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Covid-19 mata cacique e ameaça povos indígenas no Brasil

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Aritana Yawalapiti, um dos grandes chefes indígenas do Brasil
Aritana Yawalapiti, um dos grandes chefes indígenas do Brasil   -   Direitos de autor  EVARISTO SA/AFP
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Guardado entre sete países, o Amazonas é uma gigante autoestrada de água doce por onde circulam passageiros, mercadorias e mais recentemente o novo coronavírus.

Fonte de vida da qual dependem milhões de pessoas, o rio é hoje também fonte de doença.

A pandemia não poupou os povos indígenas. De acordo com o Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, até 1 de agosto, tinham morrido, entre as populações nativas do país, 338 pessoas.

O isolamento dos povos locais está a provar não ser suficiente para afastar o vírus, é antes mais um fator a contribuir para a vulnerabilidade da população amazónica.

Vanda Ortega é indígena e cuidadora. Aos 32 anos, percorre, porta a porta, a comunidade, para dar a assistência possível, quando o Estado falha.

"Estamos sem assistência nenhuma sou eu que estou fazendo esse trabalho, de dar apoio aos nossos parentes. Aqui tem pessoas com pressão alta, diabetes, que não está podendo ir nas unidades básicas", lamenta.

No Brasil, o estado do Amazonas tem sido dos mais afetados pela covid-19. Longe da capital Manaus, os sintomas são muitas vezes tratados com remédios caseiros.

Apesar da relutância da população, a chegada dos testes à região é felicitada por Neurilene Cruz da Silva, enfermeira do Distrito Sanitário Especial Indígena de Manaus.

"É muito importante (termos) esses testes, porque ainda infelizmente existem pessoas que não acreditam que esse vírus pode estar contaminando aqui, não só nessa aldeia mas como nas outras aldeias. E quando alguém aparecer com os sintomas (de Covid-19), a gente tem o teste", conta.

Covid-19 vitima cacique Aritana

O cacique Aritana, um dos mais reconhecidos chefes indígenas do Brasil, morreu esta quarta-feira vítima do novo coronavírus. "A morte está confirmada", disse à AFP Iano Yawalapiti, sobrinho do cacique.

Aritana Yawalapiti tinha cerca de 70 anos e estava internado há duas semanas numa unidade de cuidados intensivos e respirava com a ajuda de um ventilador, em Goiânia, capital do estado de Goiás.

Defensor fervoroso dos direitos indígenas e da preservação da floresta amazónica, o cacique era líder da região do Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, no sul da Amazónia, de onde também é originário o chefe emblemático Raoni Metuktire.

"Um dia negro"

"Foi um grande defensor da luta para preservar e perpetuar a cultura de seu povo para as gerações futuras e um incansável ativista contra o desmatamento", disse a família em comunicado.

A morte desencadeou várias mensagens e manifestações de pesar. "É um dia negro, um dia de luto pela humanidade", escreveu a ONG francesa Planète Amazone no Facebook. "Uma grande figura nova na luta indígena está morrendo com o desaparecimento do cacique Aritana (...) considerado a autoridade máxima em Haut-Xingu, onde residem 16 povos indígenas", lê-se também na mensagem publicada.

UNE PAGE SE TOURNE AVEC LA PERTE TRAGIQUE DU CHEF ARITANA YAWALAPITI >> 📭 Postez vos messages de condoléances sur cette...

Publiée par Planète Amazone sur Mercredi 5 août 2020

Antes de adoecer, Aritana lançou uma campanha de arrecadação de fundos para promover o acesso à saúde a membros da sua tribo.

As vítimas mortais de COVID-19 no Brasil devem ultrapassar a barreira dos 100 mil mortos nos próximos dias. A doença atingiu pos povos indígenas com grande intensidade, devido à menor imunidade e dificuldade de acesso à assistência médica.

De acordo com a APIB, Associação dos Povos Indígenas do Brasil, mais de 22 mil foram infectados com o novo coronavírus; 633 morreram.