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Volodymyr Zelensky: "Crimeia é território nosso. Vamos tê-lo de volta"

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Volodymyr Zelensky: "Crimeia é território nosso. Vamos tê-lo de volta"
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Passou pouco mais de um ano desde que Volodymyr Zelensky surpreendeu tudo e todos ao vencer as eleições presidenciais na Ucrânia, com mais de 70% dos votos. Na altura, o ator que se tornou político, sublinhou que nunca "dececionaria" os ucranianos.

Em Kiev, a jornalista da Euronews Sasha Vakulina esteve à conversa com o chefe de Estado e questionou-o, entre outras coisas, sobre o balanço do primeiro ano de mandato. Também se abordaram os desafios de chefiar um país com 42 milhões de pessoas que assistiu a uma revolução, à anexação da Crimeia e a um conflito armado contínuo no leste.

Sasha Vakulina, Euronews - Como é que tem corrido a experiência como chefe de Estado? Tirando o facto de parecer que o tempo tem passado a correr há alguma coisa que o tenha impressionado, positiva ou negativamente?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Há várias coisas. Existem muitos problemas diferentes quando se é um cidadão comum. Apesar de me sentir uma pessoa comum essa é a sensação que tenho. Já disse - e é verdade - que serei sempre uma pessoa comum. O que importa para mim é o que se passará quando deixar de ser presidente da Ucrânia. Quero poder continuar a caminhar pelas ruas não só de Kiev, mas de toda a Ucrânia. O melhor resultado seria que as pessoas tivessem orgulho em mim, mas mesmo que isso não aconteça quero que as pessoas me cumprimentem. Espero que não me digam alguma coisa desagradável, ou pior, espero que as pessoas não me queiram cuspir para a cara, porque é assim que a maioria dos políticos terminam a carreira. Quando não há uma ligação com as pessoas não voltam para a sociedade por causa do modo como agiram quando estiveram na vida política. O que é impressionante ao longo de todo este tempo - pouco mais de um ano desde que fui eleito - é que fiz as coisas de uma forma que não me envergonha. Tudo o que faço é de maneira a que os meus filhos não tenham vergonha e principalmente que os meus pais não sintam embaraço. Para mim, isso é o mais importante. O resto é simples. Tratam-se de desafios do dia-a-dia. Tirando os problemas estratégicos, um presidente tem de resolver os desafios diários. A guerra no leste não para de um dia para o outro. Não se resume a uma semana de trabalho, com cinco dias por semana. A guerra acontece 24 horas por dia, sete dias por semana. Todos os dias há desafios e problemas. Não faltam só respostas. São precisas respostas que tragam resultados e passos concretos, porque são importantes. Desses passos depende o número de pessoas que morreram, o número de feridos. E quantas vidas, pessoalmente, pode o presidente da Ucrânia salvar? Independentemente de como se fizer: chamadas telefónicas, ir para a linha da frente. Sei que quando estou na linha da frente não vão disparar. Têm medo. É por isso que digo sempre a qualquer pessoa do governo, do gabinete da presidência, a qualquer autoridade para ir para a linha da frente. Porquê? Porque não haverá tanta troca de fogo. É a verdade.

Sasha Vakulina, Euronews - Desde que recomeçaram as negociações sobre a situação no leste do país na reunião do Quarteto da Normandia de dezembro do ano passado, em Paris, disse que dará um ano para se obterem resultados. Faltam poucos meses, de agosto até dezembro. Qual é a situação neste momento? Que progressos se fizeram no espaço de um ano?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - As coisas estão a avançar, mas não tão rapidamente como esperava. Agora há um cessar-fogo e haverá um encontro do Quarteto da Normandia. Em terceiro lugar, houve uma troca de prisioneiros. Acordámos lugares de desimpedimento e duas dezenas de lugares de desminagem, o que é bastante importante. Quanto mais tempo é que se precisa? Não sei com certeza. Penso que um novo encontro do Quarteto significa que existe uma grande possibilidade de terminar a guerra.

Sasha Vakulina, Euronews - Quando?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Assim que possível. (...) Quero acreditar que será ainda este ano. Quero realmente acreditar nisso e acredito mesmo. Se dependesse de mim ... Não quero dar nomes, por agora, mas comparando com a equipa anterior, ninguém queria isso tanto quanto eu. Ninguém fez tanto em termos de acelerar o processo e de colocar pressão. E todos veem o que se passa. Não me refiro apenas a nós na Ucrânia. Os nossos parceiros veem. Os parceiros estrangeiros. Todos veem. Sei que ninguém pode acabar a guerra mais rápido do que eu.

