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"Estado da União": O risco de desperdício do fundo contra a pandemia

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"Estado da União": O risco de desperdício do fundo contra a pandemia
Direitos de autor  MARTIN BUREAU/AFP
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A Comissão Europeia prorrogou, esta semana, a suspensão das regras de disciplina orçamental da União Europeia para ajudar a enfrentar o choque económico da pandemia de Covid-19.

"A Comissão afirma, claramente, que retirar o apoio demasiado rapidamente seria um erro político. A melhor maneira de garantir a sustentabilidade da dívida pública, a melhor maneira de reduzir o risco no mercado e o risco de aumento das assimetrias económicas é apoiar a recuperação", explicou Paolo Gentiloni, comissário europeu da Economia.

Mas o dinheiro para a recuperação da crise está a ser gasto da maneira certa? Uma investigação da Finance Watch (associação pan-europeia de organizações não-governamentais na área das Finanças), revela que deverá haver grande desperdício dos fundos por causa do apoio a indústrias não sustentáveis.

Algo que poderá deixar a Europa vulnerável às alterações climáticas e levar à queda nos padrões de vida. Para debater o tema em profundidade, Stefan Grobe entrevistou Benoît Lallemand, secretário-geral do Finance Watch.

Stefan Grobe/euronews: Analisou o plano de recuperação da União Europeia detalhadamente e disse que muitos dos fundos serão desperdiçados. Como é que isso é possível?

Benoît Lallemand/SG Finance Watch: De facto, pensamos que os governos europeus estão a perder uma grande oportunidade para transformar a economia e tornar a nossa sociedade mais resiliente. Basicamente, estão a combater uma espécie de incêndio, em vez de reconstruir melhor a economia. A maior parte da despesa para dar resposta à pandemia visa manter ou reavivar a economia do antigamente. Essa economia é insustentável e conduzirá a mais crises. Portanto, qualquer euro gasto para reavivar um sistema económico insustentável não será só desperdiçado, mas levará a outras grandes perdas no futuro.

Stefan Grobe/euronews: A União Europeia e seus Estados-membros alocaram muito dinheiro para conter o desemprego em vários setores do mercado laboral, mas o senhor diz que esse não só é um caminho errado, mas também que vai aumentar o risco de padrões inferiores na qualidade de vida, no futuro. O que é que o preocupa nessa área?

Benoît Lallemand/SG Finance Watch: Em primeiro lugar, o nosso apelo é que os governos apoiem as pessoas e os trabalhadores no que for preciso, isso é claro. Naturalmente, foi preciso dar benefícios sociais e compensações financeiras devido às medidas de confinamento no curto prazo. Mas é preciso usar o dinheiro da recuperação para construir uma sociedade justa, que respeite os limites ambientais, para oferecer formação aos trabalhadores a fim de transitarem para o tipo de empregos que haverá no futuro, para reconstruir redes de segurança social e apoio direto às famílias em dificuldades e aos proprietários de pequenos negócios, em vez de ajudar grandes empresas que são, sobretudo, parte do problema.

A questão é que todos estão presos a um paradigma político e económico disfuncional, no qual todas as decisões são tomadas na perspectiva do curto prazo: do crescimento da riqueza no curto prazo, nos ciclos eleitorais de curto prazo.
Benoît Lallemand
Secretário-geral, Finance Watch

Stefan Grobe/euronews: Quando apresenta essas conclusões, qual é a reação em Bruxelas e noutras capitais da Europa? Os governantes dão-lhe ouvidos?

Benoît Lallemand/SG Finance Watch: A Comissão Europeia e os Estados-membros estão a ouvir-nos e a alguns estão a fazer esforços na direção certa. A questão é que todos estão presos a um paradigma político e económico disfuncional, no qual todas as decisões são tomadas na perspectiva do curto prazo: do crescimento da riqueza no curto prazo, nos ciclos eleitorais de curto prazo. Portanto, é fundamental que os cidadãos se façam ouvir para que que possamos alcançar uma mudança estrutural.

Stefan Grobe/euronews: Para terminar, a Comissão Europeia divulgou uma perspectiva bastante otimista em relação à recuperação económica no final deste ano. Qual é a sua opinião, partilha dessa visão?

Benoît Lallemand/SG Finance Watch: Sim, até certo ponto, mas, para ser franco, não importa qual vai ser o aumento do PIB daqui a três meses ou a um ano. O PIB é um indicador muito fraco sobre prosperidade, bem-estar e resiliência. O que importa é onde queremos estar dentro de 30 anos e não no próximo trimestre. Honestamente, se analisar as alterações climáticas e a tendência de aquecimento global de mais 4 graus Celsius que se observa, tal levaria a catástrofes de uma escala que faria esta pandemia parecer uma piada. Portanto, pedimos aos governos que repensem o modelo de recuperação, para garantir que aumentamos a resiliência em vez de nos precipitarmos para a próxima crise.