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Bill Gates e as soluções para "evitar um desastre climático"

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De  Jeremy Wilks  & Euronews
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Bill Gates e as soluções para "evitar um desastre climático"
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Primeiro vieram os computadores, depois, a filantropia, agora, Bill Gates quer tornar-se numa voz ativa do combate às alterações climáticas. O cofundador da Microsoft e fundador da Breaktrough Energy lançou este mês o livro "Como evitar um desastre climático" e falou com a Euronews sobre o que ainda pode ser feito para salvar o planeta Terra.

Jeremy Wilks, Euronews: Diz no seu livro que hoje em dia estamos no mesmo ponto, em termos de alterações climáticas,que há vários anos, com pandemias. Isso significa que achamos que estamos preparados, mas na verdade não estamos. O que é que não estamos a perceber sobre as alterações climáticas?

Bill Gates: "As fontes de emissões são muito vastas. E em muitos casos, ainda não começámos realmente a descobrir como evitar essas emissões. Todo o sector transformador, o transporte aéreo, mesmo os planos para fazer crescer a rede elétrica, exigem que façamos muito mais do que o que estamos a fazer agora, incluindo promover muita inovação. Portanto, é ótimo que os jovens se preocupem com esta causa, é ótimo que tenhamos um objetivo, mas o meu livro é para dizer, "aqui está o que pode ser um plano, vamos organizar um".

Cada vez mais trata-se de pensar no que fazemos em relação às alterações climáticas e não em se é, ou não, um problema
Bill Gates
Cofundador da Microsoft e fundador da Breakthrough Energy

J.W.: Falemos um pouco sobre a pandemia, rapidamente, antes de entrarmos no tema nas alterações climáticas. Já passou mais de um ano e ainda não estamos a geri-la bem. Está surpreendido com isso?"

B.G.: "Cada país fez algumas coisas bem e cometeu erros. Quando dei a minha palestra TED, em 2015, a dizer que não estávamos prontos para a próxima pandemia, falei sobre diagnósticos e práticas e como se coordenam diferentes aspetos. A criação da vacina foi mais rápida do que o que esperávamos. A nossa fundação tinha apoiado a tecnologia do ARN mensageiro, mas não tinham sido feitas vacinas, portanto, pelo menos nessa parte, há esperança e poderá ser isso que vai pôr termo a esta epidemia".

J.W.: Mas quando se trata da gestão da situação, do tipo de gestão política não tem tido grande sucesso, creio. O que pensa sobre isso? E o que é que isso significa para a forma como vamos lidar com as alterações climáticas?

B.G.: "Ninguém espera que um governo seja perfeito. Mas o governo em geral faz coisas fantásticas: educação, justiça, saúde. Estamos sempre a pressionar porque somos cidadãos e podemos falar sobre como queremos que melhore. No caso do clima, vai ser preciso criar muitas políticas criativas. E a voz política, particularmente a dos jovens, tem de permanecer forte, vamos precisar de 30 anos para consegui-lo, porque vai ser difícil, mas não é impossível".

J.W.: O lançamento da vacina realçou as diferenças entre ricos e pobres, entre os países mais ricos e os países mais pobres. As alterações climáticas vão provavelmente fazer o mesmo, não vão?

B.G.: "Absolutamente. A razão pela qual estou tão empenhado é porque o trabalho feito pela Fundação Gates para ajudar a saúde nos países pobres, e para ajudar os agricultores de lá, vai ser revertido à medida que os anos passarem. Estas temperaturas mais altas significam que os agricultores de subsistência não vão conseguir fazer as colheitas crescer tanto, o que levará à má nutrição, à migração e a uma total instabilidade por causa do clima".

O diálogo com a administração Biden é muito promissor
Bill Gates
Cofundador da Microsoft e fundador da Breakthrough Energy

J.W.: Quando estava a ler o livro, tive a impressão de que estava a tentar convencer alguém sobre a importância das alterações climáticas. Dirige-se aos políticos americanos, ao público americano, ou na verdade estava tentar convencer-se a si próprio da importância das alterações climáticas? Tive genuinamente essa sensação de que estava a tentar convencer alguém da importância das alterações climáticas e na verdade só recentemente é que se apercebeu da dimensão do problema.

