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Calor extremo ameaça saúde e desempenho dos jogadores no Mundial, alerta relatório

Vista geral do Estádio de Kansas City, segunda-feira, 11 de maio de 2026, antes dos jogos do Mundial de futebol de 2026 em Kansas City, Missouri.
Vista geral do Kansas City Stadium, segunda-feira, 11 de maio de 2026, antes dos jogos do Mundial de futebol de 2026 em Kansas City, Missouri Direitos de autor  AP Photo/Charlie Riedel
Direitos de autor AP Photo/Charlie Riedel
De Angela Symons
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Cientistas do clima apelam à FIFA e aos adeptos para que percebam que nenhuma área da sociedade fica imune às alterações climáticas.

Este verão, o Mundial de futebol regressa à América do Norte pela primeira vez desde 1994.

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Muita coisa mudou nos últimos 32 anos, com fenómenos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes e intensos, impulsionados pelas alterações climáticas provocadas pelo ser humano.

“O Mundial de 1994 pode não parecer particularmente distante para muitos adultos de hoje, mas metade das alterações climáticas induzidas pelo homem aconteceu desde então”, afirma a Dra. Friederike Otto, professora de ciências do clima no Imperial College London e cofundadora da World Weather Attribution (WWA), um esforço internacional para analisar e comunicar a possível influência das alterações climáticas nos fenómenos meteorológicos extremos.

Os Estados Unidos acabam de atravessar o período de 12 meses mais quente desde que há registos da NOAA, aumentando os receios quanto à segurança dos jogadores e dos adeptos durante o torneio, que se realizará em 16 cidades no Canadá, nos EUA e no México.

A grande dispersão geográfica dos jogos poderá dificultar ainda mais a adaptação dos jogadores, que terão de enfrentar condições climáticas muito diferentes, segundo analistas da WWA.

Um novo relatório da organização alerta que o risco de calor extremo durante os jogos duplicou, em alguns estádios, desde 1994.

Face a isto, os organizadores foram obrigados a introduzir medidas de segurança, como horários mais tardios e pausas obrigatórias para arrefecimento – mas o relatório avisa que tanto adeptos como jogadores poderão ainda enfrentar temperaturas perigosas num número significativo de partidas.

Calor extremo pode afetar um quarto dos jogos do Mundial

Segundo a WWA, em cerca de um quarto dos jogos é esperado que a Temperatura de Globo de Bulbo Húmido (WBGT, na sigla em inglês) ultrapasse os 26°C, criando níveis significativos de stress térmico.

A WBGT tem em conta a temperatura do ar, a humidade, a velocidade do vento e a radiação solar para avaliar como o calor afeta o corpo humano.

“Um dia de 30°C em condições secas e ventosas é muito diferente de um dia de 30°C com elevada humidade, sol forte e pouco vento”, explica o Dr. Chris Mullington, anestesista consultor e professor clínico honorário no ICL. “A humidade elevada reduz a evaporação do suor, limitando o principal mecanismo de arrefecimento do corpo.”

Um valor de 26°C WBGT é considerado um nível de risco de stress térmico moderado a elevado, sobretudo durante atividades intensas como o desporto profissional, exigindo precauções para prevenir doenças relacionadas com o calor. Nestas condições, “o desempenho dos jogadores pode ser afetado”, alerta o Dr. Mullington.

Para tentar reduzir os riscos, os organizadores do Mundial 2026 vão impor pausas de hidratação obrigatórias, de três minutos, a meio de cada parte, dividindo assim os jogos em quatro períodos.

Cerca de cinco jogos deverão disputar‑se com 28°C, um nível que o sindicato global de futebolistas profissionais, a FIFPRO, considera inseguro, recomendando o adiamento. No entanto, os regulamentos oficiais da FIFA apenas admitem o adiamento quando a WBGT ultrapassa os 32°C.

