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As crianças do Daesh - parte I

As crianças do Daesh - parte I
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O rasto de destruição da guerra na Síria chega a todos os aspetos da vida quotidiana.

Há dois anos, as forças democráticas sírias entravam em Raqqa, apoiadas por ataques aéreos da coligação internacional, com o objetivo de eliminar o autoproclamado Estado Islâmico.

Três meses de guerra bastaram para devastar a cidade e anunciar o início do fim do califado. Mas estávamos apenas perante o começo de um longo caminho para derrotar a ideologia do grupo terrorista

As ruínas de Raqqa lembram o quão brutal a guerra contra o Daesh realmente foi. Prédios inteiros foram deitados ao chão. Acredita-se que milhares de pessoas tenham morrido no local.

A antiga capital do estado islâmico é hoje um grande monte de escombros. Mas por baixo deles células adormecidas ainda operam.

As marcas do autoproclamado Estado Islâmico ainda são bastante evidentes. Após a queda do último bastião do grupo na Síria, foram presos vários suspeitos de serem combatentes do Daesh.

As suas famílias vivem agora no que equivale a campos de internamento no nordeste do país.

Campo Al Hawl

Al Hawl é atualmente o maior campo de acolhimento de familiares de ex-combatentes, com cerca de 75 mil pessoas, entre elas mulheres e crianças de mais de 50 países. As autoridades do campo dizem que continuam a seguir as regras do califado.

Para Mohamed Bashir, gestor de Al Hawl, os problemas gerados pelos residentes estão longe de estar resolvidos. "É claro que são perigosos. Eles têm muitos problemas. E houve casos no campo que provam que ainda estão com problemas", afirma.

Os responsáveis pelo acampamento falam de tendas queimadas, como forma de punição daqueles que consideram não seguir as leis do islamismo radical.

"Há pouco tempo, uma estrangeira pediu aos nossos soldados que a levassem ao mercado para comprar algo para seus filhos. Mandámos os guardas com ela e, quando um deles virou costas, ela esfaqueou-o", exemplifica o gestor do acampamento.

Em julho, um vídeo publicado nas redes sociais mostrava aquilo que parecia ser uma bandeira negra do Daesh a ser içada no acampamento.

No chamado Anexo, a secção onde os estrangeiros são mantidos, a grande maioria das mulheres não aceita ser filmada. Reconhecem que algumas ainda mantêm ideias do Daesh. Outras, no entanto, querem apenas encontrar uma saída.

"M", vem de França e é uma dessas pessoas. Concordou em dar uma entrevista, mas pede para não a identidade não ser divulgada, porque tem medo do que poderia acontecer se tivesse a oportunidade de voltar ao país de origem.

"M" tenta explicar, mas sabe que será difícil para as pessoas entenderem as escolhas que fez.

"Eu sei que escolhi vir. Poderia ter saído antes, mas não saí, tinha medo. Não queria ir para a prisão, não queria perder o meu filho, não queria perder o meu marido. E ficamos sem saber o que fazer.

Quando entramos no Estado Islâmico, não somos livres para fazer o que quisermos. Toda a gente suspeita de toda a gente. Portanto, não existe a opção de alguém se juntar e depois dizer que se quer ir embora", conta.

Desafio a Ocidente

Como separar os agressores das vítimas é uma questão com a qual muitos países se estão a defrontar.

O futuro de "M" é incerto. Enquanto a maior parte da Europa vira as costas aos nacionais que se juntaram ao autoproclamado Estado Islâmico - defendendo que foi exatamente o que fizeram quando escolheram ficar do lado do grupo terrorista - especialistas em segurança e em terrorismo questionam se isso não poderá alimentar o ódio e a ideologia que o Ocidente está a tentar suprimir.

Enquanto as células do Daesh estiverem ativas na região, o que acontece nestes campos pode ajudar a definir se a guerra contra o grupo terrorista foi realmente vencida.

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