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Surtos de covid-19 na Bulgária não aumentam confiança nas vacinas

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De  Julian GOMEZ
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Tudo começou com um pouco de sorte. Tinha aterrado em Sófia, a capital da Bulgária, num domingo ameno e soalheiro de novembro. A escassos 500 metros do hotel onde fiquei instalado, cerca de 200 pessoas cantavam, gritavam e faziam barulho. Havia crianças e idosos, famílias inteiras, a bater em tambores e a agitar grandes bandeiras búlgaras e cartazes com mensagens de protesto contra as regras sanitárias e as campanhas de vacinação contra a covid-19.

"Não sou um assassino do avô e da avó"

Entre os manifestantes, uma criança segura uma folha A4 dentro de uma mica de plástico transparente. Na superfície branca, pode ler-se "Não sou um assassino do avô e da avó". Um pouco mais ao lado, várias pessoas seguram uma faixa a dizer "Não concordamos com testes médicos nos nossos filhos".

A Bulgária tem, de longe, a taxa a mais baixa de vacinação da União Europeia, com pouco mais de 25% dos búlgaros totalmente vacinados contra a covid-19.

Nesta manifestação, as reivindicações soam a uma mistura complexa e confusa de desinformação, notícias falsas, teorias da conspiração, descontentamento social e provocação política.

Hristo falava fluentemente inglês e francês. É engenheiro em física nuclear e um dos organizadores do protesto. Diz estar bem ciente da literatura científica sobre a pandemia. O que lhe custa compreeender é "a vacinação à luz das estatísticas. Não vejo a eficácia", afirma.

Outro ativista anti-vacina da covid-19, Kalin Ivanov, diz que protestam não só contra as vacinas, mas também "contra a segregação" e "contra a discriminação. Nós não vivemos na Alemanha nazi. Não vivemos na União Soviética. Vivemos numa democracia liberal. E um dos principais pontos de discussão do liberalismo é o de que os direitos individuais estão acima dos usos colectivos".

(...) menos de um inquirido em cada cinco pretende ser vacinado o mais rapidamente possível na Bulgária (19%)
Eurobarómetro (abril de 2021)

Campanhas de vacinação tentam mobilizar búlgaros

As mensagens anti-vacinação espalham-se e têm efeito entre os búlgaros, apesar de, segundo a Faculdade de Medicina da Universidade Johns-Hopkins, o país ter a pior relação de infeção/óbito por covid-19 na União Europeia.

O vice-Ministro da Saúde em exercício, Aleksandar Zlatamov, atribui a baixa taxa de vacinação a questões logísticas e à instabilidade política no país, que, em oito meses, passou por três eleições legislativas.

O governo tem apostado na internet para fazer campanhas de vacinação e "as coisas estão a melhorar", afirma. "A taxa de vacinação é agora três vezes mais elevada do que em agosto. Esperamos que esta taxa aumente quatro ou cinco vezes a partir de agora até ao final de dezembro".

No entanto, é difícil ver como esses números otimistas se traduzem realmente no terreno. Um dos centros de vacinação mais ativos da capital tem a capacidade de vacinar até duas mil pessoas por dia. A média diária atual é de cerca de 600 a 700 pessoas a virem vacinar-se, a maioria para tomar a terceira dose da vacina contra a covid-19.

O coordenador do centro de vacinação, Dimo Dimov, alega que as novas variantes mostram a urgência da vacinação. "Como médicos, desde o início da pandemia que estávamos convencidos de que os confinamentos e o distanciamento social eram apenas soluções temporárias até termos uma vacina disponível. E agora que a vacina está aqui, reiteramo-nos: as vacinas são a única verdadeira solução real para ultrapassar esta pandemia. A vacinação deve ser a prioridade".

Os búlgaros são mais influenciados por figuras públicas do que pelas instituições
Anatas Stefanov
Sociólogo

A (des)confiança nas instituições

Do outro lado da barricada, há médicos a contribuir ativamente para o clima de dúvida e hesitação em relação às vacinas.

Atanas Hristov Mangarov é chefe do serviço de pediatria de um hospital para doenças infecciosas, nas proximidades da capital. Aos pacientes e suas famílias diz que a segurança e eficácia das vacinas contra a covid-19 existentes não foram suficientemente comprovadas.

"Quando se está vacinado, ainda se pode ser infectado e infectar outras pessoas. Assim, ao imunizar-se, não se protege as outras pessoas. Apenas se protege a si próprio. E esta deve ser a sua própria decisão", defende.

Garante ainda que não está vacinado e revela porquê.

"Trabalho todos os dias na clínica COVID. Entro em contacto com entre 60 e 100 pacientes da COVID todos os dias. Já tive a doença. Não uso máscaras. Não uso luvas, como vêem. Trabalhei com doenças infecciosas durante 39 anos. Sei muito sobre doenças infecciosas, e sei como me proteger".

Um inquérito realizado pela Eurofund e publicado em julho deste ano mostra que os búlgaros estão entre os povos que menos confiam na democracia, no governo e no próprio sistema de saúde.

Neste contexto, diz o sociólogo Anatas Stefanov, não será fácil fazer a população do país ser mais favorável às vacinas

Stefanov participou já em 10 relatórios sobre políticas de saúde relacionadas com o coronavírus, incluindo a campanha de vacinação em curso e conhece o que move a sociedade búlgara, na hora de tomar decisões. "Os búlgaros são mais influenciados por figuras públicas do que pelas instituições. Personalizam as suas opiniões sobre política e vida cívica e preferem a mensagem mais curta e negativa. Há uma enorme falta de confiança nas instituições públicas".

Um partido de extrema-direita acabou de entrar para o Parlamento com um programa abertamente anti-vacinação. Nos meios de comunicação social nacionais são recorrentes as notícias de falsificação de certificados de vacinas.

Após quatro dias de reportagem, deixo a Bulgária a pensar que no país ainda ainda é longo o cominho de aceitação da vacinação contra a covid-19.