B.G.: "Comecei muitas sessões de aprendizagem em 2005, e tal como dei uma palestra TED em 2015 a alertar para a pandemia, dei uma outra, em 2010, a alertar para as alterações climáticas, porque já estamos a ver os efeitos, os efeitos negativos sobre os mais pobres que nada fizeram para criar o problema.

A razão pela qual é oportuno fazer agora o livro não se deve às minhas opiniões, que sempre foram bem vincadas em relação ao problema, mas devido à energia dos defensores. Há a possibilidade de as prioridades políticas certas e o caminho acertado em relação à inovação, e mesmo o trabalho nas partes difíceis das emissões, como o aço e o cimento e o combustível para a aviação, acontecerem. Particularmente este ano, tendo em conta que temos os fundos de recuperação a ser programados contra o clima, que temos em breve a reunião de Glasgow (COP26). E refleti sobre um contexto de como vai ser difícil, como tenho visto a inovação avançar, e daquilo a que chamo "Green Premium". Achei que era muito oportuno ter o livro como parte destes debates".

J.W.: Sente que é o momento apropriado de enviar um exemplar ao presidente Joe Biden? Já o fez? Acha que as pessoas em Washington lhe vão dar ouvidos?

B.G.: "Sim, falei não só com o presidente, mas também com todas as pessoas fundamentais a trabalhar na área do clima, como John Kerry, que é o enviado especial para o clima. Estou a passar muito tempo também a falar com o Reino Unido sobre a conferência e como nos podemos certificar de que ela cobre não só os temas fáceis, mas também os mais difíceis. Portanto, sim, o diálogo com a administração Biden é muito promissor".

J.W.: E como está a reagir o público americano? Os Estados Unidos são um país de onde vêm as vozes mais céticas em relação ao clima. Como acha que vêem este livro? É óbvio que o escreveu para um vasto público.

B.G.: "Há cada vez mais jovens, incluindo republicanos, que veem isto como a causa moral, que vai além do seu próprio sucesso pessoal, é algo com que se preocupam, que querem garantir que tem atenção. E os partidos podem ter opiniões diferentes, mas cada vez mais trata-se de pensar no que fazemos em relação às alterações climáticas e não em se é, ou não, um problema".

Temos de seguir todos os caminhos que nos possam levar a zero emissões até 2050. E com o nuclear ainda há muito a provar
Bill Gates
Cofundador da Microsoft e fundador da Breakthrough Energy

J.W.: Falemos sobre alguma da tecnologia, porque faz uma grande crítica à tecnologia e fala sobre a implementação do solar, sobre o vento e sobre como estão a ficar mais baratos. Fala também muito sobre tecnologias nucleares, que é algo em que os ambientalistas não estão tão interessados. Acha que o nuclear tem de estar presente num futuro sem carbono?

B.G.: "O setor da eletricidade vai ser muito maior, porque vai englobar toda a energia para os veículos de passageiros, edifícios de aquecimento e arrefecimento e muitos processos industriais. E manter a fiabilidade, mesmo com mau tempo, vai ser um enorme problema.

Portanto, ou precisamos de um milagre no armazenamento, que pode não acontecer, ou precisamos de alguma fonte renovável que não dependa das condições meteorológicas.

Será que se considerarmos uma abordagem que parta do zero e contemple o custo, a segurança, o tratamento dos resíduos, não podemos resolver todas as questões em torno do nuclear? Vale a pena trabalhar nisso, porque podemos precisar dele para resolver o clima. E por isso, sim, penso que devíamos explorar. Isto não tem nada a ver com a atual geração de reatores. Trata-se de um plano em que a segurança se baseia apenas na física, e não no que os operadores fazem ou não fazem".

J.W.: Então diria que temos de chegar lá até 2050? E que provavelmente vamos ter mais nuclear do que o que temos agora?

B.G.: "Não. Se obtivermos uma invenção milagrosa que nos permita armazenar uma quantidade de eletricidade incrivelmente grande, como duas semanas - que é mais do que o que cada bateria alguma vez feita permite, vezes 10 - se obtivermos isso, então podemos ter apenas as fontes intermitentes juntamente com o armazenamento como solução.

Mas como isso é incerto, temos de seguir todos os caminhos que nos possam levar a zero emissões até 2050. E com o nuclear ainda há muito a provar, incluindo, saber se o público vai estar de mente aberta daqui a cinco anos, se estará ou não de mente aberta para um plano completamente novo".

