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A guerra franco-britânica das vieiras

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A guerra franco-britânica das vieiras

A guerra franco-britânica das vieiras
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Na madrugada de terça-feira, pescadores franceses e britânicos confrontaram-se no canal da mancha pelos direitos de pesca de um precioso molusco: a vieira.

Os cerca de 40 barcos da frota francesa, em número claramente superior aos da frota britânica, mostraram com o aremesso de objetos, insultos, manobras perigosas e colisão de embarcações em pleno mar que não aceitam a presença dos barcos britânicos nesta zona marítima situada perto das águas territoriais francesas, que é rica em vieiras.

No Reino Unido, a investida francesa é considerada um ato de pirataria. Mas nas portos da Normandia, os pescadores franceses dizem que queriam passar a mensagem a bem mas a tensão entre as duas frotas aumentou rápidamente.

"Tal como noutras manifestações, por vezes as coisas dão para o torto. Nós andamos enervados, temos barcos para pagar e famílias para alimentar, por isso decidimos confrontá-los."

Julien Maxim, que esteve involvido no incidente, acredita que a disputa não é somente sobre o apanho da vieira, o objetivo é defender um modo de vida: "o que queremos é ter futuro, encontrar vieiras todos os anos. Queremos ficar em casa ao fim-se-semana, nós só trabalhamos quatro ou cinco dias por semana devido a cotas. Eles vêm aqui por três ou quatro dias de cada vez, vão a casa descarregar o porão e regressam outra vez. É diferente."

A pesca em Port-en-Bessin faz parte da identidade da vila costeira. A vida marinha nestas águas é abundante e as vieiras são a apanha mais emblemática e prestigiada. Mas de acordo com a lei francesa, os pescadores têm direito a apanhar as vieiras apenas entre os meses de outubro e maio sendo também impostas cotas à pesca de forma a garantir a sustentabilidade da actividade.

Os barcos britânicos não estão sujeitos a estas regulamentações.

Dimitri Rogoff, presidente do Comité de Pescas da Normandia, pensa que a situação tem que mudar. "Não é porque as vieiras não são reguladas pela União Europeia que não devemos gerir este recurso, que não é ilimitado. As vieiras são frágeis e sensíveis. É uma espécie que temos mesmo de preservar, porque tem valor quer para a França, quer para o Reino Unido. Por isso, interessa a todos que seja bem gerido. Quanto mais vieiras tivermos, mais dinheiro as pessoas vão ganhar," explica.

De acordo com Dimitri Rogoff, as vieiras são uma importante fonte de rendimento para os pescadores. Mais de 1200 famílias na Normandia dependem da sua pesca.

Por isso, um acordo franco-britânico para a proteção das zonas de pesca comuns é imperativo, caso contrário os pescadores franceses estão determinados a voltar ao mar para outra batalha naval contra a frota britânica.

A população local sente que têm que defender não só as vieiras mas a sua forma de pesca. Os seus barcos são de pequenas dimensões e afirmam que pescam de forma mais tradicional e mais sustentável do que a forma utilizada pelos pescadores britânicos, que descrevem como mais industrializada.