Sasha Vakulina, Euronews - Acredita que as negociações do Quarteto da Normandia e do Protocolo de Minsk são eficientes? Existem alternativas?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Há sempre uma forma, dizem. Há sempre alternativas. Temos planos alternativos em relação ao que se pode fazer, mas não existe nenhum outro plano real eficiente que possa conseguir um verdadeiro apoio das quatro partes do Quarteto da Normandia. Por outro lado, ainda temos algum tempo, como referiu e como eu prometi. É por isso que quero avançar. Se não funcionar, então pensaremos em outras opções.

Sasha Vakulina, Euronews - O facto de ter estabelecido um diálogo direto com o presidente Vladimir Putin provocou um feedback controverso na Ucrânia. Como estão as coisas neste momento? Está em contacto com o presidente russo?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Sim, quando é preciso. Falei com ele justamente antes da entrada em vigor do cessar-fogo. Discutimos as questões complexas respeitantes ao cessar-fogo. Até agora há resultados e são tangíveis, mas não bastam. Não tenho receio do diálogo direto com o presidente russo. Penso que essa é a coisa certa a fazer. Se tivermos a possibilidade de falar e se os resultados dessas conversações puderem ajudar a caminhar para o fim da guerra temos de o fazer, independentemente da reação de diferentes pessoas e regiões. Se não houver diálogo, se não se fizerem chamadas telefónicas quando é preciso, não haverá um resultado pacífico. Estou convencido disso.

Anexação da Crimeia: Um braço-de-ferro complexo

Sasha Vakulina, Euronews - O protocolo de Minsk e o Quarteto da Normandia debruçam-se sobre a situação no leste da Ucrânia. Quais são as negociações relativas à anexação da Crimeia?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Penso que no que diz respeito à Crimeia, a situação é ainda mais complicada. Honestamente, pensei muito sobre o assunto. No Quarteto da Normandia ninguém fala sobre a Crimeia, particularmente a Rússia. Coloquei essa questão, mas dedicámos todo o tempo a Donbass. A Rússia não quer falar sobre a matéria e não tenho receio de dizê-lo. Todos percebemos isso. Não deveríamos tê-los deixado anexar a Crimeia. Esse é um grande problema. Mas não podemos agora agredir-nos por causa do que aconteceu. Estou certo de que um dia todos serão responsabilizados. Houve a participação de muitas pessoas. Mas a Crimeia é território nosso. Vamos tê-lo de volta. Ainda assim não existe uma plataforma séria e eficiente para discutir o assunto a não ser as nossas conversações e acordos internacionais com os nossos parceiros estrangeiros que se traduziram em sanções e pressão sobre a Rússia por causa da anexação ilegal da Crimeia. O antigo presidente disse que as coisas estavam a avançar e que se tinha feito muito para ter a Crimeia de volta. É verdade que há casos em tribunal, conversações internacionais, mas, honestamente, neste momento não existe uma plataforma forte para analisar a questão. Penso que uma plataforma deste tipo não foi criada ao longo de seis anos. Não existe, simplesmente. Exceção feita para as sanções. Estou muito grato aos nossos parceiros pela atitude. Temo-las discutido e os nossos parceiros vão estendê-las. Não só a Europa, mas também os EUA e outros países. Estão a ajudar imenso. É tudo o que vejo. Se vou fazer mais alguma coisa? Vou sim.

Sasha Vakulina, Euronews - É uma questão de prioridades? A situação no leste tem prioridade sobre a situação na Crimeia?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - As duas situações são prioritárias. Não há diferenças. A única diferença sobre a situação no leste da Ucrânia é que há pessoas que estão a morrer. Considerando este fator humano em particular, para mim esta questão tem de estar em primeiro lugar. Mas as duas matérias estão ao mesmo nível, porque os dois territórios são nossos. Têm de voltar.

Sasha Vakulina, Euronews - Vão voltar?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Claro.

Sasha Vakulina, Euronews - Quando?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Como dizem, por vezes, nos filmes: "Será o primeiro a saber."

Relações Ucrânia - EUA

Sasha Vakulina, Euronews - No último ano tem havido muita atenção, principalmente fora da Ucrânia, sobre a situação que envolve o presidente do país e o presidente dos EUA? O que é que se passa neste momento? Para si são águas passadas?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Estou muito calmo em relação a este caso. Tive um encontro com o presidente Donald Trump. Estou-lhe grato, a ele e à equipa dele. Em geral estou grato pelo apoio bipartidário dos EUA à Ucrânia. Estão a apoiar realmente a Ucrânia e não se trata apenas de ajuda militar, que aumentaram, e dos nossos exercícios militares com a NATO, dos nossos exercícios navais e da forma como nos apoiam geopoliticamente e com as sanções. Deram-nos, por exemplo, apoio na questão do gasoduto Nord Stream 2. Os EUA estão a fazer muito pela Ucrânia. Estou realmente grato como cidadão ucraniano e como presidente. É por isso que interferir nas eleições americanas é o maior erro que qualquer líder ou estado independente pode fazer. Fica ao critério de cada um.

