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Rock in Rio Lisboa aposta na língua gestual para incluir as pessoas surdas na festa

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De  Francisco Marques  com Agência Lusa
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Matt Beninger, dos The National, voltou a brilhar e desta vez com tradução gestual
Matt Beninger, dos The National, voltou a brilhar e desta vez com tradução gestual   -   Direitos de autor  LUSA/JOSE SENA GOULÃO

A inclusão é uma das ambições deste ano do festival Rock in Rio Lisboa. O evento arrancou no sábado e logo no concerto de abertura, dos portugueses Xutos & Pontapés, a organização estreou em Portugal a utilização de intérpretes de língua gestual para levar as letras das músicas até às pessoas surdas.

Os concertos dos dois palcos principais do Rock in Rio Lisboa, a decorrer no Parque da Bela Vista, têm interpretação em Língua Gestual Portuguesa (LGP), algo "histórico" para as pessoas surdas e desejável "que se repita" noutros festivais.

Sofia Figueiredo, que durante os tempos de pandemia surgiu várias vezes nos ecrãs de televisão durante as conferências de imprensa da Direção-Geral da Saúde e do Governo, está por estes dias no Rock in Rio Lisboa, à semelhança de outros intérpretes de LGP, a fazer chegar às pessoas surdas os concertos do Palco Mundo e do Music Valley.

Para ela, "é um privilégio muito grande" estar num festival com a dimensão do Rock in Rio Lisboa. Para as pessoas surdas, "é histórico", visto que "é a primeira vez que se faz", sublinhou em declarações à Lusa no recinto.

O trabalho visível de Sofia e dos colegas aconteceu no sábado, e vai acontecer hoje e nos dias 25 e 26 deste mês, mas começou há algum tempo.

"O nosso trabalho passa por ter acesso ao alinhamento e ver muitos vídeos das bandas e perceber a forma de elas atuarem, a forma de elas serem. Além do momento, da letra que vamos ouvir, é muito importante conhecermos a banda. E esse é o trabalho que fazemos de preparação", explicou.

Isto porque um intérprete de LPG passa "tudo" a quem não ouve. A letra, "mas também ritmo e melodia".

Para o trabalho de preparação, é importante para os intérpretes terem antecipadamente acesso aos alinhamentos dos concertos, mas nem sempre isso aconteceu.

"Houve artistas internacionais que deram o alinhamento e os portugueses não deram", lamentou, salientando que os artistas "têm que olhar para o trabalho do intérprete não [apenas] como alguém que ouve e que faz".

"Temos que ter acesso a toda a preparação, todas as letras, todas as músicas, porque estamos todos a trabalhar em conjunto para a inclusão", afirmou.

Em frente aos palcos há espaços reservados para as pessoas surdas, perto das colunas, para que possam sentir a vibração da música. É junto a esses espaços que estão os intérpretes, embora não seja o lugar mais adequado.

"O ideal é estarmos no palco ou numa plataforma junto ao palco. Vamos estar num terreno que não é inclinado, ao mesmo nível das pessoas surdas, e isso vai fazer com que elas não vejam tão bem a nossa tradução", disse Sofia Figueiredo.

Idealmente, os intérpretes estariam "mais elevados", para que as pessoas os possam ver, mas também aos artistas. "Temos que garantir que as pessoas surdas consigam olhar para nós, visionar tudo o que estamos a interpretar em LGP, mas também possam olhar para o artista, para toda a atuação", referiu.

Ainda que sem as condições ideais, Sofia Figueiredo espera que a interpretação de LGP em festivais de música "se repita e venham cada vez mais".

"A inclusão é isto mesmo: estarmos todos no mesmo espaço em partilha", salientou.

A inclusão é algo em que a organização do Rock in Rio Lisboa, segundo a coordenadora de sustentabilidade do festival, Dora Palma, está este ano "a trabalhar muito mais", com o apoio da Santa Casa da Misericórdia, que garante, por exemplo, a interpretação em LPG através dos serviços especializados da Hands Voice.

Além da interpretação em LGP "há audiodescrição espalhada por vários sítios do evento, através de um qr code, um mapa tátil, é possível trazer cães guia" e "há duas plataformas, uma no Palco Mundo e outra no Music Valley, para pessoas com mobilidade reduzida, seja ela temporária ou permanente".

Nas duas plataformas há também audiodescrição do que se vai passando e do que está a acontecer em palco, à qual as pessoas cegas têm acesso através de um pequeno equipamento de áudio disponível nos espaços.

Como o Parque da Bela Vista "é um desafio", a pensar em quem se desloca em cadeiras de rodas, há também "umas motos que se acoplam às cadeiras de rodas, para a pessoa ter mais independência e mobilidade dentro da 'cidade do rock'".

"O que queremos é criar as condições para que mais pessoas possam usufruir e para que o Rock in Rio seja um evento para todos", referiu Dora Palma.

Além disso, a organização está a "trabalhar com associações na integração de jovens com deficiências na equipa de 'catering'".

"A nossa visão de inclusão não é apenas para o nosso público, mas também para quem trabalha connosco", salientou Dora Palma.

Quem quiser aceder aos serviços disponibilizados no festival tem apenas que "aparecer, dirigir-se às plataformas, aos pontos de informação ou à equipa da Santa Casa em permanência na entrada do recinto".

O Rock in Rio Lisboa abru sábado com concertos de Xutos & Pontapés, Liam Gallagher, The National e Muse, que substituíram há algumas semanas os Foo Fighters.

O festival vai decorrer até ao próximo domingo. Esta noite, com os Black Eyed Peas a fechar e no próximo fim de semana com concertos de Duran Duran, A-Ha, UB40, Bush, António Zambujo, Ney Matogrosso e Post Malone.

Editor de vídeo • Francisco Marques