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Kim Jong-un: "Somos uma potência nuclear"

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Kim Jong-un: "Somos uma potência nuclear"

Kim Jong-un durante o discurso anual à nação
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KCNA / via REUTERS
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A Coreia do Norte completou em 2017 o programa nuclear, uma realidade que os Estados Unidos devem reconhecer, disse esta segunda-feira o líder norte-coreano Kim Jong-un, no discurso anual à nação.

A Coreia do Norte é, a partir de agora, uma potência nuclear, capaz de alcançar todo o território dos Estados Unidos, frisou Kim Jong-un:

"Os Estados Unidos estão ao alcance das nossas armas nucleares e o botão nuclear está sempre na minha secretária. Não se trata de uma chantagem, mas da realidade. Este ano, devemos concentrar-nos na produção em massa de ogivas nucleares e mísseis balísticos para posicionamento operacional."

Uma presidência "destabilizadora e imprevisível"

O Presidente Donald Trump criou uma atmosfera "incrivelmente perigosa" e os Estados Unidos "nunca estiveram tão próximos" de uma guerra nuclear com a Coreia do Norte, alertou, no domingo, o almirante Mike Mullen, chefe das Forças Armadas durante os mnandatos do republicano George W. Bush e do democrata Barack Obama.

A presidência Trump "é incrivelmente destabilizadora e certamente imprevisível", afirmou Mullen.

O papel do lobby americano do armamento na crise dos mísseis nucleares norte-coreanos

Em outubro de 1994, o governo de Bill Clinton chegou a um acordo histórico com a Coreia do Norte, o chamado "Agreed Framework", no qual Pyongyang aceitava desativar o seu reator de plutónio no espaço de um mês, sob acompanhamento da Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA), e desmontá-lo assim que pudesse ser substituído por reatores a água leve (Light Water Reactor – LWR). Os Estados Unidos prometiam fornecer reatores e combustível, até que os reatores de água leve fossem construídos. Os EUA também se comprometiam a encetar medidas que visavam pôr fim à inimizade entre os dois países e normalizar as relações bilaterais.

Os bastidores da trama que "matou" o acordo, foram apresentados num artigo do jornalista de investigação e analista político norte-americano Gareth Porter, especialista em política de segurança nacional dos Estados Unidos, publicado em 28 de dezembro de 2017 no site da organização sem fins lucrativos Truthout.

A administração Clinton tinha negociado o "Agreed Framework", quando os republicanos ganharam o controlo das duas câmaras legislativas do Congresso, nas eleições de 1994. Esta mudança política abriu a porta ao poderoso lobby da indústria do armamento, apostado em lançar um sistema nacional de defesa de mísseis e alcançar um mandato do Congresso para o rápido desenvolvimento e implantação desse sistema.

A estratégia do lobby dos mísseis de defesa era insistir numa suposta ameaça nuclear iminente vinda dos "estados maléficos" - Iraque, Irão e Coreia do Norte, com o fim de criar um sentimento de urgência.

Quando um relatório da CIA assinalou em 1995 que nenhum dos três "estados maléficos" teria mísseis balísticos capazes de ameaçar os Estados Unidos por pelo menos 15 anos, o lobby dos mísseis de defesa conseguiu que o Congresso aprovasse legislação que criou uma "comissão nacional" sobre a ameaça de mísseis balísticos que viria a contradizer a avaliação da CIA. Liderada pelo republicano Donald Rumsfeld, a comissão afirmou num relatório final apresentado em julho de 1998 que o Iraque e a Coreia do Norte poderiam adquirir mísseis balísticos de longo alcance capazes de atingir os Estados Unidos em apenas cinco anos. Sob pressão política, a CIA adotou em grande parte os argumentos da comissão.

Foi a Coreia do Norte que deu o primeiro passo no sentido da normalização das relações bilaterais. Pyongyang propôs em 1998 um acordo que visava pôr fim ao desenvolvimento de novos mísseis, no quadro de um acordo de paz mais amplo com Washington. Os Estados Unidos não responderam, porém, à proposta, e a Coreia do Norte lançou, em 31 de agosto de 1998, o projeto de um míssil balístico de três estágios, o Taepodong-1, que o lobby norte-americano dos mísseis e os meios de comunicação social denunciaram como um passo importante de Pyongyang em direção a um míssil balístico com um alcance extremamente elevado, capaz de carregar armas nucleares (ICBM).

O então líder da Coreia do Norte, Kim Jong-il, usou o desenvolvimento de mísseis como um incentivo para que a admninistração Clinton negociasse um acordo que incluísse medidas concretas para a normalização das relações. O vice-marechal Jo Myong Rok foi enviado a Washington com a missão de apresentar o esboço de uma nova proposta norte-coreana. Pyongyang dispunha-se a desistir do projeto de desenvolvimento de mísseis balísticos intercontinentais e do armamento nuclear. Em outubro de 2000, a secretária de Estado Madeleine Albright deslocou-se a Pyongyang e os dois países chegaram a um acordo final que teria terminado o programa de desenvolvimento de mísseis norte-coreanos, assim como o seu programa de armas nucleares e conduzido à normalização das relações bilaterais. Clinton não foi, porém, à Coreia do Norte assinar o acordo nos últimos meses de sua presidência, e a eleição de George W. Bush em novembro de 2000 foi decisiva para a vitória do lobby da defesa antimíssil.

Na administração Bush estavam dois apologistas desta opção: Donald Rumsfeld e Dick Cheney, cuja esposa, Lynn Cheney, ganhara mais de meio milhão de dólares como membro do conselho de administração da Lockheed-Martin de 1994 a 2001.

Cheney escolheu Robert Joseph, patidário da defesa antimíssil e adversário de um acordo com a Coreia do Norte, como membro-chave da equipa de transição que liderava. Cheney colocou-o como diretor sénior de pessoal do Conselho de Segurança Nacional (NSC), com responsabilidades na área da política de proliferação dos mísseis de defesa e "armas de destruição maciça". No Departamento de Estado, Colin Powell constituia o principal obstáculo à destruição do acordo, mas Cheney recorreu a uma estratégia burocrática para levar acabo o seu objetivo. A equipa do NSC iniciou uma "revisão do posicionamento nuclear", que foi realizada sem a participação dos aliados de Powell. O documento final incluiu a Coreia do Norte numa nova lista de países que poderiam ser alvos de armas nucleares dos Estados Unidos.

No Discurso sobre o Estado da União de janeiro de 2002, Bush apresentou ao Congresso a Coreia do Norte como parte de um "eixo do mal" que incluia ainda o Irão e o Iraque. Foi a luz verde aguardada pelos partidários do investimento nos mísseis de defesa.