“Acima dos 28°C, o risco de doenças graves relacionadas com o calor torna‑se mais preocupante – não só para os jogadores, mas também para os centenas de milhares de adeptos nos estádios e em festivais de adeptos ao ar livre”, afirma o Dr. Mullington.

“O golpe de calor, a forma mais grave de doença causada pelo calor, é potencialmente fatal, e as pessoas mais velhas e aquelas com doenças pré‑existentes são particularmente vulneráveis.”

Risco de calor em alta: Mundial 2026 enfrenta mais jogos perigosos do que em 1994.
Risco de calor em alta: Mundial 2026 enfrenta mais jogos perigosos do que em 1994. WWA

Quais são os jogos do Mundial com maior risco de calor extremo?

Vários estádios em risco não dispõem de ar condicionado, incluindo o MetLife Stadium, em Nova Iorque, ao ar livre, onde será disputada a final do Mundial. Segundo a WWA, o risco de perturbações relacionadas com o calor neste recinto aumentou até 50 por cento desde o Mundial de 1994.

“Existe um risco muito real de termos jogos disputados em condições inseguras para jogadores e adeptos”, alerta a Dra. Joyce Kimutai, investigadora associada em fenómenos meteorológicos extremos e alterações climáticas no ICL.

Um dos recintos mais expostos é o Miami Stadium, também ao ar livre, que, segundo a WWA, tem uma “quase certeza” de ultrapassar os 26°C e deverá acolher um jogo dos quartos de final e o jogo de atribuição do terceiro lugar.

Apesar das tentativas de reduzir o risco de calor com horas de início mais tardias, o estádio de Kansas City continua perigosamente exposto. O jogo entre os Países Baixos e a Tunísia, por exemplo, tem 7 por cento de probabilidade de ultrapassar o limiar dos 28°C e 25 por cento de probabilidade de exceder os 26°C – apesar de começar às 18h00. O estádio vai também receber um jogo dos quartos de final.

O estádio de Filadélfia, que acolherá um jogo da fase a eliminar no Dia da Independência dos EUA, além de cinco partidas da fase de grupos, foi igualmente identificado como estando em risco.

Dallas, no Texas, apresenta uma probabilidade quase certa de ultrapassar os 28°C WBGT. Os adeptos que festejarem no exterior do AT&T Stadium, que dispõe de ar condicionado e receberá vários jogos, incluindo as duas meias‑finais, poderão, por isso, estar sujeitos a um risco elevado de stress térmico.

Probabilidade de cada jogo do Mundial 2026 enfrentar temperaturas de 28°C WBGT ou mais.
Probabilidade de cada jogo do Mundial 2026 enfrentar temperaturas de 28°C WBGT ou mais. WWA

Calor ao nível do cancelamento é alerta para as alterações climáticas

Se as temperaturas globais continuarem a subir, os modelos climáticos da WWA indicam que o calor perigoso nas potenciais cidades anfitriãs de Mundiais continuará a agravar‑se.

A organização alerta que, sem medidas de adaptação substanciais, como um acesso generalizado ao ar condicionado, realizar jogos de futebol durante o verão no hemisfério norte se tornará cada vez mais perigoso para jogadores e espectadores.

“A nossa investigação mostra que as alterações climáticas estão a ter um impacto real e mensurável na viabilidade de organizar Mundiais durante o verão no hemisfério norte”, afirma a Dra. Otto.

“O facto de a própria final do Mundial – um dos maiores eventos desportivos do planeta – enfrentar um risco nada negligenciável de ser disputada com um calor ao nível do cancelamento deve servir de aviso para a FIFA e para os adeptos, sublinhando a necessidade urgente de reconhecer que não há qualquer esfera da sociedade que não seja afetada pelas alterações climáticas.”

Com adeptos a participarem em concentrações ao ar livre, as medidas de adaptação não chegam para garantir a segurança, alerta a WWA. A organização apela a uma transição rápida para longe da queima de combustíveis fósseis, a fim de mitigar os perigos das alterações climáticas.

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