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Drama dos refugiados venezuelanos agrava-se no Brasil

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Drama dos refugiados venezuelanos agrava-se no Brasil

Acolhimento brasileiro incapaz de responder à procura de ajuda venezuelana
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Fugir da Venezuela para o Brasil tem em Roraima um dos pontos de passagem privilegiados para quem procura melhores condições de vida do que as existentes no país governado por Nicolás Maduro.

Só este ano, mais de 24 mil venezuelanos entraram no Brasil pela fronteira de Pacaraima. Estima-se que por dia mais de 800 venezuelanos entrem no Brasil por Roraima e a larga maioria com destino ao posto de controlo de Pacaraima onde pretendem pedir asilo.

Kritce Montero é um deles. Com 33 anos, viaja com o filho Hector, um bebé de seis meses, e a filha de sete anos. À Associated Press contou ter perdido mais de 25 quilos durante o ano passado em que passou muitos dias apenas com uma refeição.

Montero relatou ter passado 18 horas a viajar de autocarro com os filhos desde Maturin, no nordeste da Venezuela, tendo como destino Boa Vista, a capital do estado de Roraima, conhecida entre venezuelanos como uma cidade onde se oferecem três refeições por dia.

"Entre o desespero, a angústia de não saber o que vai acontecer e a necessidade, porque vejo o que os meus filhos precisam, eu decidi vir", afirmou Kritce Montero à AP, assumindo-se entretanto "desesperada" porque o dinheiro acabou: "já nem conseguimos comprar comida."

Após passar uma noite a dormir no chão em Pacaraima e já com o passaporte controlado, Kritce Montero entrou no Brasil, fez mais 200 quilómetros de autocarro e chegou a Boa Vista, onde se estima que 10% dos cerca de 12 mil habitantes sejam já imigrantes venezuelanos.

O futuro é incerto para Kritce Montero e os dois filhos. Tal como o de Militza DonQuis.

Já há dois meses a viver com o marido num acampamento improvisado à beira da estrada principal de roraima, ela deixou tudo para trás, inclusive os filhos. Já não têm dinheiro nem para comer.

"É horrível! É a primeira vez que saio da Venezuela e deixo os meus filhos. É a primeira vez que estou longe deles, mas pronto, aqui estamos na luta", afirmou, de lágrimas nos olhos, esta venezuelana em busca de uma vida melhor no Brasil.

Casos de sarampo agravam-se

À pobreza também caraterística desta região brasileira soma-se agora a propagação de doenças.

A Secretaria Estadual de Saúde de Roraima atualizou segunda-feira o balanço local de casos de sarampo. São já 28 os casos confirmados e mais 71 em investigação.

A morte de duas crianças, a última um bebé de quatro meses na última quinta-feira, está a ser relacionada a este surto de sarampo com origem suspeita na Venezuela.

O primeiro diagnóstico de sarampo em Roraima foi a de uma bebé venezuelana de um ano, que pernoitava com os pais numa praça do centro de Boa Vista. A Saúde Estadual decidiu antecipar de agosto para o passado dia 10 de março a campanha de vacinação prevista contra o sarampo.

O recente surto coloca o Brasil como o segundo país da América com maior número de casos de sarampo em 2018. O primeiro na lista da Organização Pan-Americana da Saúde é... a Venezuela, com quase 900 casos no total, dis quais 159 só este ano.

FMI e a pressão sobre Caracas

Com a pressão desta migração venezuelana a aumentar no país, o ministro brasileiro das Finanças revelou estar a ser ponderado pelos "vizinhos" da Venezuela o pedido ao Fundo Monetário Internacional para a abertura de um fundo de emergência para ajudar os refugiados venezuelanos.

Henrique Meireles abordou a crise venezuelana à margem de uma reuni~´ao do G-20 em Buenos Aires, Argentina, referindo também as sanções internacionais impostas ao governo de Nicolás Maduro.

O ministro brasileiro explicou que no caso do Brasil, a principal sanção é a exigência a Caracas do pagamento da dívida venezuelana, que ascende aos 1,3 mil milhões de dólares.

Vai começar, entretanto, em abril a distribuição por outros estados brasileiros dos milhares de requerentes de asilo venezuelanos concentrados em Roraima.

Parte deles irá ser deslocada para abrigos São Paulo e Manaus, informou a Casa Civil do governo estadual, com o objetivo de os tentar integrar em regiões com melhores estruturas.

"São homens e mulheres solteiros (que ir´ão para São Paulo)", detalhou o secretário municipal de Assistência Social de São Paulo.

Filipe Sabará explicou à Agência Brasil ter sido preferido este perfil para testar a integração de venezuelanos antes de se avançar com famílias e crianças. Isto depois do fracasso no acolhimento de refugiados hatianos entre 2014 e 2015.