
Entretanto, a Brothers to the Rescue, também conhecida pelo seu nome espanhol Hermanos al Rescate, continuou a voar em direção ao espaço aéreo cubano e a provocar Havana.
O que aconteceu aos aviões?
A 24 de fevereiro de 1996, três aviões que transportavam membros da organização "Brothers to the Rescue" entraram numa zona próxima do paralelo 24, a pouca distância a norte de Havana e de alguns dos alvos de maior importância de Cuba.
Caças cubanos abateram dois dos Cessnas civis desarmados dos exilados, matando os quatro homens a bordo. Um terceiro avião, que transportava o líder da organização, escapou por pouco.
De acordo com um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, os pilotos dos Cessnas não receberam qualquer aviso antes de serem abatidos pelos jatos da Força Aérea.
Castro terá dado a ordem para abrir fogo contra as aeronaves.
Parentes das vítimas, legisladores norte-americanos e membros da comunidade de exilados cubanos nos Estados Unidos têm pressionado há anos para que Castro seja levado a tribunal.
O poder nos bastidores
No entanto, não há indícios de que Castro venha a ser detido pelos EUA num futuro próximo.
Assumiu a presidência em substituição do seu irmão mais velho, Fidel Castro, que se encontrava doente, em 2006, antes de passar o poder a um leal e de confiança, Díaz-Canel, em 2018.
Embora se tenha aposentado em 2021 como líder do Partido Comunista de Cuba, acredita-se amplamente que exerça poder nos bastidores, o que é sublinhado pela proeminência do seu neto, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, que anteriormente se reuniu secretamente com Rubio.
"A natureza simbólica é absolutamente crucial", afirmou Lindsey Lazopoulos Friedman, ex-procuradora do Ministério Público dos EUA em Miami que tratou de casos de segurança nacional e crimes envolvendo cubanos.
"Embora Raúl Castro provavelmente permaneça e morra em Cuba, é possível utilizar a acusação como um ponto de pressão, uma vantagem tática, para obter outras concessões, como a libertação de prisioneiros ou para manter a Rússia afastada", afirmou.