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Adaptar-se como atleta à realidade do coronavírus

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Adaptar-se como atleta à realidade do coronavírus
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Neste episódio de Unreported Europe, fomos ao encontro de três atletas de alta competição para saber de que forma as suas carreiras foram afetadas pela pandemia de coronavírus.

Como todos os quadrantes da vida, a indústria do desporto - avaliada a nível mundial em mais de 430 mil milhões de euros - foi profundamente atingida pela pandemia de coronavírus.

Um duro golpe para a grande maioria dos atletas de alta competição, impossibilitados de competir e obrigados a interromper ou reajustar os treinos devido às regras de confinamento.

Uma pandemia que obrigou a repensar carreiras e a redefinir o futuro profissional e os objetivos de cada um.

O psicólogo do desporto, Makis Chamalidis, coautor do livro "Champion dans la Tête", explica:

“É um momento de incerteza e de pouca visibilidade. Vimos atletas que conseguiram adaptar-se e reorganizar-se e outros que perderam o norte e tiveram mais dificuldade em manter-se focados.”

O sonho adiado dos Jogos Olímpicos

Com quase uma centena de medalhas internacionais no currículo, incluíndo vários títulos europeus e mundias, o canoísta português Fernando Pimenta estava de olhos postos nos Jogos Olímpicos de Tóquio, que deveriam ter tido lugar em 2020.

Sem dúvida que o momento em que me senti mais em baixo foi quando houve a indecisão dos Jogos Olímpicos. Foi um momento em que parece que nos tiraram praticamente o tapete debaixo dos pés.
Fernando Pimenta
canoísta olímpico
FRANCK ROBICHON/EPA/LUSA
Fernando PimentaFRANCK ROBICHON/EPA/LUSA

Tal como os restantes atletas olímpicos, ele sabe agora que terá de esperar outro ano para tentar dar o melhor de si e, quem sabe, conquistar finalmente o sonho do ouro olímpico. E diz que vai aproveitar "este ano extra, para tentar melhorar, se possível, ainda mais um pouco”.

2020, um ano que afinal não foi de reafirmação

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?‍♀️?️ #stayhome

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Jeanne Collonge destila uma calma exterior que esconde a chama dos campeões.

Vencedora de várias provas de IronMan, esta triatleta também deteve, entre 2012 e 2015, o recorde de uma das mais duras provas de triatlo de longa distância do mundo, o mítico Embrunman.

Em 2017 interrompeu a carreira devido a uma gravidez e ao nascimento da filha.

Em 2018 encetou o regresso, com um 2019 difícil marcado por uma lesão, e 2020 deveria ser o ano da reafirmação, para voltar a marcar posição entre as melhores do mundo.

Para ela, esta crise foi como "uma lesão", que "ao princípio negamos", mas que depois "é preciso aceitar e fazer tudo para nos adaptarmos".

Jeanne diz sentir-se ao seu melhor e confessa que foi "uma pouco frustrante sentir-se bem e não poder exprimir-se numa prova".

Ajustar-se à realidade numa das zonas mais afetadas

A viver em Vermiglio, com as Dolomitas como pano de fundo, Davide Magnini é o perfeito exemplo de um "atleta de ar livre". Aos 22 anos, o jovem italiano já conquistou vários campeonatos europeus e mundiais de esqui alpinismo e é uma estrela em fulgurante ascenção no mundo das corridas de montanha (o chamado "trail running"). Davide venceu a mítica Maratona do Monte Branco em 2019 e ficou em segundo lugar na Golden Trail World Series, atrás do "rei" da modalidade, Kilian Jornet.

Mentalmente, ao início foi difícil ter de treinar todos os dias numa garagem, num tapete rolante. Para um atleta como eu, habituado a treinar sempre ao ar livre, independentemente das condições meteorológicas, foi muito duro.
Davide Magnini
atleta de endurance

Apesar de viver numa pequena aldeia nas montanhas, Davide explica que respeitou escrupulosamente as restrições impostas pelas autoridades, tendo em mente o elevado número de contágios no norte de Itália e o facto de que deveria dar o exemplo para os seus fãs.

Desportos menos mediatizados significam preocupações financeiras acrescidas

Canoagem, triatlo, esqui alpinismo e corridas de montanha são desportos de alta competição, mas que não gozam da exposição mediática de modalidades como o futebol, ténis ou Fórmula 1.

São práticas onde os atletas estão bastante dependentes dos prémios das provas e dos patrocínios que conseguem obter. Com todas as provas canceladas deixou de haver prémios e, de acordo com a Federação Europeia de Equipamento Desportivo (FESI), 45% das empresas do setor declararam perdas de 50% a 90% dos rendimentos durante a pandemia.

Houve um momento em que vi que muitas empresas não iam aguentar e teriam de fechar as portas e pensei que talvez pudesse acontecer o mesmo com as marcas que me apoiam.
Jeanne Collonge
triatleta

Jeanne também trabalha como tradutora e está a estudar para se tornar preparadora mental para outros atletas porque, apesar de estar entre as melhores da sua modalidade, acredita que é importantes ter outras opções para onde se virar.

Como jovem atleta do Exército italiano, Davide contou com um apoio extra durante a crise, mas o negócio de família foi afetado por um fecho forçado durante mais de dois meses, devido às regras de confinamento no país.

Felizmente para estes atletas, os patrocinadores garantiram-lhes que manteriam o apoio durante este período de crise. Uma sondagem recente da Associação Europeia do Patrocínio revela que 72% das marcas desportivas pretendem honrar os compromissos, apesar da pandemia.

Sair mais forte da pandemia

O futuro de muitas competições desportivas permanece ainda incerto, mas com os ventos do desconfinamento a soprar pela Europa, os atletas de alta competição estão a adaptar-se cada vez melhor e olham agora para um futuro pós-Covid.

Fernando disse, em várias ocasiões, que acredita que vai sair "mais forte" deste período e acredita que ainda terá a hipótese de competir em 2020, apesar de não ser nos Jogos Olímpicos.

Jeanne diz que "se não hover provas", irá trabalhar nos pontos fracos e "tentar progredir para estar pronta para 2021".

E, no que diz respeito a Davide, o jovem italiano acredita que a pandemia vai mudar o mundo, mas "não vai influenciar o desejo e paixão dos atletas de fazerem aquilo de que mais gostam".