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Exclusivo Euronews: Sergey Lavrov, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros

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Exclusivo Euronews: Sergey Lavrov, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros

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EURONEWS: Obrigado por falar com a Euronews. A minha primeira questão tem a ver com as relações entre a Rússia e os Estados Unidos. Há um ano que Donald Trump é presidente. No entanto, as relações entre os dois paises estão muito tensas. A Rússia esperava outra coisa da presidência Trump?

SERGEYLAVROV: Não digo que estivessemos condicionados por qualquer tipo de expectativa. Há muita especulação sobre o facto de a Rússia ter apostado em Trump e ter acabado por perder.
É verdade que foram feitas declarações de apoio ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Foram feitas por alguns politicos, parlamentares e figuras públicas. Mas nem o presidente nem o ministro dos Negócios Estrangeiros, nem qualquer dos responsáveis pela política externa fizeram qualquer tipo de… “aposta”…nesse sentido. Foi dito claramente que a Federação Russa está disposta a trabalhar com o presidente do Governo de qualquer país e em qualquer situação. Porque essa pessoa foi escolhida pelos cidadãos desse país. A verdade é que não podemos ler o futuro e não seria possível interferir – e não interferimos. Mas ainda se fala de uma forma qualquer de intervenção da Rússia antes das eleições nos Estados Unidos. Factos… ainda não vimos nenhum. Espero que estas tendências, que, aliás, dominam o ambiente em Washington, acabem por dissipar-se. O presidente Trump, ainda que tenha a necessidade de fazer compromissos e que deva ter em conta o Congresso, continua a seguir uma postura autónoma. E confirmou, mais do que uma vez e de forma sincera, a intenção de cumprir com uma promessa de campanha dele: desenvolver relações bilaterais normalizadas, assentes no respeito mútuo e que beneficiem os Estados Unidos e Rússia.

EURONEWS: Mas ninguém obrigou o presidente Trump a adotar sanções contra a Rússia e a dar armas à Ucrânia.

SERGEYLAVROV: Ele tem de assumir compromissos. No Congresso, quando a lei é adotada com um certo número de votos, o resultado é mais do que suficiente para ultrapassar um possível veto presidencial. Depois, temos a questão da política interna. O presidente deve avaliar as relações com o Congresso em vários aspetos É assim, a vida. Ainda que seja realmente uma pena que, em um ano de presidência de Trump, as relações com a Rússia não tenham melhorado. Isto, quando comparadas com o período da última Administração Democrata. Nem melhoraram e, em alguns casos, pioraram. Falo, por exemplo, nos ataques contra a nossa propriedade diplomática, algo que contradiz a Convenção de Viena, mas também a Constituição dos Estados Unidos e os princípios da sociedade norte-americana, onde a propriedade privada é sagrada. A situação é grave, pelo que vamos dar início a ações legais nos Estados Unidos.

EURONEWS: Apostou em relações pragmáticas. Mas resta alguma esperança para esse pragmatismo?

SERGEYLAVROV: O pragmatismo tem existido, já que a nossa cooperação no espaço, por exemplo, não parou, tal como a cooperação no caso da Siria. Ainda que, nesta situação, as coisas sejam mais difíceis, pois existem interesses diferentes. Mas a zona de apaziguamento, a zona livre de de violência, criada com a participação da Rússia, dos Estados Unidos e da Jordânia, está a funcionar bem. Claro que é preciso que sejam cumpridos os acordos conseguidos, como a retirada de todas as forças não-Sírias da região.

EURONEWS: Na Síria, existem vários interesses, como os da NATO. Temos os Estados Unidos e a Turquia e a operação Afrin, onde houve grandes divergências. E os turcos dizem que não vão ficar-se por Afrin. A Rússia deveria pensar nisso.

