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"A primeira vez que esse termo foi usado foi em 1933 por Hitler"

"A primeira vez que esse termo foi usado foi em 1933 por Hitler"
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A migração tem sido um dos temos mais politicamente tóxicos e divisivos nos últimos cinco anos da Comissão de Jean Claude Juncker. E é do 12º andar do prédio da Comissão, onde um grego tem o papel de administrar o tema. Antes de arrumar as coisas e partir para outros projetos, queríamos ouvir Dimitris Avramopoulos, o Comissário Europeu para a Migração.

Euronews: Lembra-se de, em 2014, na época da sua espécie de 'entrevista de emprego' com o Parlamento Europeu, dizer que a agenda da migração para a política europeia seria um teste crucial para a legitimidade da Europa? Acha que enfrentaram esse desafio?

Dimitris Avramopoulos: "Não estamos onde estávamos há cinco anos, o que prova que cumprimos. Os fluxos caíram, as nossas fronteiras estão mais protegidas. Criamos novos mecanismos e reforçamos as agências existentes, como a Europol e a Frontex. A Frontex, neste momento, não é o que era antes. É muito difícil convencer 28 Estados-Membros, antes de tudo, a cooperar e, em segundo lugar, a confiarem uns nos outros. Até porque este é um dos principais problemas da União Europeia na atualidade."

Euronews: Mencionou a Frontex. O orçamento de 2020 é dar mais de 100 milhões de euros à agência, para colocarem mais autoridades nas fronteiras. É esta uma espécie de fronteira? Se sim, é uma resposta direta aquilo que os governos europeus querem, bem como os eleitores?

Dimitris Avramopoulos: "A Europa nunca deverá tornar-se numa fortaleza. Vou lembrar-lhe de uma coisa: A primeira vez que este termo foi usado foi em 1933 por Hitler. Não queremos este tipo de Europa, mas, ao mesmo tempo, temos de proteger as nossas fronteiras. Neste momento, estamos num período crucial. Jean Claude disse, há três anos, que estamos a atravessar momentos existenciais. É verdade. A ascensão do populismo e do nacionalismo é uma grande ameaça. Ganharam terreno.".

Euronews: Acha que se a questão da migração tivesse sido tratada com melhores políticas, poderia não ter existido esta mudança nos partidos nacionalistas nas eleições europeias, como vimos em países como Bélgica, Polónia ou Hungria?

Dimitris Avramopoulos: "Está no escritório onde começaram as principais iniciativas, desde o início. Levamos tudo em consideração. Queríamos oferecer apoio aos Estados membros da linha da frente e, por outro lado, impedir chegadas irregulares na Europa Central. Não foi fácil, tenho de confessar, reunir toda a esta abordagem diferente, porque as políticas nacionais ainda prevalecem. Por outro lado, tínhamos uma política europeia que estamos a gerir e a gerir em nome de todos os europeus e, por outro lado, somos confrontados com radicais de alguns países. Gostaria de realçar a diferença entre os Estados-membros e os governos, e os governos nunca devem esquecer que eles vêm e vão.".

Euronews: Levou-me até à Itália. É claro que a Itália tem um governo totalmente novo e um novo governo significa novas políticas. Que erros a Comissão cometeu ao lidar com o governo italiano anterior quando Matteo Salvini era ministro? E o que é se espera deste novo governo?

Dimitris Avramopoulos: "Tem a ver com a política doméstica em Itália. Receio que grande parte dos italianos tenha sido convencida por todos esses slogans políticos muito fáceis. Com Salvini, posso dizer-lhe que comecei a perceber uma pequena mudança, ele começou como anti-europeu e, aabou, por articular um verbo político europeu mais amigável. O que está a acontecer em Itália cabe aos italianos julgá-lo.".

Euronews: Matteo Salvini é o mesmo homem que estava a criminalizar ONGs e comandantes por salvar vidas no mar. Pessoas como Carola Rackete, por exemplo, acha que é uma heroína ou uma criminosa?

Dimitris Avramopoulos: "Eu diria que ela estava a cumprir os seus deveres, moralmente baseada em princípios. Devemos sempre respeitar os que estão a fazer o seu trabalho acreditando em princípios. E acho que o que aconteceu também foi um incidente que nunca deve ser repetido no futuro."

Euronews: E acha que a resposta europeia chega de barco a barco ou de crise a crise...?

Dimitris Avramopoulos: Já disse muitas vezes que precisamos de mecanismos permanentes, insisto nisso. Não podemos continuar assim no futuro. Todos os Estados-membros precisam de perceber que este é o momento de adotar um mecanismo permanente. Ao dizer isto, quero fazer referência aos nossos esforços para adotar a chamada nova Dublin, que é muito importante. Quero ser honesto consigo. Fiquei muito dececionado com a posição de alguns governos. Alguns acreditam que é uma questão à distância, que tem a ver com o sul da Europa. Não, não é o caso. O que tentamos fazer é adotar uma estratégia para toda a Europa.

Euronews: Ursula van der Leyen, a presidente eleita para a Comissão da UE atestou a reforma de Dublin. É uma missão impossível?

Dimitris Avramopoulos: Nenhuma missão é impossível, a menos que seja realmente impossível. Cabe à nova liderança da Comissão Europeia articular um forte verbo político pró-europeu e convencer os Estados membros. Sei que não é fácil, mas não estamos aqui para fazer um trabalho fácil. O futuro europeu será posto em risco se não conseguirmos fornecer soluções permanentes para a migração.

Euronews: Senhor Comissário, no ano passado, quando Angela Merkel estava a falar no Parlamento Europeu, Nigel Farage levantou-se e agradeceu-lhe por ter contribuído para o Brexit devido à política de portas abertas em 2015. O que pensa disso?

Dimitris Avramopoulos: Quer que eu faça comentários sobre as declarações de Farage? Nunca faria isso, porque acredito que o seu papel na Europa e, mais importante, no seu país, é um papel muito negativo, e é isso que os historiadores do futuro julgarão um dia. Porque na história existem dois tipos de políticos e de líderes. Aqueles que estavam para construir e aqueles que estavam para destruir.

Euronews: Ficámos a saber o que pensa sobre Nigel Farage....Uma pergunta final, sobre a declaração UE / Turquia e as ameaças mais recentes de Erdogan para abrir os portões. O que tudo isto significa para as relações UE / Turquia?

Dimitris Avramopoulos: A declaração UE / Turquia deve permanecer viva. Essa cooperação deve permanecer lá e ser aprofundada ainda mais no futuro. Mas, por outro lado, essa cooperação, aos meus olhos, não deve ser usada como ferramenta de pressão, nem como ferramenta de negociação.