Sasha Vakulina, Euronews - Há algo por dizer, dos bastidores, em relação à situação com o presidente Donald Trump?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Há sempre qualquer coisa dos bastidores, em todas as reuniões que tive com chefes de Estado. Sempre. Essa é a verdade. E é normal, porque há muitas coisas que não podem ser ditas simplesmente. Algumas são estratégicas. Como se pergunta com frequência: Há um plano B ou plano C? Sim, há. Pode falar sobre isso? Não. Porquê? Porque pode não acontecer. Tão simples quanto isso. É informação desnecessária.

Relações Ucrânia - União Europeia

Sasha Vakulina, Euronews - Concentremo-nos nas parcerias e nas relações da Ucrânia com os parceiros e com outros países. Falemos da Ucrânia e da União Europeia (UE). Na videoconferência da cimeira de líderes da Parceria Oriental-UE, em junho, disse que a "Ucrânia quer uma adesão completa à União Europeia e o formato corrente não basta." Acredita que a União Europeia está, de certa forma, a manter a distância?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Penso que a União Europeia quer que a Ucrânia seja um parceiro e quer a Ucrânia na UE. Nem todos os Estados-membros estão de acordo, é verdade. Parece-me que não confiam a 100% na Ucrânia. Em segundo lugar penso que a Europa está de pé atrás em relação à Rússia, porque a Rússia demonstra que não quer que a Ucrânia seja pró-europeia. Têm o próprio negócio, as próprias relações e os próprios países. Mas vemos atualmente a forma como a Europa atua com sanções, a forma como nos apoia, mesmo que isso signifique perder dinheiro por causa das sanções contra a Rússia. Estou grato por esta atitude. Penso que o importante para os ucranianos é que a Europa esteja 100% certa em relação ao país.

Referi a muitos líderes europeus que têm de responder ao povo ucraniano o que querem fazer, passo a passo, para o país se tornar membro da UE. Quando os ucranianos tiverem a resposta analisarão quanto tempo precisam, se serão capazes de fazer o que é pedido e quando farão. O que se necessita é um entendimento claro do que precisamos agora. Quer a Europa nos queira, quer queiramos a Europa, penso que só temos de nos tornar no país que a Europa quer que nos tornemos. Depois ninguém terá dúvidas e a Ucrânia poderá decidir.

Tensão na Bielorrússia

Sasha Vakulina, Euronews - Os protestos na Bielorrússia são cada vez mais comparados com a revolução de alguns anos atrás na Ucrânia. Vê semelhanças? Até que ponto?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Não gostaria que tivessem acontecimentos idênticos aos que tivemos em 2014. Não quero que os bielorrussos morram. Não quero que sejam alvejados ou que haja derrame de sangue provocado pelo governo. Não quero e é por isso que não gostaria que o povo da Bielorrússia atravessasse algo idêntico. Penso que ainda não é tarde para as autoridades e a sociedade civil começarem um diálogo. Tudo acabaria de uma maneira ou outra. O resultado não importa. Não é o resultado que está em questão, mas antes a forma como se chega ao resultado. Não deveria ser com sangue. Em terceiro lugar, digo honestamente mas não como presidente da Ucrânia, não quero interferir nas eleições na Bielorrússia e não o farei. A Ucrânia não vai intervir. É uma questão de política interna.

Sasha Vakulina, Euronews - O que faria se fosse Aleksandr Lukashenko?

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia - Imaginemos que tenho confiança em mim mesmo, que confio no voto popular. Como é que posso aclamar os ânimos? Diria, definitivamente, que dentro de um mês haveria novas eleições. E que era novamente candidato. Que quem se quisesse candidatar podia avançar. Convidaria todas as pessoas, todos os observadores internacionais. Convidaria alemães, ucranianos, russos, cazaques, azeris, americanos e franceses. Diria ao povo bielorrusso para elegeram quem quiserem. E depois do resultado não haveria lugar para mais questões. Estou certo disso. Se Lukashenko vencesse, ou se ganhasse outra pessoa, então seria essa pessoa a assumir a presidência. Mas todos estariam calmos, sem sangue. Seria justo e far-se-ia história.