SERGEYLAVROV:Desde que começaram com o envolvimento deles na Síria, os americanos apostaram nos curdos e ignoraram a posição da Turquia. É uma realidade. E não é um segredo para ninguém que a Turquia considera algumas milícias na Síria como uma filial do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, o PKK. Tanto a Turquia como outros países têm essas milícias numa lista de organizações terroristas… e isso é bem conhecido. Os turcos disseram, várias vezes, que tinham a intenção de impedir que os curdos assumissem o controlo da fronteira entre a Síria e a Turquia. Mas os Estados Unidos armaram as forças curdas e ignoraram a posição turca. Jogar com o problema curdo, sem entender completamente quais são as intenções dos curdos a nível geopolítico, tem-se mostrado uma estratégia muito perigosa na região. E que pode trazer muitos problemas aos países onde vivem comunidades curdas. Temos de contrar a forma de assegurar os direitos dos curdos nas regiões onde se encontram, em vez de tentar agitar toda uma região, como tem sido feito pelos nossos parceiros Ocidentais.

EURONEWS: Sob a liderança do presidente Trump, a influência dos Estados Unidos no mundo parece diminuir. Concorda com essa visão ou vê os Estados Unidos tão envolvidos em política internacional como nas últimas décadas?

SERGEYLAVROV:Não me parece que a presença dos Estados Unidos no mundo tenha diminuido. O presidente Trump disse que é preciso tornar a América Grande Outra Vez. A América primeiro. Mas quem entende estas palavras de ordem como um convite ao isolacionismo e a uma renúncia aos projetos externos, engana-se. A presença internacional não diminuiu e não está apenas a expandir-se. Está a expandir-se a nível militar. É o que acontece na Síria, onde ninguém lhes pediu que aparecessem. Acontece no Afeganistão, onde lhes foi pedida ajuda. Mas onde a presença deles, que já dura há quinze ou dezasseis anos, não trouxe nada de bom. O ameaça terrorista não desapareceu. A produção de droga aumentou dez vezes.É algo que nos preocupa e que preocupa os nossos parceiros na Ásia Central. E que deveria preocupar a Europa, porque é para a Europa que vão as drogas. E porque os terroristas chegam a todos os lugares no mundo sem se preocuparem com fronteiras. Mas houve também problemas no Iraque, onde, depois de declararem uma retirada unilateral, durante a Administração Obama, acabaram por prolongar a presença no território. E a presença deles tem vindo a crescer. E nem falo nos exercícios militares dos Estados Unidos no sudoeste asiático, sob o pretexto da ameaça nuclear norte-coreana. Mas que são feitos numa escala superior ao necessário para conter a ameaça que os Estados Unidos dizem existir na Coreia do Norte. E são exercícios feitos com uma intenção muito clara: a de se imporem no mar do sul da China, algo que se relaciona com as tensões territoriais entre a China e outros países da ASEAN. E claro, voltando aos grandes temas políticos globais, em relação aos quais a presença dos Estados Unidos levanta muitas questoes, é preciso pensar no chamado sistema global de defesa antimísseis, que já está a ser criado na Europa, na Roménia e na Polónia, na Ásia, na Coreia do Sul… e agora temos o Japão, interessado no projeto. Por isso, o sistema de defesa antimísseis coloca problemas não só à Rússia, mas também à China. Como pode ver, a presença dos Estados Unidos tem vindo a aumentar e não de uma forma inofensiva.

EURONEWS: No ano passado, vários países Europeus e mesmo a União Europeia, seguida dos Estados Unidos, acusaram a Rússia de propaganda e de apoio a partidos populistas e de extrema-direita. Pode uma Europa instável beneficiar a Rússia estrategicamente?

