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Artista sírio viveu "Guernica" na realidade da guerra

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De  Anelise Borges
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Artista sírio viveu "Guernica" na realidade da guerra
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"Esta é a Guernica síria. Desenhei-a em 2017. Fiz a fusão do que Picasso pintou com o que senti na guerra na Síria. O que Picasso viu foi incrível - ele tinha esta forma de ler, absorvendo a dor e o choque de uma forma muito forte". As palavras são do pintor sírio Ahmad Sheer, agora refugiado em Antuérpia (Bélgica).

Ahmad Sheer
A "Guernica" síriaAhmad Sheer

A dor e o choque que experimentou no país natal ainda estão gravados na sua arte. O pintor, de 40 anos recusou-se a deixar o seu país até que um dia se viu perante uma escolha: fugir ou juntar-se à guerra: "Estava num autocarro, era professor, um militar entrou no autocarro e começou a pedir documentos de identificação. Perguntou-me qual era o meu nível de treino militar no serviço obrigatório. Eu não queria deixar a Síria, mas envolver-me na guerra é outra coisa. É algo que eu não podia fazer", conta.

O conflito sírio foi o mais complexo a emergir da chamada "Primavera Árabe". O país viu como as potências estrangeiras alimentam as chamas da guerra dentro das suas fronteiras: "A guerra não foi apenas entre sírios - foi assim que começou, e era assim que deveria ter sido. Mas depois a Rússia entrou no conflito para defender o aliado e começaram os ataques aéreos”, diz Ahmad.

As milícias apoiadas pelo Irão já estavam a prestar apoio terrestre ao presidente sírio Bashar Al Assad, enquanto a oposição contava com o apoio financeiro dos países do Golfo. A Rússia viria a alterar irreversivelmente o equilíbrio de poder.

A "Missão Síria" da Rússia foi lançada em setembro de 2015 - dois meses depois de Ahmad ter deixado o país.

Recordações dolorosas

Olhando para as imagens de destruição de uma escola, recorda-se: "O que estamos a ver neste momento é algo que eu vivi. Quando a minha escola foi bombardeada, a minha escola de infância, foi um momento como este. Vivi estes momentos várias vezes. A imagem da minha família a escapar ficou presa na minha cabeça. E não há maneira de ser removida ou esquecida. É impossível".

A viagem de Ahmed levou-o através da Turquia e depois à Grécia, em direção ao norte da Europa. Na Bélgica, foi-lhe dada uma nova oportunidade e reconhecido o estatuto de refugiado.

Hoje, interroga-se: "É um novo período na minha vida. Um novo período que não é negativo nem positivo, é um novo tempo que eu posso dizer que estou sem país. Ou que talvez esteja à procura de um novo país para mim e para a minha família. O problema é que não sei se a palavra refugiado vai ficar comigo. Quero dizer, mesmo que obtenha uma nacionalidade europeia, continuarei a ser um refugiado? Ou serei um cidadão? Não sei se esta incerteza dura um período curto ou se vai ser permanente".

Nome do jornalista • Ricardo Figueira