É ótimo que as pessoas nos países ricos reduzam o consumo e as emissões. Mas isso não é a totalidade do plano para pôr o planeta a zero
Bill Gates
Cofundador da Microsoft e fundador da Breakthrough Energy

J.W.: Mas como é que se gere essa rede? Porque, por exemplo, nos Estados Unidos há muito sol no Sudoeste; como é que se transporta essa energia para o outro lado do país e depois se atravessa fronteiras? Porque também é um problema. Como pretende fazer face a esses desafios?

B.G.: "Em qualquer cenário, a Europa e os Estados Unidos vão ter de construir muito mais transmissão. Porque pode haver uma frente fria e toda a energia eólica e solar parar. Por isso, temos de esperar que, tendo em conta o tamanho do continente, seja possível, algures, obter essa energia. Nós fizemos um modelo de fonte aberta que vai permitir às pessoas jogar com as suas suposições, e o que elas vão ver é que parte da resposta passa por haver muito mais transmissão".

J.W.: Estou interessado na sua reflexão sobre tecnologias um pouco mais controversas; fala de geoengenharia, coisas como tornar o topo das nuvens mais branco, de forma a reflitir mais luz de volta ao espaço, como uma solução de último recurso para lidar com as alterações climáticas. Está realmente a levar essas tecnologias a sério?

B.G.: "Não, isso não é uma solução para as alterações climáticas. Pensei que era importante mencioná-lo no livro, porque há pessoas a olhar para o tema. No máximo, atrasaria o problema uns 10 ou 15 anos, enquanto nos livramos das fontes de emissões. Não mencionar o assunto teria sido um erro, porque existe e as pessoas devem compreender que não é de modo algum uma solução permanente. É provável que não venha sequer a ser usada. Mas quando se é confrontado com este problema catastrófico, tem de se provar que caminhos funcionam ou são um beco sem saída.

J.W.: Podemos construir uma saída dos problemas? Deposita muita fé na tecnologia e o livro faz uma visita guiada pela tecnologia e explica-a. Mas será realmente uma solução ou na verdade precisamos apenas de reorganizar o nosso sistema global?

B.G.: "As populações nos países em desenvolvimento merecem ter um abrigo básico, merecem ter luz à noite. Devido ao calor que vai fazer perto da linha do Equador, merecem ter ar condicionado. Nós não vamos parar todos os voos, todos os edifícios, todos os transportes, toda a pecuária. Portanto, temos de ser capazes de encontrar uma forma de as nossas ações deixarem de afetar o planeta, caso contrário, não será possível chegar às zero [emissões]. É ótimo que as pessoas nos países ricos reduzam o consumo e as emissões. Mas isso não é a totalidade do plano para pôr o planeta a zero".

J.W.: Fala muito em ser justo e correto. Acha que é realmente possível chegar a 2050, ter esse desenvolvimento que gostaria de ver acontecer e chegar a zero emissões?

B.G.: "Sim. Se olharmos para inovações como o chip de computador, as comunicações sem fios, é fenomenal como a qualidade de vida foi melhorada e os tempos de vida são muito maiores. Mesmo estas vacinas na pandemia são grandes exemplos disso. Mas só lá vamos chegar se fizermos proveito dos 30 anos e trabalharmos em todas as fontes de emissões em todos os países.

Por enquanto não temos a métrica certa. Ainda não temos planeadas coisas como essa rede eléctrica. E o livro é uma espécie de apelo à ação, para nos juntarmos e desenharmos um plano, porque é muito importante".

J.W.: Muitos dos nossos telespectadores têm feito perguntas sobre soluções com base na natureza, como, por exemplo, plantar árvores para retirar dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. Será esse um caminho válido? É algo que as pessoas possam fazer por si próprias?

B.G.: "Infelizmente, com 51 mil milhões de toneladas de emissões... A natureza é boa a plantar árvores em muitos lugares, [mas] a redução obtida não vai corresponder uma percentagem elevada.

E teria de se financiar a replantação dessas árvores durante milhares de anos, porque quando se coloca CO2 na atmosfera ele permanece lá durante milhares de anos.