SERGEYLAVROV: Claro que não pode. Já dissemos isso antes, assim como já o disse também o presidente. Queremos que estas confusões que afetam a União Europeia terminem. Queremos uma Europa forte e estável. É o nosso principal parceiro económico e comercial. Apesar dos problemas dos últimos três anos, a Europa permanece um parceiro importante e um investidor importante. Queremos uma União Europeia que se desenvolva com estabilidade. E a Europa em crescimento precisa de recursos energéticos. E essas necessidades podem ser satisfeitas com projetos, sobre os quais discutimos com os nosso parceiros europeus, projetos como o Nord Stream 2 e o Turkish Stream. Já agora, quero recordar que a Gazprom aumentou os recursos destinados à Europa, num volume sem precedentes. Por isso, toda essa conversa sobre a necessidade de serem independentes do gás russo é absolutamente política, e é uma conversa cujo objetivo é a destruição da nossa parceria económica natural.

EURONEWS: Quais são os interesses da Rússia nos Balcãs e como vê esta região do continente europeu?

SERGEYLAVROV: Os Balcãs são, para nós, um parceiro histórico. Fizemos muito pela segurança e a soberania de vários países balcânicos durante as guerras entre Turquia e Rússia, durante a Primeira Guerra Mundial e durante a Segunda Guerra Mundial. Partilhamos raízes históricas, espirituais e religiosas, já que a maioria dos habitantes dos balcãs é ortodoxa. Essas raízes são o motivo das boas relações entre a Federação Russa e os países na Península dos Balcãs. Nos últimos anos, desenvolvemos boas relações com a Sérvia e com a Eslovénia. E diria que o diálogo com a Macedónia se desenolve sem problemas. Tivemos alguma distância com a Croácia, mas voltámos a aproximarmo-nos. O presidente croata visitou a Rússia e eu encontrei-me com o meu homólogo croata. Claro que nos preocupamos com a situação no Montenegro. Há quem use o país como uma arma de arremesso nese jogo da russofobia, nesta campanha anti-Russa….Obrigaram-nos mesmo a a integrar, como membro permanente, a estrutura da NATO. Ainda assim, temos muito boas relações com o Montenegro.Simplesmente não entendemos porque foram envolver-se nesta campanha contra a Rússia. Mas é algo que fica na consciência deles. Por outro lado, se pensarmos bem, não existe quase nenhum país dos Balcãs a quem os vários embaixadores dos Estados Unidos não tenham pedido, com ou sem a ajuda de embaixadores europeus, para deixarem de ter boas relações com a Rússia. Na Sérvia, fazem-no quase em público. Nós, nos Balcãs, apenas procuramos projetos que possam beneficiar ambas partes. Nunca pedimos aos nossos parceiros, seja nos Balcãs, seja onde for, para se afastarem de este ou daquele país.
É essa a diferença fundamental entre a nossa política internacional e a política internacional do Ocidente.
Quando dizem que a Rússia interfere em processos internos sem qualquer prova disso… bem, penso em meios de comunicação independentes e objetivos – e coloco a Euronews nessa categoria – e penso que deveriam mostrar que esse tipo de iniciativas são levadas a cabo, de forma clara, pelo Ocidente nos Balcãs.
Pedem aos países da região que deixem de ser amigos da Rússia. Que tenham de escolher entre a Rússia ou os Estados Unidos, é algo da Idade Média.

EURONEWS: O parlamento ucraniano adotou a lei de reintegração de Donbas. E declarou a Rússia como um Estado agressor. O seu ministério chamou à iniciativa “uma preparação para a guerra.” Os Acordos de Minsk ainda estão em vigor para a Rússia? E que solução encontra para este conflito?

SERGEYLAVROV: Os acordos de Minsk continuam válidos do ponto de vista do Direito Internacional. Porque foram aprovados em resoluções das Nações Unidas. Algo que deve ser seguido. E não existe nenhuma lei ucraniana que possa sobrepor-se ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Todos os nossos parceiros, tanto na Europa Ocidental como na Europa Oriental e também os Estados Unidos, concordam com a necessidade de implementar os Acordos de Minsk. Esta lei de integração, que é chamada assim, mas que nem refere os Acordos, deveria ser chamada a lei da desintegração, porque ataca toda a lógica dos Acordos de Minsk, que exigem diálogo entre as autoridades de Kiev e esta porção do Estado ucraniano . Parece-nos uma lei muito estranha e vamos falar com os nossos colegas e asistentes dos líderes do Quarteto da Normandia e com os colegas do grupo de contacto. Estou convencido de que não devemos mostrar fraquezas frente aos radicais que decidiram enterrar os Acordos de Minsk.

