Há mais de sete décadas que Sir David Attenborough alerta para a crise ambiental, mas teremos seguido os seus conselhos?
Ao longo das últimas sete décadas, Sir David Attenborough dedicou a carreira a revelar a complexidade e a diversidade dos ecossistemas da Terra, inspirando uma geração a ligar-se ao mundo natural.
É a voz por detrás de cerca de uma centena de documentários e séries de televisão que levaram o público das profundezas do oceano Pacífico até à natureza gelada da Antártida. E hoje, 8 de maio, completa 100 anos.
Para assinalar o centenário do lendário comunicador, que começou a carreira como produtor estagiário na BBC em 1952, a Euronews Earth analisa como o planeta mudou – para melhor e para pior – ao longo da extraordinária vida de Attenborough.
David Attenborough frente à crise da biodiversidade
No documentário da BBC de 2020 Extinction: The Facts, Attenborough alertou que a perda de biodiversidade se está a tornar num dos maiores desafios do nosso tempo, ameaçando a segurança alimentar e hídrica, reduzindo a nossa capacidade de controlar o clima e aumentando o risco de doenças pandémicas.
“Ao longo da minha vida encontrei algumas das espécies animais mais extraordinárias do planeta”, disse o comunicador. “Só agora percebo a sorte que tive. Muitas destas maravilhas parecem prestes a desaparecer para sempre.”
De acordo com o Relatório Planeta Vivo (fonte em inglês) de 2024, do World Wildlife Fund (WWF), em apenas 50 anos, entre 1970 e 2020, registou-se um declínio “catastrófico” de 73 % na dimensão média das populações de vida selvagem monitorizadas.
Os recuos mais acentuados foram observados nas populações de água doce, com 85 %, seguidas das terrestres, com 69 %, e das marinhas, com 56 %. Entre os dados incluídos no Índice Planeta Vivo contam-se uma queda de 57 % nas fêmeas de tartaruga-de-pente nidificantes entre 1990 e 2018 na ilha de Milman, na Grande Barreira de Coral, na Austrália, e um declínio de 65 % nos golfinhos-cor-de-rosa da Amazónia.
Apesar destes avisos contundentes, as alterações climáticas continuam a devastar o mundo natural. No mês passado, os pinguins-imperador e as focas-peludas-antárticas passaram a ser classificados como “Em Perigo” na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), à medida que os gases com efeito de estufa continuam a derreter a Antártida.
A organização de conservação Fauna & Flora alertou que só este ano algumas das espécies mais singulares do mundo estão a ser empurradas para a extinção, incluindo a aranha Psychedelic earth tiger e o leopardo-nublado.
A floresta amazónica, muitas vezes descrita como os pulmões do planeta, atingiu um estado crítico, com cerca de um quinto da sua área já destruída. Décadas de desflorestação foram recentemente apontadas como causa das cheias mortais que assolaram a Indonésia no ano passado, ameaçando ainda mais o já vulnerável orangotango-de-Tapanuli.
Ainda assim, o quadro não é totalmente sombrio. Esforços de conservação em todo o mundo começam a produzir resultados concretos, oferecendo um vislumbre de esperança em plena crise.
No mês passado, cerca de 100 bandicutes-orientais-de-riscas, considerados extintos na Austrália continental, foram libertados numa ilha costeira perto de Melbourne após o primeiro programa de resgate genético do mundo.
Em 2025, as tartarugas-verdes foram oficialmente reclassificadas de “Em Perigo” para “Pouco Preocupante”, depois de se revelar que a população global tinha aumentado cerca de 28 % desde a década de 1970. A recuperação impressionante foi atribuída a décadas de esforços de conservação centrados na proteção das fêmeas nidificantes e dos seus ovos nas praias, na redução da captura insustentável de tartarugas e ovos para consumo humano e no combate à captura acidental em artes de pesca.
O bisonte-europeu também está a regressar a várias regiões do continente, graças a iniciativas que remontam à década de 1950. Nos últimos 10 anos, o número estimado de bisontes-europeus em liberdade aumentou de 2 579 para 7 000 indivíduos, com os maiores efectivos na Bielorrússia e na Polónia.
Estes animais majestosos ajudam a reforçar a biodiversidade, a restaurar ecossistemas complexos e até a capturar carbono. Um rebanho de 170 bisontes-europeus pode armazenar, através do pastoreio em pastagens e da reciclagem de nutrientes, uma quantidade de carbono equivalente às emissões anuais de 84 000 automóveis a gasolina médios nos Estados Unidos.
Outros casos de sucesso incluem o “rewilding” de tauros, uma raça de grandes bovinos selvagens, nas Highlands escocesas, e o regresso dos alces à Alemanha graças a projetos de conservação.
Epidemia de plástico
A produção de plástico aumentou de forma dramática nos últimos 100 anos, ameaçando alguns dos ecossistemas mais vulneráveis do planeta.
Segundo a plataforma Our World In Data, em 1950 produziam-se apenas dois milhões de toneladas de plástico. Hoje fabricam-se mais de 450 milhões de toneladas por ano.
Cerca de metade desse plástico é concebido para ser usado uma única vez, e o equivalente a 2 000 camiões do lixo cheios de plástico é despejado diariamente nos oceanos, rios e lagos do mundo.
Os microplásticos – partículas de plástico com menos de 5 milímetros – tornaram-se praticamente omnipresentes na Terra, infiltrando-se em bosques rurais, na água que bebemos e até nos glaciares supostamente imaculados da Gronelândia.
Foi um dos temas centrais da série premiada Blue Planet 2, lançada em 2017.
