Dique cedeu junto à A1, na região de Coimbra, com a água a escorrer para campos agrícolas no local. Luís Montenegro alertou para “a possibilidade de outras ruturas poderem vir a acontecer nas próximas horas”. Coimbra procede a novas evacuações.
Um dique do rio Mondego rebentou esta quarta-feira nos Casais, junto do viaduto ao quilómetro 191 da A1. A informação foi confirmada pela Proteção Civil, num ponto de situação ao início da noite.
"Pelas 18h00 tivemos a rutura do dique em Casais, Coimbra, junto ao viaduto da A1, na margem direita do Mondego", informou o comandante Mário Silvestre que indicou que a água no local está "a sair para a zona dos campos agrícolas, de momento sem impactos significativos".
Na sequência desta rutura, e "em virtude do potencial comprometimento dos pilares da A1 naquela zona", procedeu-se ao corte da autoestrada nos dois sentidos, de forma a evitar a passagem de veículos naquele local.
Mário Silvestre garantiu que os meios estão mobilizados e em estado de prontidão para o caso de ser necessário acioná-los.
Em Coimbra, Luís Montenegro também mencionou o rebentamento que, segundo ele, "provocará naturalmente o efeito de cheia, um efeito lento, que começará a atingir as populações de quer de Coimbra quer de Montemor-o-Velho". “Sabíamos que estávamos no limiar da capacidade de escoamento do caudal do rio Mondego e que esta situação podia ocorrer”, afirmou o primeiro-ministro, que não descarta a possibilidade de novas ruturas.
O primeiro-ministro salientou a atitude preventiva das autoridades, que já haviam procedido a evacuações preventivas nas zonas ribeirinhas do Mondego e pediu à população que não resistisse aos pedidos das autoridades para deixar as habitações. "Estamos mesmo a tratar da segurança das pessoas em primeiro lugar”, afirmou.
A nível nacional, a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, ressalvou o período excecional "que dura já há três semanas".
"Só nestes dois dias, a precipitação equivale a 20 por cento da precipitação média de Portugal no ano inteiro", explicou a ministra que indicou ainda que a descargas nas barragens "equivalem a um ano de consumo de água no país".
Também em Coimbra, Marcelo Rebelo de Sousa salientou a prevenção que segundo ele "começou com diálogo com Espanha" na gestão das descargas das barragens. O presidente da República lembrou o fenómeno meteorológico que Portugal enfrenta, com a chuva intensa praticamente sem pausa, e ressalvou ainda o trabalho dos munícpios das ações de evacuação e ajuda às populações.
Novas zonas evacuadas em Coimbra
Na mesma conferência de imprensa, Ana Abrunhosa, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, informou que, "para além das zonas já evacuadas e das zonas de concentração já conhecidas, estamos a evacuar uma nova zona que resulta, não da rutura do dique, mas do facto do rio Velho já estar a inundar estas zonas".
Entre as novas localidades evacuadas como medida de prevenção, estão São Martinho de Árvore, Quimbres e São João do Campo. O ponto de encontro para a população foi definido na EB 2/3 de São Silvestre, que está preparada para receber os residentes deslocados.
A autarca garante que irão "manter a situação de prevenção" até, pelo menos, sábado de manhã. "Pedimos paciância, sabemos que não é fácil, já passaram várias semanas, temos esperança que no sábado possamos dar boas notícias, mas não podemos facilitar", explicou.
"Mesmo no limiar"
O Presidente da República e o primeiro-ministro estiveram durante a manhã desta quarta-feira, numa reunião nas instalações da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em Coimbra, para se inteirarem dos desafios colocados pelo mau tempo na região, nomeadamente a iminente rutura dos diques do Mondego.
"Estamos mesmo, mesmo no limiar. É nesse limiar que se tem de gerir a situação possível (...) O que se pode fazer, está-se a fazer", assegurou Marcelo Rebelo de Sousa em declarações aos jornalistas no local.
O chefe de Estado afirmou que os responsáveis da APA, os autarcas da região e as instituições sociais estão a juntar esforços no terreno e a fazer tudo o que é possível.
O chefe do governo, Luís Montenegro, reiterou que todos os meios estão a ser mobilizados.