EURONEWS: Existe alguma possibilidade de que as forças de paz das Nações Unidas sejam destacadas para o leste da ucrânia antes de março?

SERGEYLAVROV: Depende de quem não deu qualquer opinião relativamente ao projeto de resolução apresentado pela Rússia. A nossa lógica é simples. Os Acordos de Minsk estão a ser implementados com uma monitorização. Há preocupações relativamente à segurança dos observadores. E durante algum tempo, o presidente russo ofereceu armas de defesa para que os observadores se sentissem mais seguros. Mas a OSCE disse que isso seria impossível, porque não os observadores tinham experiência em missões armadas.Em setembro do ano passado, apresentámos um projeto de resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas, muito simples, e diretamente ligado aos acordos de Minsk: onde se encontrem observadores da OSCE, haverá membros das forças de paz Nações Unidas para protegê-los. Os nossos parceiros concordaram. Mas há mais: Sugeriram que não continuassemos com a tarefa de aplicar os Acordos de Minsk. E sugeriram uma substituição de tudo o que estava escrito no documento por outra ideia:…. a criação de uma poderosa estrutura, sob a proteção das Nações Unidas. Houve quem referisse a necessidade de cerca de 40 mil membros das forças de paz, armados, não apenas com pequenas armas, mas com artilharia pesada, com o mais recente equipamento militar, para controlar os territórios das Repúblicas de Donetsk e Lugansk. E de criar uma espécie de administração das Nações Unidas, com umas cinco mil pessoas. Para resolver todos os problemas – das eleições… à atribuição de um estuto especial ao território. Isto, sem necessidade de diálogo direto com Kiev, Donetsk ou Lugansk, como exigido pela resolução do Conselho de Segurança da ONU, que aprovou os Acordos de Minsk. Uma ideia que passa por uma administração internacional com poder decisório. Ideias que continuam a circular.

EURONEWS: Mas a Rússia não concorda com a ideia?

SERGEYLAVROV: A Rússia não pode apoiar ideias que contradizem a decisão do organismo das Nações Unidas responsável pela paz e pela segurança. A resolução que aprova os Acordos de Minsk deve ser, obrigatoriamente, acatada.

EURONEWS: A Rússia conseguiu um acordo em parceria com a Turquia e a Síria. Para a Rússia, a Turquia e o Irão poderiam funcionar como aliados para uma política em comum para o Médio Oriente?

SERGEYLAVROV: Não pensamos num futuro tão distante. Primeiro, queremos acabar com o que começámos na Síria, quando a Administração Obama demonstrou total incompetência, no que aos acordos conseguidos entre Moscovo e Washington para um cessar-fogo diz respeito. Por isso, não tivemos mais remédio do que trabalhar com quem consegue cumprir com a palavra dada. Apesar de possíveis divergências. E com quem está comprometido com a procura de posições comuns, com a procura de um acordo que possa preservar a Síria e a integridade territorial do país, do Estado. Refiro-me aos nossos parceiros iranianos que, tal como a Rússia, foram chamados à Siria por um Governo legítimo, para ajudar na luta contra o terrorismo. A Turquia também demonstrou boa vontade. No final de 2016, quando teve lugar a primeira cimeira de paz, foi lançado o processo de Astana, que resultou num declínio da violência.O mais importante evento relacionado com a Síria foi o Congresso de Sochi para o Diálogo Nacional. Foram aprovados 12 princípios para a estrutura de um futuro Estado. É verdade que nem todos os grupos opositores estavam adequadamente representados em Sochi, mas foi um encontro onde esteve presente uma representação variada dos componentes da sociedade síria, algo sem precedentes.