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Descoberta de sepulturas de crianças revolta indígenas

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De  Francisco Marques
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Bobby Cameron, o chefe da Federação das Nações Indígenas Soberanas do Canadá
Bobby Cameron, o chefe da Federação das Nações Indígenas Soberanas do Canadá   -   Direitos de autor  Kayle Neis/The Canadian Press via AP

Um memorial com luzes alimentadas a energia solar foi instalado este sábado no local onde na última semana foram descobertas751 campas sem registo, junto de um antigo internato para crianças indígenas, em Saskatchewan, no sul do Canadá.

A instalação foi realizada por membros da comunidade Cowessess, responsável pela macabra descoberta.

Um dos membros desta comunidade nativa do Canadá, Chasity Delorme, lembra-se do que lhe diziam "quando era criança e havia funerais".

"Caminhávamos para onde é hoje o cemitério e diziam-nos 'não vás por ali, não vás para ali, porque podem haver aí corpos enterrados'. Estamos apenas no início. Esta é apenas a segunda descoberta tornada pública", afirmou Chasity Delorme, reportando-se a uma outra realizada em maio de restos mortais de pelo menos 215 crianças em Kamloops, junto daquela que terá sido uma das maiores escolas internas para indígenas no país.

Regime de conversão cultural

Os internatos para indígenas fizeram parte de um polémico regime de ensino canadiano em que as crianças eram retiradas às famílias nativas para lhes serem apagados da memória os traços das línguas e culturas das respetivas comunidades e para serem reeducados e convertidos de acordo com os princípios católicos da sociedade dominante.

A Escola Interna para Indígenas de Marieval, junto à qual foram descobertas agora as 751 sepulturas sem registo, foi operada pela Igreja Católica Romana entre 1899 e 1997 na zona onde a comunidade Cowessess está agora instalada, no sudeste de Saskatchewan.

Não é ainda certo se todos os restos mortais encontrados naquelas sepulturas pertencem a crianças que frequentaram a escola, uma das mais de 130 instituições de ensino obrigatório fundadas pelo governo canadiano e dirigidas pela igreja durante os séculos XIX e XX para converter a juventude indígena à doutrina católica.

Estima-se que pelo menos 6 mil crianças tenham morrido nestas instalações de ensino compulsivo devido às más condições de vida a que eram sujeitos. Muitas terão sido mesmo torturadas ou até mesmo sexualmente abusadas pelos supostos educadores.

O primeiro-ministro Justin Trudeau emitiu um comunicado, em nome do Governo, a pedir desculpa as comunidades indígenas do Canadá pelas atrocidades cometidas por este regime de ensino imposto às crianças nativas.

"Nenhuma criança devia ser jamais arrancada da sua família e da sua comunidade, e ter a sua língua, a sua cultura e a sua identidade roubadas. Nenhuma criança deveria ter sido sujeita a passara a preciosa juventude sujeita a uma terrível solidão e abusos", escreveu Trudeau, considerando "as descobertas de Marieval e Kamloops parte de uma enorme tragédia".

"Não podemos trazer as crianças de volta, mas vamos honrar a memória delas e vamos contar toda a verdade sobre estas injustiças", prometeu ainda o primeiro-ministro numa publicação nas redes sociais.

Semanas depois da primeira descoberta, duas igrejas católicas foram incendiadas próximas da zona onde foram encontrados os restos mortais de 215 crianças indígenas. Na semana passada, ainda antes da segunda descoberta, duas outras igrejas católicas na região foram também incendiadas.

Não há provas que liguem os incêndios às descobertas, mas a coincidência e o contexto alimentam as suspeitas de haver relação. "Tem de haver alguma coisa, não pode ser só coincidência", alegou Keith Crow, o chefe da comunidade indígena Lower Similkameen", uma das primeiras nações do Canadá.

Outras fontes • CBC