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A luta do Níger contra o terrorismo

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A luta do Níger contra o terrorismo

Militares do Níger em exercícios
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O Níger está a ter um papel cada vez mais importante na luta contra o terrorismo, sobretudo desde que muitos jihadistas deixaram o Médio Oriente e foram para África.

Apoiados por militares ocidentais, as forças armadas do Níger tentam combater os radicais islâmicos nos seus santuários no deserto, mesmo para além das fronteiras do país.

Em outubro do ano passado, 4 soldados norte-americanos morreram depois de terem sofrido uma emboscada junto à fronteira com o Mali... provavelmente, o país da região que mais sofreu com a guerra civil Líbia.

O Comandante das Forças Especiais norte-americanas em África, o Major-General J. Marcus Hiks considera que "todos os parceiros africanos aqui presentes lhe dirão que o colapso da Líbia está relacionado com o aumento da instabilidade na região. O fluxo de armas e de milícias treinadas destabilizou o norte do Mali e continua a alimentar grupos terroristas por todo o Sahel".

Peritos ocidentais acreditam que o Níger pode tornar-se num ponto de união do jihadismo e ligar o Mali aos grupos terroristas na Nigéria, como o Boko Haram, aos dissidentes do Daesh, na Líbia, ou ao Al Shabab, no Corno de África.

Estados Unidos, França, Reino Unido e outros países ocidentais estão a aumentar a presença no Níger e a trabalhar em conjunto com militares de potências regionais como a Nigéria ou o Chad. O objetivo é tentar conter a imigração ilegal e erradicar o terrorismo islâmico. Dois fenómenos ligados entre si e que, segundo os analistas militares, estão a afetar a estabilidade da Europa.

O Coronel Razak Ibrahim, das forças especiais do Níger, lembra que "os grupos extremistas tradicionais utilizam as redes de imigração ilegal porque os imigrantes são pessoas muito vulneráveis, fáceis de recrutar. Os jihadistas aproveitam para se infiltrar e usar os grupos de migrantes para passar entre países".

Com a ajuda financeira dos países europeus, o governo do Níger está a tentar fechar as fronteiras com a Líbia. Caminhos por onde passa o tráfico humano e o terrorismo, como confirma o Ministro da Defesa do país, Kalla Moutari.

"Toda a economia do crime alimenta o terrorismo. Aqueles que levam os imigrantes para a Líbia, muitas vezes regressam com armas e são também os mesmos que transportam droga"

A luta contra o terrorismo depende muito das estruturas locais de polícia. Sam Pineda, do Departamento de Estado Norte-americano diz que é fundamental construir esta confiança para se poder conquistar os corações da população local.

"Quando os serviços de fronteira, por exemplo, detêm indivíduos podem depois levá-los para instituições civis. Podem fazer as investigações e levá-los a julgamento segundo as leis em vigor no país."

Agadez, no centro do Nígertem sido um ponto estratégico para todo o tipo de atividades ilegais desde a queda da Líbia, em 2012.

A unidade de engenharia da Força Aérea dos Estados Unidos está a construir na cidade um aeródromo que deve ficar operacional no início do próximo ano. Será uma base aérea do Níger, que também será usada pelos aviões e drones militares norte-americanos.

Os drones vão usados sobretudo para missões de reconhecimento, mas um acordo entre Washington e Niamey permite que estes aparelhos possam levar armas se o governo do Níger assim o autorizar.

Contudo, uma parte relevante da sociedade civil está contra a presença de militares estrangeiros no país. Acreditam que envia uma mensagem errada para quem vive nas zonas remotas do Níger e pode levar muitos aldeões a tornarem-se jihadistas. Alguns ativistas, como Kaka Touda, temem mesmo que o país se torne numa espécie de Afeganistão, em África.

"Eles fazem operações, têm drones, aviões de combate, têm militares no terreno em missões. Mesmo que a vontade da população não esteja desse lado, enquanto houver forças estrangeiras aqui, o risco mantém-se porque não se criou a montante a confiança necessária na população"

A União Europeia está bastante preocupada, uma vez que o terrorismo e a imigração ilegal podem tornar-se numa combinação letal para a própria estabilidade da Europa. A opinião é do embaixador da União Europeia no Níger, o português Raúl Mateus Paula.

"A segurança da Europa joga-se aqui. É muito importante. A Europa já foi ameaçada pelo terrorismo, pelos atentados, pelo tráfico e pelo tráfico de pessoas."

A região do Sahel tornou-se um lugar onde as relações transatlânticas estão de novo a ser postas à prova. As missões militares são a chave para salvaguardar a Europa do terrorismo e da imigração ilegal, mas as pessoas pedem empregos e oportunidades de uma vida melhor. Cabe agora à União Europeia e aos Estados Unidos tentar compatibilizar Segurança e Desenvolvimento.