Imagens comoventes de tartarugas-marinhas enredadas em plástico, de um albatroz a alimentar acidentalmente o filhote com detritos plásticos e de uma cria de baleia que se julgou ter morrido devido a plástico tóxico deixaram os espectadores chocados e sem esperança. Mas também desencadearam uma onda de ação.
Uma sondagem realizada em 2019 pela GlobalWebIndex (fonte em inglês), junto de 3 833 pessoas nos Estados Unidos e no Reino Unido, concluiu que, quando Attenborough lançou um apelo à ação para combater os resíduos de plástico na segunda série de Planet Earth, as pesquisas por “reciclagem de plástico” dispararam 55 % no Reino Unido.
Na sequência do documentário, os inquiridos relataram uma redução de 53 % no consumo de plásticos de utilização única, dando origem à expressão popular “efeito Attenborough”.
“Fiquei absolutamente espantado com o impacto que esse programa teve”, disse Attenborough numa entrevista à BBC. “Nunca imaginei que houvesse tanta gente inspirada a querer mudança.
“Têm ido para as praias, em números nunca vistos, apanhar lixo. As famílias mudaram os seus hábitos e escolas e comunidades têm procurado formas de reduzir a sua pegada de plástico.”
A UE proibiu oficialmente em 2021 vários artigos de plástico de utilização única, como talheres, pratos e palhinhas, e mais recentemente apertou as regras sobre os grânulos de plástico “nurdles”, mortais para a vida marinha quando ingeridos.
No início deste ano, cientistas colocaram em operação uma frota de drones e robots recolhedores de lixo capazes de identificar autonomamente detritos no fundo do mar, no âmbito da Missão Restaurar o Nosso Oceano e as Águas da UE, que pretende reduzir o lixo marinho em cerca de metade até 2030.
Os testes já começaram numa marina em Marselha, em França, e na Alemanha, estando previstas mais provas ao longo deste ano.
E na semana passada descobriu-se que uma “árvore milagrosa” consegue remover 98 % dos microplásticos da água potável, superando as alternativas químicas.
Apesar destes avanços notáveis, é inegável que a cultura do descartável se está a agravar. Especialistas preveem que a produção e o consumo globais de plástico atinjam impressionantes 736 milhões de toneladas em 2040, um aumento de 70 % face a 2020, apesar da maior consciência sobre as consequências.
Transição para um mundo sem combustíveis fósseis
É difícil falar de natureza sem reconhecer que as alterações climáticas estão a impulsionar a sua degradação.
Segundo a ONU, os combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás – são de longe o maior factor de alteração do clima global, responsáveis por cerca de 68 % das emissões de gases com efeito de estufa e por quase 90 % de todas as emissões de dióxido de carbono.
À medida que o planeta aquece, o mundo perde espécies a um ritmo mil vezes superior ao de qualquer outro período da história humana registada.
A transição para longe dos combustíveis fósseis tornou-se um dos temas centrais da nossa época, mas os Estados petrolíferos têm trabalhado arduamente para travar avanços. No ano passado, todas as referências aos combustíveis fósseis foram eliminadas do acordo final da COP30, apesar do impulso crescente para definir um calendário de eliminação.
Mesmo assim, o crescimento rápido das energias renováveis começa a desafiar o statu quo. Há 100 anos, a energia limpa de fontes como o vento e o sol era praticamente uma utopia; hoje representa uma fatia significativa da produção elétrica mundial.
“O mundo vivo é essencialmente alimentado a energia solar”, disse Attenborough em 2021. “As plantas do planeta captam três biliões de quilowatt-hora de energia solar por dia. Isto é quase 20 vezes a energia de que precisamos, só a partir da luz do sol.”
“É absurdo que os nossos bancos e os nossos fundos de pensões estejam a investir em combustíveis fósseis quando são precisamente eles que põem em risco o futuro para o qual estamos a poupar”, acrescenta Attenborough.
Desde que o comunicador fez estas declarações, a produção de energia limpa superou o aumento da procura global de eletricidade, empurrando pela primeira vez a geração a partir de combustíveis fósseis para terreno negativo em 2025, segundo um relatório do think tank de energia Ember.
No total, a quota das renováveis – incluindo solar, eólica, hidroelétrica e outras formas de energia limpa – ultrapassou pela primeira vez na história moderna um terço do cabaz elétrico mundial no ano passado, com um crescimento de 33,8 %. Em sentido inverso, a produção a carvão caiu para menos de um terço da geração global, recuando 0,6 % em 2025.
A guerra no Irão reforçou os argumentos a favor das renováveis, levando os europeus a concentrarem-se em energia limpa produzida internamente. As vendas de painéis solares dispararam em países como o Reino Unido e a Alemanha, a par da adoção de bombas de calor e do aumento das vendas de veículos elétricos (VE).
Um novo relatório (fonte em inglês) da Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA) concluiu que, quando a energia solar e eólica é combinada com armazenamento em baterias, já consegue competir em custos com novas centrais a carvão.
No mês passado, 56 países reuniram-se em Santa Marta, na Colômbia, para a primeira conferência internacional dedicada a traçar uma transição justa e ordenada para o abandono dos combustíveis fósseis. O encontro representou um momento importante na diplomacia global antes das negociações oficiais da ONU sobre o clima (COP31), que decorrerão em Antália, na Turquia, de 9 a 20 de novembro de 2026, sob presidência turca e com a Austrália a liderar as negociações.
A França deu depois um passo decisivo ao publicar o seu roteiro nacional para a saída progressiva dos combustíveis fósseis (fonte em inglês). O plano prevê o fim da utilização de carvão até 2030, de petróleo até 2045 e de gás para produção de energia até 2050, como parte do objetivo mais amplo de alcançar a neutralidade carbónica.