Se dizemos que vamos compensar alguma coisa, [tendo em conta que] as árvores ardem ou morrem em 40 anos, o custo por tonelada para financiar essa ação, a, digamos, quatro mil anos, é muito, muito elevado. Portanto, vermo-nos livres das emissões nestes processos é a única forma de fazer face aos 51 mil milhões de toneladas [de gases emitidos todos os anos]".

J.W.: E acha que tirar mecanicamente o CO2 da atmosfera, utilizando máquinas para esse efeito, é a melhor alternativa?

B.G.: "Financio muitas empresas de captura direta de ar. Mais uma vez, aí o custo por tonelada ainda é demasiado elevado, mas há muitas ideias novas. Hoje em dia, o processo custa mais de 400 dólares por tonelada, o que torna impossível resolver o problema dessa forma. Se conseguirmos que fique abaixo dos 100 dólares por tonelada, já pode ser parte da solução, tal como o hidrogénio ou o combustível para aviação ecológicos. A captação direta de ar é uma das coisas que os governos devem apoiar e onde devem procurar as melhores soluções".

(...) a destruição permanente dos ecossistemas naturais é muito pior do que no auge da pandemia
Bill Gates
Cofundador da Microsoft e fundador da Breakthrough Energy

J.W.: Falando sobre governos, legislação e políticas, o enquadramento adequado é realmente importante e esse tema é abordado mais à frente, no livro. Pergunto-lhe o que pensa sobre o Pacto Ecológico Europeu, que liga os fundos de recuperação do coronavírus aos investimentos no ambiente. Ou seja, não se recebe o dinheiro a menos que haja investimento no ambiente. Acha que a medida é suficiente?

B.G.: "Acho a medida fantástica. É um grande compromisso. Penso que o impacto vai depender da qualidade desses projetos. E é por isso que a nossa equipa científica, que financiou todas estas empresas em fase de arranque, vai tentar colaborar com a União Europeia, tanto quanto possível, nesses projetos, porque é preciso experimentar as coisas à escala. E esse dinheiro pode acelerar o trabalho.

A questão é que vai ser usado para muitas das fontes de emissões, não só a eletricidade renovável ou os automóveis, mas também em áreas muito difíceis. Por isso, é ótimo que tenham assumido o compromisso de financiar esses projetos".

J.W.: Precisamos de inovar em todas as frentes e isso vai exigir muito dinheiro. Acha que os bilionários deste mundo - um clube do qual faz parte - deviam pagar mais impostos e ser obrigados a investir mais nestas áreas?

B.G.: "A política fiscal depende de cada país. Já disse que, nos Estados Unidos, os impostos podiam ser mais elevados. Mas, não sou especialista em tributação europeia. Os governos vão ter de intervir aqui. Vão ter de exigir recursos, tal como fazem para a educação e a saúde".

J.W.: Mas como é que os motiva? Porque, neste momento, há muita motivação para financiar a saúde, mas onde está a motivação para realmente se aprofundar no tipo de inovação e mudança extrema de que está a falar?

B.G.: "Como vimos com a pandemia, o custo de fazer estas novas ferramentas foi de milhares de milhões e vai salvar-nos de uma tragédia económica de biliões e biliões de dólares".

J.W.: Mas como é que se constrói aí a vontade política? Não sei se ela existe, porque os políticos têm uma visão a curto prazo, e nós sabemos isso.

B.G.: "A menos que a geração mais jovem se pronuncie constantemente - e felicito quem o faz - e a menos que os jovens deixem claro o seu ponto de vista, é possível que não tenhamos as políticas certas. E o nível de mortes será dramaticamente mais elevado do que em qualquer momento da pandemia. Se não nos anteciparmos, não vamos conseguir sair dessa situação e vamos sofrer durante muitas décadas".

J.W.: Quero terminar voltando à pandemia. Todos estamos a falar a a pensar na vacina. Existe uma vacina para as alterações climáticas?

B.G.: "Não, precisamos antes de uma dúzia de inovações revolucionárias por causa de todas as fontes de emissões que existem. Não se trata apenas de carros eléctricos, de combustível ecológico para a aviação, de carne artificial. Na indústria, na agricultura, nos transportes, nos edifícios ainda há muito a fazer. Mas os danos e a destruição, a destruição permanente dos ecossistemas naturais é muito pior do que no auge da pandemia. Deve ser uma causa pela qual a humanidade se possa unir. Vai ser difícil, mas se o conseguirmos, será o melhor que já fizemos".