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"A transição ecológica é uma resposta à crise económica"

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"A transição ecológica é uma resposta à crise económica"
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Estará a Revolução Verde em marcha na Europa? Em França, Grégory Doucet é o primeiro candidato do Partido "Os Verdes" a dirigir uma grande cidade, como Lyon, mas não foi o único. Bordéus, Estrasburgo, Poitiers, todas cidades francesas que caíram nas mãos dos ecologistas. Uma onda nacional histórica que acontece no meio de uma grave crise económica e quando o aquecimento global nunca foi tão visível. Os Verdes terão de provar que podem fazer mudanças, localmente, ou talvez à escala europeia. Grégory Doucet, o novo presidente da câmara de Lyon, é o convidado de Global Conversation.

Guillaume Petit, euronews:

O clima assumiu, nos últimos anos, uma importância mais ampla, no debate mundial. Foi assinado o acordo de Paris, d m2015, houve manifestações pelo clima nos quatro cantos do planeta, em 2019. A isso junta-se uma crise de Saúde mundial. Ouvimos muito falar de que é o momento de reorientar a economia para um modelo mais verde. Mas como é que se conciliam essas mudanças profundas, que levarão tempo, com a necessidade urgente de recuperação económica?

Grégory Doucet:

A transição ecológica é uma resposta à crise económica. Por exemplo, investir na renovação térmica dos edifícios gera emprego local, significa trabalho no setor da construção. Investir em transportes públicos significa trabalhar para as empresas públicas. É simplesmente uma questão de reorientação da economia. Muitos líderes empresariais, homens e mulheres, já estão a pensar na sua própria estratégia, já integraram a transição ecológica ou desejam envolver-se mais nela. Cabe-nos a nós, políticos, acompanhá-los, ouvir e entender os seus problemas.

Guillaume Petit:

Com a crise de Covid-19 Lyon, como muitas outras cidades europeias, viu-se a braços com uma crise no turismo. O senhor defende um relançamento ecológico, sugere a expansão dos comboios noturnos, como a Áustria fez. É necessário reduzir o tráfego aéreo?

Grégory Doucet:

Claro que sim. Em última análise, é isso que vai acontecer. Dentro de algumas décadas, voar será uma exceção. É para isso que devemos lutar. Mas o que é estamos a fazer, hoje, perante essa evidência? Esperamos 20, 30 anos até sermos forçados a fazê-lo, repentinamente, porque as temperaturas subiram tanto que não teremos outra escolha? Não, temos que começar a fazê-lo agora. Por isso, digo que a reorientação do setor do turismo, à escala nacional e europeia, é uma prioridade. O objetivo não é proibir voos para Lyon amanhã, é claro. O objetivo é reduzir, gradualmente, as quotas da aviação e ter uma oferta turística mais focada na Europa.

Guillaume Petit:

Um projeto em debate há anos, é a linha de alta velocidade Lyon-Turim. Este é um projeto de mais de oito mil milhões de euros. O senhor disse que ele é um erro, mas não seria mais caro pará-lo agora?

Grégory Doucet:

Trata-se de fazer grandes escolhas em infraestrutura. Foi uma boa ideia investir, como você disse, oito mil milhões de euros numa infraestrutura que é, de facto, a duplicação de uma já existente? Hoje pode ver que em Lyon, e à volta de Lyon e mais amplamente no país inteiro, não investimos o suficiente no setor da carga. Não investimos o suficiente nos comboios. O que quero dizer é que esse investimento impede-nos de investir onde há uma necessidade real, hoje. É isso que estou a dizer. É uma questão de prioridades.

Guillaume Petit:

A onda verde não é apenas um fenómeno local. Os Verdes tiveram um aumento de votos nas últimas eleições locais no Reino Unido, nas últimas Europeias na Finlândia, na Alemanha, em França. E na Áustria chegaram a participar no governo. Pensa que as grandes cidades podem dar um novo fôlego às políticas europeias, a longo prazo?

Grégory Doucet:

Espero que sim. Existem dois passos muito importantes para transformar as nossas sociedades, a nível local. Primeiro, as metrópoles, as cidades, devem atuar o mais próximo possível dos habitantes, transformando a sua vida quotidiana. E depois há o nível europeu. É aqui que são feitas muitas regulamentações pelo que é necessário ter uma presença forte ao nível do Parlamento Europeu. E isso já acontece. Os Verdes estão presentes com um número importante de eurodeputados. E precisamos de uma rede de cidades, esse é o meu desejo. Uma rede de cidades europeias que dão o exemplo, que têm peso nas políticas europeias e sobre quem toma as decisões nacionais, para liderar o caminho. E para discutir, convencer as instituições europeias de que é necessário dinheiro público europeu para investir numa rede ferroviária europeia de qualidade.

Guillaume Petit:

Porque não estão a fazer o suficiente?

Grégory Doucet:

Não, e é importante que façam. A questão dos comboios noturnos é defendida pelos Verdes mas não tem apoio suficiente das instituições europeias.

Guillaume Petit:

Não lhe parece que se deu um passo importante com o Acordo Verde da Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen?

Grégory Doucet:

Para mim, ao nível das instituições europeias, ainda não há uma total tomada de consciência. Temos de continuar a trabalhar. Daí a importância do trabalho dos eurodeputados mas, acima de tudo, desta rede de cidades europeias, à qual aspiro, e que poderá influenciar as instituições europeias. Permitir-nos-ia abrir o caminho e dizer: "estamos prontos. Vejam o que fizemos nas nossas cidades. Ajudem-nos a ir mais além e a estar melhor preparados. Ajudem-nos a ser mais resilientes, mais fortes face às várias crises que possam surgir".

Guillaume Petit:

Com essa crise, apercebemos de como a nossa indústria depende de outros países. No seu programa mencionou uma "híper dependência de um sistema mundializado" que prejudica o meio ambiente. Isso significa que a Europa foi longe demais e que precisamos retroceder para garantir que o nível local prevalece?

Grégory Doucet:

A questão não é voltar atrás mas definir um novo rumo. O passado não foi uma era de ouro, um período em que tudo correu bem. Essa não é a questão. Hoje, as nossas economias precisam de estar mais ancoradas aos seus territórios, menos dependentes de agentes económicos do outro lado do planeta. Trazer os nossos produtos do outro lado do planeta envolve uma indústria de transporte maciça e poluente, que emite CO2. E sim, vimos com esta crise global, provocada pela Covid-19, que precisamos ser mais resistentes a choques para conseguir suportar diferentes surtos.

Guillaume Petit:

França tem um novo primeiro-ministro, um novo governo que se diz ser de direita. Estamos a dois anos da próxima eleição presidencial. Pensa que o clima é, realmente, uma prioridade para Emmanuel Macron?

Grégory Doucet:

Ouvimos o Presidente discursar sobre a matéria em várias ocasiões. Há alguns anos era: "Tornem o nosso planeta fantástico, novamente". Portanto, compromissos ou sinais a favor da ecologia, ele procurou mostrá-los, mas não é disso que precisamos hoje. Precisamos de ações concretas. Temos promessas e discursos desde 2002. Lembre-se do discurso do ex-presidente francês Jacques Chirac. Ele disse: "A casa está a arder e nós estamos a olhar para o outro lado". Foi em 2002. Estamos em 2020. Dezoito anos de discursos. Não é disso que precisamos. Precisamos de ações concretas. Precisamos de investir nas nossas cidades. Precisamos de investir em transportes públicos e transportes alternativos ecológicos. Precisamos de transformar as nossas cidades, mas também precisamos de transformar o nosso país, como um todo.