Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

Europa: desaparecimento de aves denuncia falhas no sistema agroalimentar

Euronews Green falou com Anna Staneva, responsável pela ciência e pela conservação de espécies e habitats na BirdLife Europe, para saber mais.
Para saber mais, a Euronews Green falou com Anna Staneva, responsável pela área de Ciência e Conservação de Espécies e Habitats na BirdLife Europe. Direitos de autor  Euronews and AP
Direitos de autor Euronews and AP
De Denis Loctier
Publicado a Últimas notícias
Partilhar Comentários
Partilhar Close Button

Agricultura intensiva está na origem do desaparecimento das aves europeias, alerta especialista à Euronews Green.

As populações de aves na América do Norte diminuíram 15 por cento nos últimos 40 anos, de acordo com um estudo publicado na revista Science.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Na Europa verifica-se o mesmo cenário, há já várias décadas.

A Euronews Green falou com Anna Staneva, responsável pela área de Ciência, Conservação de Espécies e de Sítios da BirdLife Europe, para perceber o que está a acontecer e por que é que a situação importa muito para além das próprias aves.

Queda acentuada das aves

Os dados são recolhidos desde a década de 1980, quando cientistas começaram a acompanhar de forma sistemática as populações de aves em toda a Europa.

«As aves também estão a diminuir na Europa, e a um ritmo bastante acentuado», diz Staneva.

Aves das zonas agrícolas foram as mais afetadas, como pardais, cotovias e abibes, que em tempos enchiam o campo. «Os dados de que dispomos mostram de forma consistente quedas, sobretudo nas aves agrícolas, em que, à escala europeia, os declínios nos últimos 40 anos chegam quase aos 60 por cento», explica Staneva.

Não se trata apenas de espécies agrícolas. Aves florestais, aves aquáticas, migradoras de longo curso: as perdas são generalizadas. Em partes da Europa Central, a picança-de-dorso-ruivo, um pequeno predador de vista aguçada que antes era presença comum, diminuiu mais de 92 por cento em apenas 30 anos.

Agricultura intensiva prejudica as aves

As alterações climáticas são parcialmente responsáveis pelo declínio das populações de aves, ao alterar o calendário das estações e baralhar os sinais de que dependem para se reproduzir. Mas o principal fator é bem mais prosaico.

«Numerosos estudos mostram de forma consistente que uma das maiores e mais significativas ameaças para as aves na Europa é a agricultura intensiva», afirma Staneva.

A agricultura industrial moderna transformou a paisagem rural a uma velocidade e escala a que a vida selvagem não consegue adaptar-se. As sebes foram arrancadas. Os pousios, que antes formavam um mosaico de habitats nos terrenos agrícolas, deram lugar a vastas monoculturas despidas. E depois há os químicos.

Pesticidas e fertilizantes, nota Staneva, «são prejudiciais para as aves de forma direta, mas também afetam a capacidade de reprodução e a continuidade das populações».

Parte do problema é indireta, mas devastadora. Quando os pesticidas eliminam insetos e outros invertebrados na paisagem, retiram o alimento de que as aves adultas precisam para alimentar as crias.

Saúde das aves está ligada à saúde humana

Tal como acontece com grande parte da natureza, a saúde humana está interligada com a vida selvagem.

«As aves são um excelente indicador do estado de saúde do ambiente», diz Staneva. «Ao perdermos números muito elevados de aves, perdemos funções no ecossistema que estão ligadas à produção de alimentos e à capacidade do nosso ecossistema se adaptar às alterações climáticas.»

As aves prestam-nos serviços que em grande medida deixámos de notar. Consomem pragas agrícolas. Dispersam sementes. Mantêm o sistema a funcionar. Quando desaparecem, esses serviços desaparecem também e passamos a depender ainda mais dos mesmos pesticidas que estão na origem do declínio.

Há também um custo humano mais difícil de medir. A investigação mostra de forma consistente que estar na natureza – e simplesmente ouvir o canto das aves – reduz o stresse e a ansiedade. Quanto mais silencioso se torna o meio rural, pior é para nós, não apenas para elas. «Quando falamos em declínios das aves, temos de ter presente que isso é um indicador da saúde global do ambiente», sublinha Staneva.

Exigem-se políticas favoráveis à natureza

A boa notícia é que se sabe que a conservação resulta. Abutres regressaram aos céus europeus. Pelicanos-dálmatas estão a recuperar. Esforços direcionados, com tempo e recursos, podem trazer espécies de volta da beira da extinção.

Mas essas vitórias continuam a ser pequenas e dispersas. Staneva deixa claro que a crise é sistémica. «O declínio global indica um problema que não é apenas regional, é um problema sistémico.» Corrigir a situação implica mudar, de forma fundamental, a forma como produzimos alimentos.

«É necessária uma mudança sistémica e transformadora na forma como produzimos os nossos alimentos, uma mudança na forma como trabalhamos a terra», afirma.

A Europa dispõe de instrumentos: a Política Agrícola Comum pode apoiar práticas agrícolas favoráveis à natureza e a nova Lei da Restauração da Natureza pretende recuperar 20 por cento da área terrestre e marinha da UE até 2030. Se os governos irão cumprir é outra questão.

«Precisamos que os países juntem esforços na aplicação de medidas mais favoráveis à natureza», diz Staneva, «e, ao serem amigas da natureza, serão também mais benéficas para a saúde humana».

Editor de vídeo • Denis Loctier

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários

Notícias relacionadas

Clima em aquecimento favorece pinguins-rei, mas pode não ser boa notícia

Reino Unido: vida selvagem britânica vai ser homenageada nas notas

Ultrassons podem salvar ouriços-cacheiros europeus dos atropelamentos e da extinção