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O medo crescente dos judeus franceses e a fuga ao antissemitismo

O medo crescente dos judeus franceses e a fuga ao antissemitismo
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A comunidade judaica de França ainda está de luto pelo ataque a supermercado ‘kosher’ de Paris, a 9 de janeiro, em que quatro pessoas foram mortas por um terrorista radical islâmico. Foi o mais recente ataque de que foram alvo os judeus franceses, num rol que tem vindo a engrossar já no decurso deste milénio. A ideia de que o antissemitismo está a crescer na Europa e em particular em França está a agravar também o medo entre a comunidade hebraica francesa e fazer muitos procurar refúgio em Israel, adotando a chamada Aliá, a “elevação espiritual” representada pela imigração judaica nos territórios de Israel.

Na edição desta semana do magazine Repórter, fomos até Paris tentar perceber o estado de espírito da comunidade judaica na capital francesa. Na rua do supermercado assaltado há duas semanas, visitamos uma outra loja judaica, situada a poucos metros. Uma cliente disse-nos estar “em curso um movimento” que a leva a pensar que “o antissemitismo está a crescer”. “Desde o sucedido a Ilan Halimi que fiquei traumatizada”, garantiu-nos, recordando o caso do jovem judeu francês de origem marroquina, sequestrado há exatamente oito anos por um grupo apelidado “Gangue dos Bárbaros”, que o torturou durante três semanas até o matar.

Este caso de 2006 assim como outros que tem vindo a ocorrer com preocupante regularidade contra judeus noutras cidades como Lyon, Toulouse, Sarcelles ou Marselha agravam os receios da comunidade e levam cada vez mais pessoas a procurar a delegação de Paris da Agência Judaica para Israel em busca de informações sobre a burocracia a ultrapassar para poderem emigrar rumo a Israel. “Existe um ódio aos judeus que está a tornar-se público. A expressão desse ódio agravou-se e está a criar desconforto e mal-estar”, garantiu-nos Daniel Benhaim, o diretor da agência judaica parisiense.

Consulte aqui a página em português da Agência Judaica para Israel

Conhecemos, entretanto, Olivia, uma mãe e judia francesaresidente em Provence, que já ponderou com a família deixar a França, mas recuou. “Seria fácil se bastasse dizer: ‘Ok, está decidido, vamos todos fazer a Aliá e partir para Israel’. Quando voltasse à rotina diária iria perceber, porém, que não é assim tão simples. Não é assim que se resolve o problema e, acima de tudo, eu sou francesa”, sublinha Olivia.

Benjamin Netanyahu visitou recentemente Paris para se deslocar ao bairro Porte de Vincennes. O primeiro-ministro israelita visitou a rua onde se situa o supermercado atacado a 9 de janeiro por Amedy Coulibaly, confesso agente solitário fiel ao grupo extremista Estado Islâmico (ISIL, na popular sigla inglesa). Netanyahu aproveitou para reiterar o convite à comunidade judaica para aderirem à Aliá.

O presidente do Conselho Representativo das Instituições Judaicas em França (CRIF, na sigla original) percebe porque “muitos judeus queiram partir”. “Não é agradável viver-se sob constante ameaça e com seguranças armados de metralhadoras para nos proteger”, explica-nos Roger Cukierman.

Na União Judaica Francesa pela Paz (UJFP, na sigla original), encontrámos críticas aos políticos israelitas. Em especial, contra os de extrema-direita. “Se há um país onde os judeus não estão em segurança é em Israel e assim será enquanto for negada a existência e continuarem a ser martirizados os palestinianos. Ninguém pode dizer que estamos à beira de uma nova Noite dos Cristais”, garantiu-nos Pierre Stambul.

O responsável da UJFP refuta qualquer perigo de reedição dos atos de violência perpetrados em novembro de 1938 em vários locais da Alemanha e da Áustria, já sob domínio nazi, que ficaram conhecidos como Noite dos Cristais e nos quais foram mortos mais de 90 judeus. Mais de 25 mil foram levados para campos de concentração, enquanto 7500 lojas e mais de 260 sinagogas foram destruídas.

Elie Buzyn é um sobrevivente do “campo da morte” de Auschwitz, no sul da Polónia, onde ainda costuma voltar como guia de grupos a quem explica na primeira pessoa os horrores ali vividos. Radicado em França, este judeu diz que a “grande maioria da população francesa não é antissemita”. Buzy alega que o “atual antissemitismo tem origem em pequenos grupos muito bem organizados e estruturados” e avisa: “Se não encontrarmos uma solução para os pararmos, estes grupos vão crescer e propagar-se.”

A filha de Elie Buzyn, que pediu para não ser identificada, esteve na recente Marcha pela Solidariedade, de Paris, organizada após os atentados de 7 e 9 de janeiro, respetivamente, contra um jornal satírico e o supermercado judaico. Ela ficou emocionada pela adesão e pela mensagem de união passada pelos franceses. De todas as origens e credos. “Para mim, não só estes atentados falharam no ataque à liberdade de expressão como provocaram esta enorme revolta internacional pela morte dos cartoonistas e jornalistas do Charlie Hebdo”, sublinhou a filha de Elie Buzyn.

O antissemitismo existe. Se está a crescer é difícil de dizer. A efervescência social e religiosa é real e tem estado espelhada nas notícias a quase toda as horas. Boa parte da comunidade judaica em França continua a tentar perceber como podem continuar a ser em simultâneo franceses e judeus. Só no ano passado, sete mil emigraram: um recorde que dobrou os números de emigrantes judeus em França de 2013.

Também a França está ainda a tentar perceber como foi possível que as diferenças inerentes à “igualdade” da divisa nacional tivessem permitido tamanho horror como o que foi vivido há cerca de duas semanas e que deixou feridas abertas na sociedade gaulesa, mas também um pouco por todo o Mundo.

Não deixe de assistir ao vídeo desta reportagem conduzida por Valérie Zabriskie.