Enquanto as tensões entre Washington e Paris atingiram um pico sobre as ambições territoriais de Trump no norte da Europa, a publicação da mensagem de texto de Emmanuel Macron por parte de Donald Trump na rede “Truth Social” traz novas questões sobre o Médio Oriente.
Em parte da mensagem de texto enviada ao seu homólogo norte-americano, o presidente francês Emmanuel Macron escreveu: “podemos fazer grandes coisas no Irão”, uma frase vaga que sugere que os dois países preparam algo importante em relação à República Islâmica.
Mas o que significa este “grande trabalho”, numa altura em que o Irão testemunha protestos generalizados a nível nacional que deixaram milhares de mortos? Será que Donald Trump, ao expor a mensagem, pretende reforçar o papel mediador de França antes de começarem quaisquer negociações com os líderes da República Islâmica?
Tendo em conta os protestos nacionais em curso no Irão, a mensagem de texto do presidente francês sobre fazer “grandes coisas no Irão” poderia ter sido enviada com um dos seguintes quatro objetivos:
1. Cenário de “mudança gerida”: Emmanuel Macron sempre encarou os seus desafios diplomáticos como o homem das “terceira soluções”. Com base nisso, provavelmente terá sugerido a Donald Trump que invistam numa “transição estrutural” em vez de uma guerra ou sanções de baixo impacto. A tentativa de França de ter a Rússia presente nas reuniões de Paris poderá representar uma tentativa francesa de satisfazer a Rússia e convencê-la a deixar de apoiar Teerão, em troca de receber concessões na Ucrânia, abrindo assim caminho a uma grande convulsão interna no Irão.
2. Cenário “desarmamento versus sobrevivência”: o desejado “grande trabalho” de Macron pode ser um acordo muito restrito sobre mísseis nucleares, uma conquista diplomática presciente que Trump poderá reivindicar como um triunfo pessoal. Dado o historial de França em estabelecer canais com Teerão, Macron poderá desempenhar um papel mediador.
Como resultado, este cenário pode significar uma mudança nas regras do jogo sem a ocorrência de uma guerra direta, ou seja, com um endurecimento coordenado das sanções, e uma limitação das redes de aliados do Irão na região. O equilíbrio de poder no Médio Oriente será assim redesenhado a favor de Israel e dos países do Golfo. A política de desescalada da pressão económica e política sobre o Irão é igualmente redesenhada.
3. Cenário de coligação para a “contenção máxima”: O presidente francês pode procurar chegar a acordo sobre a participação das tropas europeias estacionadas no Médio Oriente em qualquer possível ação militar dos EUA contra o Irão, ou oferecer um plano de apoio logístico aos manifestantes iranianos e a grupos de oposição, o que pode significar um empurrão final para o colapso económico da República Islâmica. A palavra “grande” aqui pode significar uma mudança total de regime com o menor custo militar e económico para o Ocidente.
4. Cenário simbólico e “isco psicológico”: Macron sabe que Trump é sensível à linguagem da hipérbole e da “grande conquista”. Portanto, a frase pode ser vista como "linguagem persuasiva", mais do que um programa detalhado. Por isso é possível que o presidente francês tenha usado o texto “podemos fazer grandes coisas no Irão” como uma espécie de “isco psicológico” para incentivar Donald Trump a aceitar o seu convite para ir a Paris, para conversações multilaterais sobre a Ucrânia e a Gronelândia. Nesse caso, o Irão pode ser apenas parte de um esquema maior para fazer com que Trump desista da ideia de adquirir a Gronelândia e impor mais tarifas contra a Europa.
Porque é que Trump divulgou o texto?
A divulgação da mensagem por parte de Trump pode ter sido uma tentativa de apaziguar o seu homólogo francês. Ao fazê-lo, mostrou aos apoiantes que os líderes da Europa estavam "alinhados” para obter a sua opinião sobre uma variedade de tópicos, nomeadamente a Gronelândia.
Com esta ação, voluntariamente ou sem querer, Trump expôs preventivamente quaisquer eventuais negociações secretas entre Paris e Teerão, a fim de fechar o caminho à "diplomacia secreta" francesa.
Na sequência de mensagens anteriores dirigidas aos manifestantes iranianos e de um plano prometendo ajudá-los, o presidente dos EUA deu a entender que as grandes potências estavam na reta final do processo de decidir o que fazer quanto aos desenvolvimentos no Irão.
Em suma, a divulgação desta mensagem não significa o início de um acordo definitivo, mas sim uma ilustração da competição entre as grandes potências à volta da situação no Irão, em que cada jogador tenta determinar, antes do outro, as regras do jogo.