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Os segredos e as revelações da 'Lava Jato' em livro

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Os segredos e as revelações da 'Lava Jato' em livro

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No seu livro 'Lava Jato' (editado em Portugal pela chancela Desassossego, do Grupo Saída de Emergência) explica que a magnitude da operação e das descobertas foi algo inesperado para as próprias autoridades. O processo foi uma surpresa para o povo brasileiro?

A extensão, a profundidade, descobrir que estava espalhada de uma maneira tão intensa pela estrutura do poder do governo federal, mas também de outras instâncias de governos estaduais, isso foi, de facto, uma surpresa para todo o mundo. É uma das razões pelas quais esse caso fascinou tanto o Brasil. Nunca tinha visto isto na minha carreira de jornalista e foi por isso que escrevi o livro. Estamos falando da operação contra a corrupção mais bem sucedida da história do Brasil e uma das do mundo. É comparável à operação 'Mãos Limpas' em Itália [nos anos 90].

Quais as consequências que a 'Lava Jato' já teve sobre a sociedade?

O que ficou claro na Lava Jato é que é possível combater o crime, a corrupção, de uma forma intensa e com as armas que nós temos. É preciso melhorar o sistema e a 'Lava Jato' levantou várias questões que são importantes para a melhoria da democracia brasileira. Estamos num processo de amadurecimento da democracia e acho que vamos sair mais fortes dessa crise.

A operação afeta grandes empresas, mas, sobretudo, políticos dos mais diferentes quadrantes. O caso pode gerar uma crise de confiança no sistema democrático brasileiro e abrir espaço para o aparecimento de figuras apoiadas no populismo?

Não sei, acho que vamos ter um teste importante na próxima eleição de quais serão as consequências da 'Lava Jato' e de qual o caminho que o brasileiro vai escolher depois da revelação de todos esses casos de corrupção. A 'Lava Jato' levanta muitas questões sobre o sistema político brasileiro, que estava contaminado. Mas eu sou um otimista: da 'Lava Jato' sairá um país melhor no futuro.

A investigação abrange 14 partidos, mas o Partido dos Trabalhadores (PT) tem sido o mais visado. Porquê?

Temos políticos de 14 partidos a serem investigados. Os líderes dos principais partidos brasileiros estão todos sob investigação, não é só o PT. É o PT, o PSDB, o PMDB, etc. Atinge todos e é óbvio que tendo esse impacto ela iria provocar uma divisão e ser controversa. Em países onde vigora o império da lei é assim que funciona: todo o suspeito é investigado e toda a pessoa considerada culpada pelo sistema judicial tem de ser punida. É assim que funciona numa sociedade democrática e num estado de direito.

Qual a imagem internacional que vai deixar o Brasil para o futuro depois do final deste processo?

Espero que a imagem que o Brasil passe para o mundo é a de um país que está a tentar corrigir os seus problemas, a tentar amadurecer como democracia. É isso que espero que passe e é isso que está a acontecer. Há um esforço da sociedade brasileira para atacar um problema que dificulta o progresso. Um dos maiores problemas da América Latina é a corrupção e é preciso enfrentá-lo se quisermos alcançar níveis de desenvolvimento maiores. Pela primeira vez no Brasil, a corrupção aparece como a maior preocupação dos brasileiros.

A prisão do ex-presidente Lula da Silva foi o 'fim da linha' deste processo?

Não, acho que não. As investigações continuam e espero que as investigações avancem para outros partidos, é possível acelerar as investigações. Estamos a viver duas velocidades nas investigações: as da primeira instância andam mais rápido do que as do Supremo Tribunal Federal. A prisão do Lula é um momento triste no Brasil. Ninguém está feliz por ver um ex-presidente, um líder tão popular ser preso. Acho que o caso dele foi bem analisado, por vários tribunais. Mas acho que ele não é o fim da linha.

O PT já disse que esta operação tem fins políticos.

Não vejo um direcionamento político na operação, acho que ela afeta todos. Há distorções no sistema que acabam por levar a diferentes velocidades e isso pode ser discutido, é legítimo, mas não vejo um direcionamento político. O primeiro partido a ser investigado não foi o PT. A investigação começou com pessoas ligadas ao Partido Progressista, que é um partido de Direita. A Lava Jato descobriu e percebeu um esquema que tinha contaminado todo o sistema político brasileiro.