"Vivemos um tempo de grande exigência, de um desafio extremo. Estamos no limiar da capacidade possível para conter estas águas do rio Mondego e, portanto, a palavra é simultaneamente tranquilidade porque tudo aquilo que pode ser feito está a ser feito, incluindo a medida preventiva mais extrema que é a evacuação", notou.
Ainda durante o dia, o primeiro-ministro comprometeu-se a rever a obra hidrográfica do Mondego, que "precisa de ser atualizada". Entre os planos do primeiro-ministro está o avançar da construção da barragem de Girabolhos.
Três mil pessoas retiradas de zonas ribeirinhas do Mondego
As autoridades locais começaram a retirar cerca de três mil pessoas das suas casas, na última noite, devido ao risco de cheias.
A Proteção Civil regional garante que só regressarão quando estiverem reunidas todas as condições de segurança.
"Estamos a falar do deslocamento de mais de três mil pessoas. É uma operação gigantesca. Durante a noite não houve uma subida significativa, mas há um risco de os diques do rio Mondego poderem colapsar e causar inundações", disse o comandante Pedro Araújo, da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), citado pela Lusa, acrescentando que as autoridades continuam a monitorizar a situação.
Na última noite, a Proteção Civil registou 1576 ocorrências, entre inundações, quedas de árvores e deslizamentos, sem causar vítimas.
Em relação às ocorrências registadas, o comandante da ANEPC destacou que a maioria foram inundações (719), seguidas de desabamentos de estruturas (418), queda de árvores (267) e movimentos de massa (264).
Aluimentos de terras na margem sul do Tejo
Um novo deslizamento de terras na Costa da Caparica, esta quarta-feira, levou à evacuação de um prédio e à retirada de 31 pessoas. O Comando Sub-Regional da Península de Setúbal confirmou à Lusa que não houve vítimas.
“A arriba que está junto destes prédios está a ter movimentos e, cerca das 03h38, uma pedra de dimensões significativas deslizou e atingiu o número três da Rua João Azevedo. Esta situação obrigou à retirada de 31 pessoas, que foram entretanto encaminhadas para equipamentos da autarquia e para casa de familiares”, disse Comando Sub-Regional da Península de Setúbal.
Este prédio foi o que sofreu mais danos devido ao impacto, mas outros edifícios ao nível rés-do-chão foram também evacuados, por precaução. A operação mobilizou 17 operacionais e seis veículos.
Ainda esta quarta-feira, ocorreu outra derrocada na Charneca da Caparica, no mesmo concelho de Almada, que obrigou a retirar o condutor de uma viatura que ficou imobilizada na via. Este incidente ocrreu pelas 06h16 e o homem não sofreu ferimentos.
Vários deslizamentos de terras em cinco dias na Caparica
Também no sábado, 35 pessoas foram retiradas de três edifícios que ficam juntos a uma arriba fóssil em São João da Caparica, na Costa da Caparica, depois de ter sido registado um deslizamento de terras. Um dos apartamentos foi atingido, mas não houve registo de feridos.
De acordo com a presidente da câmara de Almada, Inês de Medeiros, citada pela Lusa, a arriba localizada junto aos edifícios que foram evacuados encontra-se "ensopada", tendo-se formado uma "éspecie de cascata" com a água a ser desviada.
Os deslizamentos de terra nas arribas são uma das grandes preocupações na zona da Costa da Caparica, sobretudo devido ao risco que representam para moradores, comerciantes e banhistas.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) tinha alertado na terça-feira para a previsão de chuva e vento por vezes fortes devido à depressão Nils, que, ainda assim, não deverá afetar diretamente Portugal continental.
Avisos meteorológicos em vigor
Em aviso laranja, entre as 06h00 e as 18h00 desta quarta-feira, estão Viseu, Porto, Vila Real, Santarém, Viana do Castelo, Leiria, Aveiro, Coimbra e Braga. Bragança, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Setúbal e Lisboa estão, por sua vez, sob aviso amarelo de chuva, válido até às 18h00.
Portugal continental foi atingido no dia 27 de janeiro pela depressão Kristin, a que se seguiu a Leonardo e a Marta, que causaram 16 mortos e centenas de feridos e desalojados.