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Médico responsabiliza Bolsonaro por tragédia histórica no Brasil

Médico Drauzio Varella acusa Presidente Jair Bolsonaro de péssima gestão da epidemia
Médico Drauzio Varella acusa Presidente Jair Bolsonaro de péssima gestão da epidemia   -   Direitos de autor  Pascal Guyot / AFP //AP Photo/Andre Borges
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O médico Drauzio Varella, um dos mais respeitados comentadores e analistas de questões sanitárias no Brasil, afirmou, em entrevista ao jornal The Guardian, que "a história vai atribuir" a Jair Bolsonaro "uma culpa" que o também escritor "não queria de todo" ter nos ombros por causa da Covid-19.

O também escritor, de 77 anos, responsabiliza o Presidente do Brasil por uma "tragédia histórica", como definiu o jornal britânico o cenário previsto por Varella para o maior país da América do Sul, vítima de uma politização da pandemia que já custou o lugar a dois ministros da Saúde.

"Porque no Brasil já somos o terceiro país do mundo em termos de mortos, em breve vamos tornar-nos no segundo e chegar perto do nível de mortalidade dos Estados Unidos, que tem 330 milhões de habitantes, cerca de 60% mais que o Brasil", precisou Varella, considerando que "a situação não podia ser pior".

O médico diz ter a sensação de que "o Brasil está a viver numa tragédia". "E esta tragédia vai ser muito mais severa para os mais pobres", avisou Drauzio Varella, referindo-se aos milhões de brasileiros que vivem sem condições dignas de vida como é o caso das favelas.

De acordo com os dados compilados esta sexta-feira pelo portal G1 da Globo junto das Secretaria de Estado da Saúde, o Brasil soma atualmente 621.877 casos de infeção registados, só superado pelos 1,8 milhões dos EUA, e pelo menos 34.212 mortos no quadro da pandemia, apenas abaixo dos 108 mil dos EUA e dos 40 mil do Reino Unido.

O jornal Folha de São Paulo estima haver neste momento uma pessoa a morrer no Brasil a cada minuto.

Tragédia podia ter sido evitada

Drauzio Varella considera que uma tragédia desta gravidade poderia ter sido evitada se o Governo de Jair Bolsonaro tivesse reagido de forma diferente à pandemia que atingiu o Brasil depois de já ter atingido de forma dram1atica diversos outros países, na Ásia e na Europa.

"O nosso país teve tempo para se preparar para a epidemia e não o fez. Quando a a epidemia chegou, foram tomadas algumas medidas que podiam ter tido impacto em termos de isolamento, mas isto foi torpedado pelo governo federal", acusou o médico.

Para Varella, os líderes políticos do país, nomeadamente o governo central e os governos estaduais, enviaram "sinais conflituosos" para os cerca de 210 milhões de cidadãos brasileiros. Os responsáveis locais promoveram a necessidade de isolamento social e de cortar as cadeias de infeção. O governo federal a privilegiar a economia sobre a saúde.

"Este foi um ponto de vista ridículo", acusou Varella, acrescentando que a postura do governo de Bolsonaro "provocou um resultado muito complicado para o país".

"E estamos agora a colher os resultados desta política de antagonismo, de politização da epidemia, e que é a pior situação possível", disse o médico, responsabilizando diretamente o Presidente.

"Não é que estejamos a ter um debate ideológico. Não. O Presidente tem ido simplesmente para a rua todos os fins de semana, atraindo multidões sem usar máscara e desafiando a necessidade de isolamento. Esta tornou-se a política governamental", resumiu.

A instabilidade política do país também não ajuda na resposta à epidemia, contrastando com o sucedido em 2015 com a epidemia do vírus Zika ou com a sida (HIV) há mais de duas décadas.

"Perdemos dois ministros da Saúde durante esta crise e agora temos um ministro interino. Isto não aconteceu em mais nenhum sítio do mundo", apontou Varella, referindo-se a Eduardo Pazuello, o general que tem vindo a preencher o Ministério da Saúde com militares.

Bolsonaro tem vindo a bater-se pelo fim dos confinamentos nos diferentes estados do Brasil e a promover o regresso ao trabalho dos brasileiros para que, alega, não morram de fome.

Esta sexta-feira, o Presidente inaugurou um hospital de campanha em Goiás, um dos estados mais afetados pela Covid-19, e desejou que a unidade tenha pouca procura; o que seria bom sinal, mas não perdeu a oportunidade para atacar quem o critica.

"Agora estamos vendo um grupo de criminosos terroristas se movendo para quebrar o Brasil", afirmou o chefe de Estado brasileiro, considerando estar a ser ameaçado pelos protestos antifascistas e antirracistas convocados para várias cidades do país no próximo domingo.

Jair Bolsonaro também classificou os manifestantes que se opõem ao seu Governo como "preguiçosos" e "viciados em drogas". "São geralmente criminosos, terroristas, viciados em drogas, pessoas preguiçosas que não sabem o que é a economia, não sabem o que é trabalhar para ganhar o pão diário", afirmou.

Drauzio Varella considera esta postura do Presidente um erro e avisou que a reabertura da economia ameaça agravar "uma crise já muito profunda".

"A verdade é que estamos a relaxar (as medidas) num momento em que o número de infeções está em pleno crescimento e sem qualquer segurança", disse e deixando um aviso: "Vamos pagar o preço do que está a acontecer agora, com mais pessoas nas ruas, multidões".

"Em duas ou três semanas, o número de infetados vai aumentar. Não há magia. Não há solução nem nada que nos permita antever um Brasil diferente", alertou.

Donald Trump critica Brasil e Suécia

Também o Presidente dos Estados Unidos, em quem Bolsonaro parece querer inspirar-se, não poupou hoje a gestão da epidemia seguida pelo governo brasileiro.

Tentando explicar também o que muitos não conseguem perceber, Donald Trump diz ter conseguido salvar "possivelmente dois milhões ou 2,5 milhões de pessoas" ao não er feito como o Brasil ou a Suécia e ter decidido fechar os EUA, o que os especialistas de saúde norte-americanos alegam ter sido demasiado tarde.

"Se considerarmos que estamos com 105 mil mortos hoje em dia (n.: já são mais de 108 mil), o número de vítimas teria sido pelo menos 10 vezes maior. Se se olhar para o Brasil, vemos as dificuldades. Eles estão a seguir o exemplo da Suécia, que também está a atravessar um momento terrível. Se tivéssemos feito o mesmo, teríamos perdido mais um milhão, um milhão e meio ou talvez até dois milhões de vidas", afirmou Trump.

O deputado federal brasileiro Alessandro Molon não deixou passar em claro a crítica nas entrelinhas de Trump a Bolsonaro.

"Trump acaba de dar uma forte pancada em Bolsonaro! Disse que, se tivesse agido como o Brasil, os EUA chegariam a 2,5 milhões de mortos. Até o aliado de Bolsonaro reconhece a desgraça que é o governo! Bolsonaro envergonha o Brasil. Precisamos voltar a ser um bom exemplo pro mundo", escreveu no Twitter o deputado federal pelo Rio de Janeiro.