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Alemanha: Merkel mais forte e mais dependente

Alemanha: Merkel mais forte e mais dependente
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A chanceler Angela Merkel conseguiu uma vitória histórica. O partido da União Cristã Democrata e os seus aliados bávaros obtiveram o melhor resultado desde a reunificação da Alemanha, em 1990. É um triunfo pessoal de Merkel. “Todos anões, menos Mutti”, isto é, menos a mamã, titulava este jornal.

Esta vitória não foi coroada por uma maioria absoluta. A derrota dos liberais, parceiros históricos da CDU, deixa a chanceler numa situação paradoxal: Merkel está mais forte do que nunca, mas também mais dependente, como explica o enviado especial da euronews a Berlim, Olaf Burns:

“Para a chanceler, foi um grande triunfo pessoal, mas as próximas semanas podem ser difíceis, pois o possível parceiro de coligação, o SPD, tem más recordações da última grande coligação, de modo que vai negociar com mão de ferro.”

No domingo à noite, o candidato do SPD, Peer Steinbrück, reconheceu que os resultados eram insuficientes, mas não esperou muito para salientar a fragilidade de Merkel.

“A bola está no campo de Merkel é a chanceler que deve procurar uma maioria.”

Steinbruck também estabeleceu regras mínimas para negociar com Merkel:

“Nada de joguinhos nem negociações estratégicas: o SPD sabe o que quer para as pessoas, sabe o que quer para a política europeia e para a política externa do país. O que queremos para a Alemanha são políticas que sejam socialmente justas e economicamente razoáveis. Estes são os nossos valores, a base de tudo.”

Antigo ministro das Finanças da Grande Coligação, entre 2005 e 2009, Steinbruck está, desta vez, mais inclinado para a esquerda, nomeadamente quando defende a necessidade de impôr um salário mínimo na Alemanha, o que, até agora, nunca foi criado.

Mas o SPD também pode exigir a pasta das Finanças, o que equivale a Merkel ter de prescindir de Wolfgang Schäuble, o respeitado ministro das Finanças do governo cessante.

A Euronews conversou com Jan Techau, director do centro europeu do Fundo Carnegie para a Paz Internacional.

Olaf Bruns, euronews:
O triunfo pessoal da chanceler é o que ressalta agora, mas o resultado da eleição é o espelho da campanha eleitoral da CDU, totalmente focalizada na sua pessoa e, claramente, não em questões políticas…

Jan Techau: “Evitar as temáticas é uma velha estratégia de campanha, mas o que importa são outras coisas. Os fatores importantes são os clássicos: A boa situação da economia e a dificuldade de fazer campanha a partir dos pontos de vista da oposição. Isto foi, para mim, o fator principal, comparado com outros casos na Europa, por exemplo, os níveis de desemprego na Alemanha. As pessoas não sentem a crise, as pessoas sentem-se bem e não têm vontade de mudar. Este é o primeiro ponto. O segundo é que a chanceler é vista -mesmo pelas pessoas que não gostam dela – como alguém que não se tem saído mal e que merece confiança. Este sentimento que ela criou faz as pessoas sentirem-se bem e ela incarna esse sentimento.

Euronews:
Mas não pensa que a campanha da CDU sobre a Europa e a crise europeia deixou espaço para a “Alternativa para a Alemanha”, o partido anti-europeu que ganha alguma existência?

Jan Techau:
Sim, a chanceler abriu o flanco e criou vulnerabilidades sobre a política europeia. Por um lado, porque quando se pensa de uma forma clássica na economia liberal, a maior parte do que foi acordado para ultrapassar a crise e aquilo que foi maioritariamente aprovado na Alemanha é o inferno. Isso é o que os economistas liberais clássicos não gostam e não aprovam. Este é um dos seus pontos fracos, o outro é que, ela própria, durante a batalha contra a crise, foi afirmando que queria uma maior integração económica e agora diz que não quer nem a união política nem a integração política, que supostamente deveria seguir. Agora ela criou uma nova clivagem entre o que é economicamente necessário, mas politicamente não praticável. Isto é um ponto de fragilidade para a Europa e, a longo prazo, também para o partido de Merkel.

Euronews:
Angela Merkel ganhou a eleição praticamente sozinha, mas não pode governar só. Precisa de uma coligação e o mais provável é uma grande coligação CDU/SPD. Mas em que condições vão os dois partidos iniciar as negociações?

Jan Techau:
É psicologicamente muito interessante que isto aconteça neste momento. A CDU está numa posição de força, mas na verdade está a suplicar apoio porque precisa de mais alguém para constituir uma maioria. O SPD vai tentar negociar o melhor possível. O SPD tem um ótimo instrumento no Bundesrat, que está solidamente nas mãos dos sociais democratas e através do qual pode complicar a vida da chanceler. Mas provavelmente o SPD não vai ter capacidade de resistência e aceita a grande coligação”.

Euronews:
Muitos europeus, especialmente no sul da Europa esperam que nesta coligação o SPD consiga levar a Alemanha a posições mais flexíveis com respeito à crise. Que peça menos programas de austeridade. Pensa que vão ver concretizadas as esperanças que têm?

Jan Techau:
Penso que poderão alcançar qualquer coisa mas, em princípio, a posição alemã não vai mudar. Não nos podemos esquecer que a chanceler não está sozinha nas suas posições. Salvo algumas exceções esta posição é comum em toda a Alemanha. O SPD não tem alternativas revolucionárias na bagagem e a chanceler não está sozinha nas suas posições sobre a Europa. Ela tem aliados poderosos na União, como os holandeses e os austríacos, a maioria dos escandinavos e também os polacos. Isto nunca foi apenas o espetáculo Merkel: a questão da austeridade e etc. sempre teve consenso no norte da Europa. O princípio de “Nós damo-vos garantias, mas em troca vocês têm que fazer reformas”. Isto não vai mudar.

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