Orbán, que em tempos classificou as ambições climáticas da UE como uma «fantasia utópica», foi substituído por Péter Magyar.
As eleições de hoje na Hungria afastaram Viktor Orbán do cargo de primeiro-ministro, que ocupava há 16 anos, na sequência de uma vitória esmagadora nas urnas.
Depois de ter descrito as ambições climáticas da UE como uma “fantasia utópica” – acusando-as de fazer subir os custos da energia e de destruir a classe média –, Orbán apoiou frequentemente políticas em contradição com os objetivos de neutralidade carbónica definidos pelo próprio governo.
Mas será que isto vai mudar com o novo líder do Partido Tisza, Péter Magyar?
Apesar de o político de 45 anos ter sido membro do Fidesz de Orbán, há um otimismo cauteloso em relação às suas promessas de combater com firmeza a corrupção e reconstruir as relações desgastadas da Hungria com a União Europeia.
Durante a campanha, o Partido Tisza, de centro-direita e pró-UE, prometeu pôr fim à negociação política em torno das questões ambientais, restaurando mecanismos independentes de proteção da natureza e impondo uma regulamentação mais rigorosa às indústrias poluentes.
“Os investimentos não podem pôr em risco a saúde das pessoas e a competitividade do país não pode assentar na destruição do ambiente”, afirmou o Partido Tisza, em fevereiro, na sua página oficial no Instagram.
“Queremos construir um país onde se possa viver bem, não apenas até às próximas eleições, mas para as próximas gerações.”
Hungria: partido Tisza procura independência energética
Recém-eleito, o Partido Tisza promete aliviar os laços do país com a Rússia e aproximá-lo mais das posições da UE.
Comprometeu-se a pôr fim, até 2035, à dependência húngara da energia russa e a duplicar, até 2040, a quota de energias renováveis.
O governo de Orbán resistiu repetidamente às sanções da UE sobre o petróleo russo após a invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022, insistindo nas importações baratas provenientes da Rússia. Esta opção permitiu à Hungria manter alguns dos preços de energia mais baixos da Europa, mas deixou o país vulnerável a choques.
Apesar de a Hungria já ter avançado na aposta na energia solar – que, juntamente com o abandono progressivo do carvão, tem contribuído para uma descida lenta mas constante das emissões –, o mix energético do país continua dominado pelos combustíveis fósseis.
Um reforço do investimento em energias renováveis produzidas no próprio país aumentaria a resiliência de longo prazo da Hungria.
Uma cooperação mais estreita com a União Europeia deverá também desbloquear milhares de milhões de euros em fundos congelados destinados à transição ecológica.
Hungria: repressão às indústrias poluentes
No prometido aperto às indústrias poluentes, o Partido Tisza apontou diretamente às fábricas de baterias.
Algumas das maiores polémicas ambientais do país têm sido precisamente as instalações de produção de baterias detidas por empresas chinesas, sul-coreanas e japonesas, que se multiplicaram pelo território nos últimos anos, impulsionadas por subsídios estatais e por uma regulamentação fraca.
Protestos e ações em tribunal surgiram devido à tóxica poluição do ar, à contaminação das águas subterrâneas e às descargas ilegais de resíduos por parte de algumas destas unidades, anulando parte dos benefícios ambientais das tecnologias verdes que produzem.
Mais transparência, mecanismos de controlo anticorrupção e instituições ambientais mais fortes e independentes dariam às autoridades instrumentos para regular melhor ou encerrar as unidades mais nocivas.
Hungria: proteger a água como recurso nacional
Tal como grande parte da Europa, a Hungria tem enfrentado secas e ondas de calor que colocam forte pressão sobre os recursos hídricos e o cenário é pouco animador num contexto de aceleração das alterações climáticas.
No início de 2025, os níveis de água tanto no Danúbio como no Tisza aproximaram-se de mínimos históricos.
Uma onda de calor e seca prolongadas em 2024 provocou danos superiores a 100 mil milhões de forints (273 milhões de euros) no setor agrícola. O fraco tratamento de águas residuais e a excessiva dependência de águas subterrâneas para consumo humano tornaram a situação ainda mais precária.
O partido de Magyar afirma querer atenuar a crise através de grandes infraestruturas de retenção de água, sistemas de rega modernizados e medidas de adaptação climática na agricultura.
Algum trabalho preparatório já foi feito sob a liderança de Orbán: um programa de renovação de infraestruturas lançado em 2025 começou a aumentar em 300 quilómetros a rede de canais e a construir ou modernizar mais de 130 infraestruturas hidráulicas, para reforçar a capacidade de armazenamento de água para a agricultura.
Os impactos vão além do ambiente. Uma melhor gestão da água promete reforçar a segurança alimentar e apoiar a economia rural, um eleitorado-chave para Magyar, que tem procurado conquistar o apoio das comunidades agrícolas húngaras.
Durante os governos de Orbán, as zonas rurais foram muitas vezes conquistadas com subsídios de curto prazo – incluindo o uso gratuito de água para fins agrícolas – em vez do investimento de longo prazo em infraestruturas que, segundo os especialistas, o país necessita com urgência.
A capacidade de Magyar para concretizar essa visão de longo prazo, enquanto reconstrói a confiança com Bruxelas e desbloqueia fundos europeus congelados, será um dos grandes testes do seu primeiro mandato.